<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219</id><updated>2011-12-15T01:10:10.177-02:00</updated><title type='text'>ANÁLISE PÚBLICA</title><subtitle type='html'>Textos fundamentais à compreensão do ser humano enquanto ser humano incompreendido e incompreensível. Artes, política, mitologia, psicanálise, literatura, piadas mal contadas, risos bem dotados, adolescentes tardios, erotismo intelectual, macaquices verbais, músicas odiáveis, moralidade questionável, verdades e mentiras, noticiários e tudo aquilo que poderia ser escrito de modo direto e assim perderia a graça do prazer da leitura. Tudo analisado em público e para o público.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>143</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-5306636029437407760</id><published>2010-04-02T22:24:00.000-03:00</published><updated>2010-04-02T22:24:00.147-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Os dias têm passado lentos pela falta de expectativas. Não aquelas que dizem respeito a acertos financeiros e desculpas por falta de carro e casa e comida. Os dias têm passado lentos por meu abandono a um futuro meu, privado. Passou o tempo de me sentir compelido a realizar grandes coisas, ou mesmo as pequenas; deixei para trás aquilo que me dizia respeito para seguir adiante estabelecendo a possibilidade de futuro de meus filhos. Olho para as coisas que ficaram e realmente me sinto estúpido. Tivesse eu fé talvez pudesse me sustentar nas asas de anjos e assim ser levado em momentos de descanso a um paraíso de afagos e amor e irmandade. Nem isso está me mim - se esteve um dia. Amor e ódio, excludentes. A existência de um impossibilita o outro. Nada de complementares. Nada. E nem mesmo isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muita raiva existia em mim. Frustrações várias e o desejo de encontrar um modo de alcançar a resposta: o que me levaria à felicidade? Um modo de não sofrer. Um sentimnto de insatisfação e a necessidade de ser alguém bom apesar de toda a raiva. Uma fúria sem tamanho em contradição com os valores que achei ter assumido. Tudo poeira em meus olhos. Tudo impedimento à visão do que realmente estava óbvio na minha frente todo o tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez eu pudesse ter utilizado melhor aquilo que em mim tenho para conseguir construir algo melhor. Talvez... mas não fiz nada. O que me incomodou sempre foi a incapacidade de ser realmente alguém bom. Algo que nunca consegui de verdade. Na contraposição de uma educação voltada para o abandono e a apatia, tentei viver uma vda adulta de realizações. Sem sucesso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nesse rumo passei tempo demais mascarando minhas insatisfações com o silêncio.  Achando-me incapaz de enfrentar palavras e ações de abandono fiquei quieto tempo demais. Deixei que sentimentos a principio fáceis de lidar tornassem quimeras. Na máscara do compreensível - daquele que entende e aceita - fui me afundando mais e mais até me ver isolado de todos e mesmo de mim. Logo a única coisa concreta que eu tinha era uma imensa raiva, que eu lidava com a fantasia do entendimento e do aceitar e do falso perdão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raiva e insatisfação, uma mistura com fermento próprio. Uma receita que engoli tempo demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hora de mudar de dieta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-5306636029437407760?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/5306636029437407760/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=5306636029437407760' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5306636029437407760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5306636029437407760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2010/04/os-dias-tem-passado-lentos-pela-falta.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-5074807704567690901</id><published>2009-10-09T07:42:00.003-03:00</published><updated>2009-10-09T07:56:48.388-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Hoje, convenhamos, estou afeito ao lugar comum e ao cansaço que tanto vejo ao meu redor e ouço falar. Não me sinto realmente tomado pela falta de energia, mas é ânimo. Os acontecimentos se sucedem e me levam ao ponto de desobedecer aquilo que acredito. E com isso sensações desagradáveis tomam conta de mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso se seria umdesconforto passageiro (certamente é) e busco me convecer que basta "dar tempo ao tempo". Neste momento penso que seria boa idéia usar o nome do blog para inspirar este texto. Ou seja, expor o caso. O que se passa em mim que torna a vida tão compreensível e mesmo assim tão estafante de lidar? Ontem imaginei, ao ler um livro do Dalai Lama, que eu deveria melhor analisar meu espírito e suas questões. Com um corte seco viajo para a Autobiografia de um iogue e me quero convencido de que a vida de homens santos - famosos ou não - serve de modelo para a minha. E então me lembro que não sou santo, e nem nunca me imaginei assim, e que apenas gostaria de escapar do sofrimento. E então me dou conta que eu sei das ferramentas e do número de vezes que as usei - infinitas - e de como esmoreço ao ser tomado por objetivos outros, menores na escala de minha existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora, além da janela carros passam esporádicos. Um homem abre o portão da garagem. Minha mão dói na altura do "pai de todos". Um flash da proibição de cigaros em lugares fechados e uma indagação que se torna a certeza de que divago por modelos. Parar a mente - mushin.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, por que me dei ao trabalho debuscar tanto pela vida toda e quando sei como encaminhar os processos me dou ao luxo de me entregar ao modelos - passado, futuro, fantasia. Será preciso uma melhor análise das questões do espírito? Nâo me refiro a buscar as causas de meus traumas e somatizações (existe uma diferença entre tensão postural e psicoemocional), não me quero retraumatizar. O que busco entender é onde está a certeza inexorável capaz de no momento presente me mostrar que a única escolha possível é a definida por meus valores e objetivos? Sim, uma vez mais, aí está o processo. Eu preciso saber melhor quais são meus valores e objetivos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por enquanto... enquanto busco aquilo que já sei, mushin. A luz em mim ilumine meu caminho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-5074807704567690901?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/5074807704567690901/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=5074807704567690901' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5074807704567690901'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5074807704567690901'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2009/10/hoje-convenhamos-estou-afeito-ao-lugar.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-5291745909363517313</id><published>2009-07-14T11:17:00.001-03:00</published><updated>2009-07-14T11:18:23.260-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Detro em breve estarei postando material novo. Provavelmente um romance, ou algo assim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-5291745909363517313?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/5291745909363517313/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=5291745909363517313' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5291745909363517313'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5291745909363517313'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2009/07/detro-em-breve-estarei-postando.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-3865739408191549618</id><published>2008-07-17T15:56:00.001-03:00</published><updated>2008-07-17T15:56:59.681-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Meu corpo são dois corpos sensíveis ao variar do amarelo do ipê ao vermelho nacarado do ácer outonal e linfa com o odor das patas do jaguar enquanto os bastonetes de meus olhos me dizem que desfaleço sempre ao confessar ser incapaz de ver o negror do coração de meu mais profundo amor e paixão pois flutua montados sobre artérias salgadas e veias doces e articulações escavadas no granito e ossos compostos de mil milhões de granículos vulcânicos e carne rescendendo ao sabor de carvalhos e perobas e células divididas em mil folhas sendo as folhas dos galhos de meus pulmões as mais delicadas e feito nuvens oscilantes de tranqüilidade sobre o oceano de meus desatinos ou talvez minhas unhas sejam apenas a fúria descontrolada e cinza a pairar solene sobre os Himalaias de um sonho de angústia e melancolia por meus dois corpos estarem se decompondo ao ritmo de meu espírito que não mais se reconhece como sendo um apesar do pulsar febril de meu coração escamoso abissal a continuar a piscar na distância infinita da estrela azul de teu olhar que nunca verdadeiramente será meu apesar d’eu sonhar um dia com o casamento da eterna natureza de deus com a finita veleidade de meu existir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-3865739408191549618?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/3865739408191549618/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=3865739408191549618' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3865739408191549618'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3865739408191549618'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/07/meu-corpo-so-dois-corpos-sensveis-ao.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-3851683604867768203</id><published>2008-07-15T18:09:00.002-03:00</published><updated>2008-07-15T18:13:14.858-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>E lá vamos nós. A vida continua e hoje eu tive uma visão. Sentado, olhando através de uma janela descoberta pelo vento, veio a epifania. Eu não me sinto eu. De repente, como um átimo antes da grande explosão de Hiroshima, tive meus olhos abertos pelo azul do céu. Minha vida está errada. Algo está fora de sincronia e preciso ajeitar isso. Você sabe o que é perceber de súbito que seu metrônomo deu pau? Pois foi isso. O músico me síncope.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhando pela calçada, atento às lojas de veículos (estou procurando uma moto pra comprar) foi como se meus pés fossem de outrem. Mal toca pelo solo, é assim que me senti. Mal tocado pela vida que vivo e assim usufruindo de uma existência fake. Se tivesse um Marlboro teria acendido para ser levado para as nuvens como é levado para o céu a nicotina que tanto mata.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-3851683604867768203?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/3851683604867768203/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=3851683604867768203' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3851683604867768203'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3851683604867768203'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/07/e-l-vamos-ns.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-5566722064326483783</id><published>2008-05-10T16:29:00.000-03:00</published><updated>2008-05-10T16:30:46.155-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>um amigo olhou para o ladoe procurou ao redor algo que lhe desse conforto. Sem encontrar, abaixou os olhos e foi para o chão, onde uma fila de formigas carregava um gafanhoto morto - talvez caçado, talvez penas morto como tantos mortos. Com a ponta dos dedos, mexeu no cadáver e pensou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;talvez a vida seja isso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e levantou-se e desistiu de procurar. Acendeu um cigarro e tossiu espasmódico. Estava gripado e com dor de garganta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- por que eu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;jogou o tubete albino para longe e esfregou a palma da mão no reboco úmido e viu que o muro podia ser melhor, assim como podia ser melhor tanto de sua vida e quem sabe sua morte. Abaixou-se, pegou o cigarro e voltou a fumar. Cada trago um peneumotórax, cada suspiro uma avalanche de pigarro e de desgosto por ser quem era e quem podia ser não se manifestava. Desceu a rua até a esquina e esperou que o sinal abrisse. Dois carros observavam-se. Um deles loira, o outro moreno. Cada qual perdido em pensamentos mundanos. Um vislumbrava a família aguardando o almoço recé-comprado, outro repensava as horas que havia pasdsado deitado em uma cama desconhecida e agora se arrependia pois havia esquecido a chave do apartamento em algum lugar entre a recepção e o quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Onde estou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu o acusava de estar longe demais de si mesmo e ainda mais da vida que objetivou desde que era uma criança. Um dia acordou e viu que o berço não mais existia e que uma forte chuva que durava uma semana havia desistido de ser céu e tornara-se enxurrada no meio fio. Com os olhos mansos apoiou as mãos no beiral da janela e viu que a rua estava brilhando diamante e as pedras de paralelepípedo nunca estiveram tão belas. Correu para o quarto de sua mãe e pediu licença e pediu para dormir um pouco com ela que havia trabalhado a madrugada inteira. Sob as cobertas, com as cortinas fechadas, não mais havia sol ou chuva ou brilho ou dia exuberante, apenas o calor do corpo da mãe e a sensação de que a segurança da vida estava além da belexa ou mesmo de toda a força de uma existência paupatada em desígnios naturais. Sua vida se regia pelo sentimento de amor que naquele momento estava na sua mãe e que com o passar dos anos migrou para outras mulheres até que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não deve ser assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atravessou a rua antes que o sinal abrisse e deixou bravo o carro loira e o moreno e correu para o ponto de táxi e pediu que o endereço fosse um nunca antes sido e desceu do automóvel com o peito arfante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você ainda me aceita?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sombras de mim, ocultas em um corpo que amo e nas noites e nos dias e nos brilhos que se ocultam até que uma chuva alumbrada surja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amor que não desaparece até que consumido por ele mesmo, coração faminto e desesperado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-5566722064326483783?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/5566722064326483783/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=5566722064326483783' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5566722064326483783'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5566722064326483783'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/05/um-amigo-olhou-para-o-ladoe-procurou-ao.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-1015986269863539246</id><published>2008-04-18T16:37:00.003-03:00</published><updated>2008-04-18T16:40:30.531-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ontem passei pela maior crise de falta de paciência dos últimos anos. Caía um alfinete e eu explodia. Uma coisa que estou desacostumado, ainda mais que cada vez que vinha a sensação ruim, eu sabia que devia fazer desaparecer e, estranho, na maioria das vezes eu não queria que desaparecesse. Sentia necessidade de explodir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje acordei melhor. Não sei o quanto, mas melhor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chuva continua. Caminhei sob ela e isso refrescou minha mente. Imagino o tempo todo que estou carregando uma lata de água sobre a cabeça. Isso me impede de me curvar aos sentimentos ruins. Chamo de sistema lavadeira de rio. Pessoas que estão na pobreza, falta tudo e ainda assim exibem uma postura de força e orgulho pelo que são. Admiro essas pessoas. Gente como essas tribos masai, africanas, que na maior das misérias conseva esse ar de garbo e poder que mesmo toda a riqueza do mundo posta contra eles, querendo humilhá-los, não rouba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuo lendo a autobiografia de timothy leary. Muita coisa que eu não sabia de sua vida e a percepção de como eles eram ingênuos ao mesmo tempo que lutavam para transformar o mundo em um lugar melhor (ou talvez seja apenas hipocrisia e o que eles queria era se alienar). De qualquer modo, prefiro pensar que estavam buscando um mundo diferente do das misérias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aldous huxley os aconselhou a ficar na surdina, transformando pessoas influentes e que isso faria o trabalho de, com o tempo, levar a boa nova ao mundo. Não seguiram o mestre e se ferraram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O legal é perceber que Huxley estava certo. Veja o que acontece hoje. Todos os jovens acorrem às festas à procura de drogas com traços de LSD. A psicodelia está solta e fazendo a cabeça e, espero, abrindo cabeças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse clima instável vejo a minha vida. Um dia de sol, um dia de chuvas, e sempre a esperança de que tudo se ajeite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esse cansaço eu estou escrevendo pouco. Preciso arrumar isso. Manter minha sanidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-1015986269863539246?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/1015986269863539246/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=1015986269863539246' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/1015986269863539246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/1015986269863539246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/04/ontem-passei-pela-maior-crise-de-falta.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-4166902924466647311</id><published>2008-04-08T15:40:00.002-03:00</published><updated>2008-04-08T15:52:21.443-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Música preenche-me nos estados vazios. Algo inerte toma forma e se conduz feito massa ainda não cortada em tiras feito macarrão. Dentro de mim - ai está - existe um amontoado disforme e clamando por uma máquina que a amasse e torne possível discernir ali algum alimento. Quem iria se interessar por aquilo que não tem forma, não tem a nobreza da suave tecitura do pão cilindrado? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, como eu dizia, ali está o vazio. Já senti isso antes. Faz algum tempo (nunca fui bom com datas) quando eu ainda me sentia forte e adlto o bastante para ser quem eu quisesse ser. Eu caminhava sobre pedras centenárias (perdido e sem dnheiro, é verdade) sentindo o fedor desagradável dos canais de Veneza. Apear dos conselhos eu quis conhecer a cidade mais bela do planeta.&lt;br /&gt;- É verão, você vai se arrepender.&lt;br /&gt;Desci do ônibus e lá estava eu, como dsse, cainhando sobre pedras centenárias. Feito o torto homem de sombrinha, contornei os fundos do império Romano e finalmente me dei às caras com a praça de são Marcos. Milhões de pombas revoaram ao saber que eu ali estava (ou teria sido o menino correndo com aquela alegria em mim já perdida). Era um tempo diferente do de hoje, quando o mundo ainda não havia sdo reduzido por WEBs e passagens de avião mais baratas. Era um período da história que um dia será conhecido como o grande vão. O decênio inconclusivo que deu origem aos yuppies, hipsters diversos e, mais significatis, aos deserdados de si, como eu.&lt;br /&gt;Larguei um bom emprego de redator no Brasil para gastar o pouco dinheiro no velho continente. Sonhando que ali estaria, em algum lugar muito bem escondida, a pedra filosofal de meus amores.&lt;br /&gt;(ah, como pode ser que desde sempre o amor foi um mistério para mim, justo mim, eu Tarzan desprovido de Janes e Chitas e rico somente daquilo que chamam o cipó da lógica)&lt;br /&gt;Na beira do canal principal, observando gôndolas e lanchas - principalmente lanchas - quis eu perguntar à gaivota onde estava o leão veneziano.&lt;br /&gt;- Talvez se você questionar um guia ele possa te responder. Eu, por meu lado, nã me dou bem com qualquer parente dos gatos miseráveis.&lt;br /&gt;E lá foi ela em um vôo alçado pelo despeito.&lt;br /&gt;Sim, era de massas disformes que eu falava. De odores pútridos e canais repletos de olhares curiosos e noivas de nariz tapado com lenços Balenciaga. De um tempo ensimesmado e de mim, soturno em pleno meio-dia, na mais bela cidade do universo. Sim, não sinto sadade de nada daquilo e muito mneos dos pratos e das reformas de apartamento. E como poderia? De tudo o que perdi, restou em mim o máxmo da mixordia. Eu, espírito aceso, ainda desejoso hoje de se saber certo de si e não a massa disforme, pútrida, noiva de nariz ardido e sem esperaça de uma prazeirosa noite de núpcias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-4166902924466647311?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/4166902924466647311/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=4166902924466647311' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4166902924466647311'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4166902924466647311'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/04/msica-preenche-me-nos-estados-vazios.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-4816589399109663610</id><published>2008-03-05T16:55:00.002-03:00</published><updated>2008-03-05T16:58:50.559-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Dá pra tirar água de pedra; dá pra encontrar gelo no sol; dá pra sobreviver à morte e até mesmo ao grande amor que nos abandona sem motivo ou explicação. O que não dá pra entender é quem diga que não existem coisas extraordinárias a serem feitas mesmo enfiado em um escritório escuro ou na cozinha ou no banheiro (sem trocadilhos ou outros onanismos consumados). Aprender - vejam só - é uma das cisas mais extraordinarias do ser humao e de outros seres vivos também. E não é preciso talento, só empenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aleluia!!!!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.collegehumor.com/moogaloop/moogaloop.swf?clip_id=1785929&amp;fullscreen=1" width="480" height="360" &gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true" /&gt;&lt;param name="movie" quality="best" value="http://www.collegehumor.com/moogaloop/moogaloop.swf?clip_id=1785929&amp;fullscreen=1" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-4816589399109663610?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/4816589399109663610/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=4816589399109663610' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4816589399109663610'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4816589399109663610'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/03/d-pra-tirar-gua-de-pedra-d-pra.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-1432389720096847740</id><published>2008-03-05T16:42:00.002-03:00</published><updated>2008-03-05T16:45:45.616-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Tem gente que precisa de uma montanha, o céu inteiro, o oceano e todos os seus mistérios ou o universo em sua escuridão aterradora. Tem gente que precisa de uma praça de laimentação e um bom trablho de corpo. Quando se manifesta o espírito de eu sou ago e faço aqui - tá ntendendo? - eu faço aqui que você poderia fazer e não faz porque está ocupado demais fazendo algo pra outra pessoa porque te pediram, te mandaram, te fizeram covarde ante o destino que devia ser seu e não pelo simples detalhe das voltas coloridas de um colar que chamam coleira e de um setimento chamado covardia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;resumindo, um cara dançando em uma praça de alimentação e se divertindo e divertindo gente pracaramba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.collegehumor.com/moogaloop/moogaloop.swf?clip_id=1754988&amp;fullscreen=1" width="480" height="360" &gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true" /&gt;&lt;param name="movie" quality="best" value="http://www.collegehumor.com/moogaloop/moogaloop.swf?clip_id=1754988&amp;fullscreen=1" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-1432389720096847740?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/1432389720096847740/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=1432389720096847740' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/1432389720096847740'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/1432389720096847740'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/03/tem-gente-que-precisa-de-uma-montanha-o.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-4278120956311828246</id><published>2008-03-05T16:35:00.001-03:00</published><updated>2008-03-05T16:37:07.614-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Voar parece ser a última fronteira. Ou é apenas uma frase de efeito. O ecerto é que... pensando bem, melhor mudar o raciocínio. Onde está o caminho a seguir quando tudo aquilo que a gente tem está preso em um espírito mesquinho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.collegehumor.com/moogaloop/moogaloop.swf?clip_id=1778371&amp;fullscreen=1" width="480" height="360" &gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true" /&gt;&lt;param name="movie" quality="best" value="http://www.collegehumor.com/moogaloop/moogaloop.swf?clip_id=1778371&amp;fullscreen=1" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-4278120956311828246?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/4278120956311828246/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=4278120956311828246' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4278120956311828246'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4278120956311828246'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/03/voar-parece-ser-ltima-fronteira.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-9039561265895680099</id><published>2008-02-22T18:30:00.001-03:00</published><updated>2008-02-22T18:32:52.153-03:00</updated><title type='text'>Ski-Gliding</title><content type='html'>A vida inteira a gente faz escolhas, e muitas delas nos levam para onde não queremos. Um vento que desvia a trajetória segura e nos faz dar de cara com um penhasco. Centímetros da morte, do desespero, da solidão. E não é sempre assim? Será que é possível ter coragem de escolher a trilha mais íngreme, o equipamento mais inusitado, o momento de glória silenciosa e o frio que dentro suplanta a neve dos olhares?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="425" height="355"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/Ut1kGmOhzWQ&amp;rel=1"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="wmode" value="transparent"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/Ut1kGmOhzWQ&amp;rel=1" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="355"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-9039561265895680099?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/9039561265895680099/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=9039561265895680099' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/9039561265895680099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/9039561265895680099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/02/ski-gliding.html' title='Ski-Gliding'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-6671896316714217313</id><published>2008-02-22T16:24:00.001-03:00</published><updated>2008-02-22T16:25:48.280-03:00</updated><title type='text'>Surf em maremoto</title><content type='html'>Se não fosse comercial você acreditaria? Se não tivesse algo mais a venda que não fosse a visão da morte alheia, você acreditaria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="425" height="355"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/WkCudOGrSRo&amp;rel=1"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="wmode" value="transparent"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/WkCudOGrSRo&amp;rel=1" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="355"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-6671896316714217313?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/6671896316714217313/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=6671896316714217313' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/6671896316714217313'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/6671896316714217313'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/02/surf-em-maremoto.html' title='Surf em maremoto'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-1965325356487139395</id><published>2008-02-22T16:16:00.003-03:00</published><updated>2008-02-22T16:18:57.402-03:00</updated><title type='text'>Base Jump em Sótano de las Golondrinas</title><content type='html'>Acordar pela manhã e caminhar em qualquer direção nesta cidade de mortos-vivos (ah, Curitiba que ´caixão e útero)para compreender que todos têm o olhar absorto, escapando do presente para encontrar uma possível felicidade onde nada existe de verdade. Não fosse a esperança imortal, eu saltaria nesse abismo sem cordas e sem vela e me deixaria levar pelas paredes descobertas para encontrar no solo mais fundo que o solo aos meus pés agora aquilo que me condena a continuar adiante tremendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="425" height="355"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/SWw-HCsNH00&amp;rel=1"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="wmode" value="transparent"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/SWw-HCsNH00&amp;rel=1" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="425" height="355"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-1965325356487139395?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/1965325356487139395/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=1965325356487139395' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/1965325356487139395'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/1965325356487139395'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/02/base-jump-em-stano-de-las-golondrinas.html' title='Base Jump em Sótano de las Golondrinas'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-5423560863582020046</id><published>2008-02-22T12:05:00.002-03:00</published><updated>2008-02-22T12:10:04.765-03:00</updated><title type='text'>Juba, sniper iraquiano</title><content type='html'>Sniper é aquele cara que usa um rifle de precisão e mata à distância. Nesse caso, é um iraquiano (ou vários) que acertam soldados americanos. Po causa dos coletes à prova de balas, atira no pescoço ou nas pernas. As imagens abaixo mostram a ação e, diferente da ficção, não existe uma história atrás dos personagens. O anonimato torna o filme algo nsípido, distante. A percepção da vida perde o sentido em algo como a guerra. Como disse escreveu Rosenstock-Houessy, as doenças da linguagem são a guerra, a crise, a revolução e a degeneração. quando não há comunicação temos a guerra. O sniper é o exemplo prova. À distância não existe comunicação, não existe relação nenhuma. O tiro como um ruído branco. Acontece na paisagem. Alguém cai, morto ou ferido, e a vida continua. A política deveria ser a arma contra as guerras e outras doenças da linguagem. A política, tão mal-falada deveria ser o meio de evitar o pior. Mas não é isso que acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;embed src="http://www.liveleak.com/player.swf" width="450" height="370" type="application/x-shockwave-flash" pluginspage="http://www.macromedia.com/go/getflashplayer" flashvars="autostart=false&amp;token=e536c3bebc" scale="showall" name="index"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-5423560863582020046?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/5423560863582020046/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=5423560863582020046' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5423560863582020046'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/5423560863582020046'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2008/02/juba-sniper-iraquiano.html' title='Juba, sniper iraquiano'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-4277662359789233989</id><published>2007-11-06T18:46:00.000-02:00</published><updated>2007-11-06T18:50:44.515-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Se eu tivesse duas velas, com uma delas incendiaria o inferno e com a segunda iluminaria meu caminho ao céu, pra condenar todos aqules estúpidos ao degredo da eternidade, condenados uma vez mais ao cinza da desesperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem dias que parece que nada é capaz de luminar meu dia, nem mesmo o astro celeste ou a forma mais pura de poesia. Qualquer palavra é engodo para meus sentidos e sentimentos. Todos os desenhos e imagens e sensações me alimentam como o veneno da divina serpente que atormenta o deus nórdico. Quem mais pode me dizer pra ser diferente se a cada dia, mês, ano que passa, mais me percebo assim. Tem momentos que quase me creio como tendo esta natureza. E como poderia ser diferente? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso arranjar algo para me recompor de tanta desesperança. Quem sabe um podte de unguento doce; uma corda longa e fina, capazde costurar meu espírito; uma cadela peluda e pulguenta e amistosa desdeas entranhas até o último ganido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormir, sonhar; sonhar, dormir; o que mais?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-4277662359789233989?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/4277662359789233989/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=4277662359789233989' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4277662359789233989'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4277662359789233989'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/11/se-eu-tivesse-duas-velas-com-uma-delas.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-6179185976568066121</id><published>2007-11-01T17:05:00.000-02:00</published><updated>2007-11-01T17:08:15.209-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Um dia eu acordei e vi que havia gente demais debatendo a possibilidade de ser forte e rico de boas intenções. Tive ganas de pular do primeiro edifício de portas abertas para a incongruência. Sentei em uma praça e assinei na carne com a faca rubra da clarividência um acordo com o anjo caído, definindo para mim a certeza de que as palavras em toda a sua grandeza e brilho nunca poderão me conduzir à cidade de prata; e assim sendo, porque continuar com o discurso se não por caridade tola, imaginando assim poder difundir as palavras da sabedoria que me veram em uma noite de belas estrelas e vindouras nuvens de trovoadas?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-6179185976568066121?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/6179185976568066121/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=6179185976568066121' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/6179185976568066121'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/6179185976568066121'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/11/um-dia-eu-acordei-e-vi-que-havia-gente.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-1416785382460200625</id><published>2007-11-01T17:03:00.000-02:00</published><updated>2007-11-01T17:05:31.689-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O que é a religião?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A soma dos valores que a preguiça nos faz assumir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é a ética?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo aquilo que nos mentiram desde criança dizendo ser impossível viver sem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(ah, doce ignorância que nos constrói como bonecos mal manipulados e por isso mesmo capazes de, em aroubos de fúria, despir-se de toda ética imposta e agir apenas para alcançar a plena felicidade)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-1416785382460200625?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/1416785382460200625/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=1416785382460200625' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/1416785382460200625'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/1416785382460200625'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/11/o-que-religio-soma-dos-valores-que.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-2385120549126375462</id><published>2007-11-01T16:59:00.001-02:00</published><updated>2007-11-01T17:02:10.088-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Como se constrói um bom caráter? Assumindo uma série de bons hábitos que, na sequência, acabam por tomar todo o tempo disponível os maus hábitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se vive uma vida plena? Cometendo o risco de todos os erros causados pelas ações (Defino ações como tempo vivido e não tempo pensado).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpo e suas sensações e sentimentos nunca mentem; os pensamentos e a lógica insistem mesmo assim em querer governar a existência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-2385120549126375462?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/2385120549126375462/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=2385120549126375462' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/2385120549126375462'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/2385120549126375462'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/11/como-se-constri-um-bom-carter-assumindo.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-4885584863900587148</id><published>2007-11-01T16:57:00.001-02:00</published><updated>2007-11-01T16:58:16.538-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Trinta e cinco chances ser feliz em uma vida de cem anos. E todas elas passam como se fossem uma única, feita de vidro translúcido ou cristal fragilizado pela desatenção.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-4885584863900587148?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/4885584863900587148/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=4885584863900587148' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4885584863900587148'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/4885584863900587148'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/11/trinta-e-cinco-chances-ser-feliz-em-uma.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-7975003465734188064</id><published>2007-10-01T18:26:00.000-03:00</published><updated>2007-10-01T18:28:54.484-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A vida pode ser contada em pequenos sinais de fumaça. Como um bom Marlboro consumido em uma tarde primavera, quando o ar ainda está gelado e a brisa se ilumina com a claridade de um céu decadente. Posso dizer que a vida se resume ao sucedâneo de amores incandescentes. Chamas sazonais que inflam o coração de labaredas famintas para, com o rápido sucedâneo dos dias e dos meses, transformar os canos funéreos das artérias em tubos entupidos pelo carvão do desentendimento e da angústia e, finalmente, do desamor que um dia chamou-se claridade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-7975003465734188064?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/7975003465734188064/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=7975003465734188064' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/7975003465734188064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/7975003465734188064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/10/vida-pode-ser-contada-em-pequenos.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-7871582486372341318</id><published>2007-06-01T18:00:00.001-03:00</published><updated>2007-06-01T18:00:31.742-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Chovendo. Sensei na única cadeira, da única mesa incapaz de ser molhada pelas gotas finas. Muitas gotas finas e frias que, de tanto rspigarem nas poças recém-formadas, acabaram por molhar meus sapatos e a barra da calça. Finalmente levantei e fui até a sala fechada. Vidros na parede esquerda e meus olhos procurando algo no cinza. Pensei em um filme, nas fotografias mal tiradas e no reflexo.Duas imagens sobrepostas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(alguém diz na mesa ao lado que a mulher do saci é a mais feliz de todas, se leva um é na bunda quem cai é o marido e eu penso que a mula-sem-cabeça é a mulher mais feliz por nunca levar chifre)&lt;br /&gt;acendo o charuto - já havia acendido - e vou dando bafoiradas aos pares. Uma para o vento; outra para meu paladar. A lígua escorrendo envolta pela fumaça aprisionada e a ferida na parte de dentro da boca ardendo. Poderia ser grave; ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você entende o que significa o estado de torpor? Aquele momento derrisório, onde alma e espírito desabam sobre si mesmos e nos damos contas que não apenas o que nos cerca é volátil - o que eu já sabia desde a infância, quando descobri a miopia - mas tudo, inclusive este selfo que se manifesta nos sentimentos afogados de si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(alguém na mesa ao lado comenta que abundância é um palavrão que ofende mulheres de bom gosto e mal senso pra alimentos; eu penso que a idade está me engordando)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo a caixa de fósforos para uma garota de olhos alegres e rosto chupado. Algo aconteceu entre a ginástica e o acordar que a tornou assim, patética, mas por isso mesmo capaz de um estranho tipo de beleza. Como todas. Todas essas meninas com jeito de sapatilhas - e não são todas? - de mãos dadas e beijos e abraços e discrições e a terna vontade de chamar a atenção ou de mostrar a felicidade incinerante que povoa seus corações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando apago o charuto, aperto-o com firmeza no cinzeiro de cobre e espero que mais nada reste das folhas compostas e de mim, na sala repleta de mais mulheres e mais sorrisos e mais rostos chupados e abundantes formas de incapaz beleza, fica o cheiro forte de quem deveria ter partido antes e ficou um instante a mais, pra mais uma baforada, pra mais fumaça, pra ter certeza que a diluição de si é total na tarde que esvai.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-7871582486372341318?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/7871582486372341318/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=7871582486372341318' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/7871582486372341318'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/7871582486372341318'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/06/chovendo.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-2207240004625347260</id><published>2007-06-01T16:26:00.001-03:00</published><updated>2007-06-01T16:26:39.566-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Um carro enorme, maior a cada instante e o instante se quebra em milhares de instantes e então constato que é verdade. O momento final é o mais longo de todas as existências que me padeceram&lt;br /&gt;(volta e meia parece que as coisas andam sem se mover. Como o tempo de querer e o tempo de dormir. Uma somatória de medos e descansos. Cada instante tem um nome e cada nome uma missão. Parece que é assim)&lt;br /&gt;É isso, eu me escuto de corpo estatelado e pernas curvadas em uma dobra impossível e assim eu sei que nunca mais vou caminhar&lt;br /&gt;(olhando pelo teto de vidro encontro nuvens escuras e outras névoas que me dizem que nada daquilo que tenho, tenho realmente. Associado a tanto, consigo entender que as palavras perdem o sentido. E é exatamente isso. As coisas perdem o sentido. Finalmente vejo que tudo o que faço tem muito pouco sentido)&lt;br /&gt;Alguém que eu vejo distante - poucos metros - acena e dita um riso que me preenche o peito e avisa à namorada amada que tudo aquilo que foi dito na noite anterior não foi verdade e que agora apenas é motivo de riso e eles riem tanto que sinto que devo rir se tiver tempo antes do pára-choque acertar meu queixo&lt;br /&gt;(nada de cansaço, nada de desânimo ou depressão. Apenas cosntato que as coisas perderam o brilho e que por isso mesmo, tudo tem mais brilho. Algo tão fulgurante que ofusca meu entender e perco a vontade de seguir adiante apenas por seguir. É preciso um objetivo. E é isso que estou à procura. Um objetivo)&lt;br /&gt;E havia tanta coisa entre minha carne e meu osso antes do som de tudo se espatifanto e tornando-se cacos de mim entre as migalhas de minha consci~encia e ela sorri e o beija antes de perceber o som dos freios e da borracha queimando o asfalto&lt;br /&gt;(Meu dus, como eu não queria morrer nunca mais...)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-2207240004625347260?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/2207240004625347260/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=2207240004625347260' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/2207240004625347260'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/2207240004625347260'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/06/um-carro-enorme-maior-cada-instante-e-o.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-3593262170127418127</id><published>2007-05-29T17:40:00.000-03:00</published><updated>2007-05-29T17:42:28.393-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Estou com vontade de fumar. Não um cigarro ou dois, mas uma carteira inteira. Uma sede de álcool e um desejo abrasado pelo tabaco enxuto de produtos químicos que o façam queimar de maneira uniforme.&lt;br /&gt;Não estou cansado. Não estou triste. Não estou depressivo. Não estou consumido pela dor. Estou como sempre fui e agora me dou conta que não preciso me deixar levar. Isso deve valer alguma coisa no mercado das ações infernais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-3593262170127418127?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/3593262170127418127/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=3593262170127418127' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3593262170127418127'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3593262170127418127'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/05/estou-com-vontade-de-fumar.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-7604923052531552755</id><published>2007-05-29T17:37:00.000-03:00</published><updated>2007-05-29T17:38:51.609-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>qual o tipo de homem fica impassível quando percebe que algo em seus valores mudou (ou clarificou) e súbito ele se dá conta que nada daquilo que realizou tem permanência?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-7604923052531552755?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/7604923052531552755/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=7604923052531552755' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/7604923052531552755'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/7604923052531552755'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/05/qual-o-tipo-de-homem-fica-impassvel.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-8408041057292130706</id><published>2007-04-18T18:20:00.000-03:00</published><updated>2007-04-18T18:25:07.649-03:00</updated><title type='text'>Tardio</title><content type='html'>Sou um cara atrasado para vida, para as formas, para os fatos, para mim mesmo. Quando suponho estar pronto, perdi o trem, partiu o avião. Nem mesmo os atrasos e pontes aéreas tomadas por operadores de vôos mancos são capazes de me reduzir ao meu horário de merda. &lt;br /&gt;Aleluia, homens de deus. Salve, Bispo Macedo. Vai tomar no rabo, gentinha que vive de sobras. Eu, mesmo atrasado, estou em mim e não me abandono. você, que anda enredado em homens de pouca cepa e falas mansas, nem ao mesnos sabe o que esotu fazendo. Gente feita de cordas gastas e cordões mal amarrados. Aceites que a caridade não assume postos de poder. O que gere a realidade e a vontade de poder. Velho bigodudo, alemão irritante que tanto fala que não deixa mais ninguém se expressar. Adeus às odes jornalísticas. Daqui pra diante, eu sou mais eu e adeus tábua feita de sóis e ponteiros. Quebrei os quartzos que mantinham minha vida atrelada ao que muito me interessou e agora é brejo, fundo, rodando na pista escorregadia de uma noite sem fim. Vamos morrer, dizem, vamos morrer. Eu, com certeza, você, já foi. &lt;br /&gt;Quem diria que a vida seria assim. Com seis anos eu nem sabia, apenas galanteava doces para as meninas bonitas e supunha ser esse o grand eprazer da vida. Vê-se bem que hoje emangreci.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-8408041057292130706?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/8408041057292130706/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=8408041057292130706' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/8408041057292130706'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/8408041057292130706'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/04/tardio.html' title='Tardio'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-93400085812812414</id><published>2007-04-18T18:14:00.000-03:00</published><updated>2007-04-18T18:19:12.982-03:00</updated><title type='text'>Todos os tombos do mundo</title><content type='html'>Pois aí, vai, Kurt empacotou, literalmente (sem ironias, por favor). Caiu e morreu, com o atraso de duas semanas, como seria de esperar. Um autor como ele não podia chegar na hora nem mesmo no momento da morte.&lt;br /&gt;Pra que acompanhou a obra de Kurt, e o viu caminhando pelas ruas como se fosse um desses bestalhões que a gente vê caminhando na rua, por meio de um reflexo na vitrine e, puta que os pariu, descobrimos tardiamente que somos nós mesmos, Kurt era um símbolo. Quase fálico, poderiamos concluir vendo o nariz adundo e o bigode em forma de traça amortalhada em pétalas de rosas secas. Força, Kurt, daqui pra diante somente o demo nos incomoda. E eu, que já sinto as labaredas me açoitando os países baixos, não me amedronto. De covardes bastam os malditos burocratas da receita federal. E, estes, estes não te incomodam mais, desde que voc~e, bom moço de pernas finas e cabeludas, fique distante do quinto círculo.&lt;br /&gt;Dante bem sabia, a vida se resume a duas formas básicas de animosidade: a raiva e a luxúria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-93400085812812414?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/93400085812812414/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=93400085812812414' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/93400085812812414'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/93400085812812414'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/04/todos-os-tombos-do-mundo.html' title='Todos os tombos do mundo'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-8843026782430657796</id><published>2007-04-18T18:13:00.001-03:00</published><updated>2007-04-18T18:13:59.488-03:00</updated><title type='text'>Kurt Vonnegut voa para sempre</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://thumbs.sapo.pt/?pic=http://jn.sapo.pt/2007/04/13/12992011.jpg&amp;H=250&amp;W=250&amp;errorpic=http://jn.sapo.pt/images/lusomundo/jn/errorpic.gif"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;width: 320px;" src="http://thumbs.sapo.pt/?pic=http://jn.sapo.pt/2007/04/13/12992011.jpg&amp;H=250&amp;W=250&amp;errorpic=http://jn.sapo.pt/images/lusomundo/jn/errorpic.gif" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matthew Robinson *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oromancista americano Kurt Vonnegut, cuja visão negra e satírica de livros como "Cat's cradle" e "Slaughterhouse-Five" foi formada pelos horrores que testemunhou durante a II Guerra, morreu anteontem em Nova Iorque.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor tinha 84 anos; pereceu devido às lesões cerebrais resultantes de uma grave queda verificada há duas semanas. Vonnegut escreveu peças de teatro, ensaios e contos, mas os seus 14 romances são clássicos da contra-cultura americana - e que ecoam o sentimento anti-guerra que atravessou o país durante o conflito com o Vietname.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O site na internet do autor, actualizado já depois da sua morte, estava ontem preenchido por uma só imagem uma gaiola de pássaros - elemento simbólico na sua escrita - , vazia e com a porta aberta. Por baixo, a legenda: "Kurt Vonnegut, Jr. 1922-2007".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar de diversas batalhas contra depressões profundas, Vonnegut fica conhecido pela agudeza do seu espírito "Diverti-me imenso", escreveu em tempos, "e devo dizer-vos isto: estamos na Terra para nos soltarmos. Não deixem nunca que vos digam o contrário".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Figura imensamente popular entre os estudantes durante as décadas de 60 e 70, lançou o primeiro romance em 1951, "Player piano", sobre o mundo à mercê das máquinas. A aclamação chegou 11 anos depois com "Cat's cradle", aguçada sátira ao mundo tecnológico. Mas o seu mais célebre romance - mais ainda do que "Breakfast of champions" - é "Slaughterhouse-Five", uma recriação do bombardeamento aliado à cidade alemã de Dresden. O seu livro derradeiro é "A man without a country", escrito em 2006 em protesto contra a actuação do presidente americano, George W. Bush.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Reuters&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-8843026782430657796?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://jn.sapo.pt/2007/04/13/cultura/kurt_vonnegut_para_sempre.html' title='Kurt Vonnegut voa para sempre'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/8843026782430657796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=8843026782430657796' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/8843026782430657796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/8843026782430657796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/04/kurt-vonnegut-voa-para-sempre.html' title='Kurt Vonnegut voa para sempre'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-3346891471056507088</id><published>2007-04-18T18:10:00.000-03:00</published><updated>2007-04-18T18:11:13.215-03:00</updated><title type='text'>Lobo Antunes luta contra um cancro</title><content type='html'>Sente-se o tremor em todo o texto e a tensão nos parágrafos "E sem que eles sonhassem (sonhava eu), o cancro ratando, ratando, ratando, injusto, teimoso, cego". O escritor António Lobo Antunes está a combater um cancro. A aflição chegou em Março; veio "com a brutalidade de uma explosão no peito".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A doença foi ontem tornada pública - o escritor escolheu revelar-se através de uma crónica, usando para isso o espaço semanal na revista "Visão". O texto foi escrito ainda no hospital - "espero que na revista entendam a caligrafia tremida da crónica" -, onde recupera da intervenção que lhe retirou vesícula e apêndice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lobo Antunes, que fará 65 anos em Setembro, foi operado pelo cirurgião Henrique Bicha Castelo, a quem é dedicado o texto, justamente intitulado "Crónica de hospital". A notícia tê-lo-á surpreendido "Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando lhe revelaram a sua condição, o autor de "Ontem não te vi em Babilónia" manifestou imediatamente sentimentos opostos "Vou lutar, não vou lutar" (...) "Quero-me? Sim. Não. Sim. Não - sim".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-3346891471056507088?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://jn.sapo.pt/2007/04/13/cultura/lobo_antunes_luta_contra_cancro.html' title='Lobo Antunes luta contra um cancro'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/3346891471056507088/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=3346891471056507088' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3346891471056507088'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3346891471056507088'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/04/lobo-antunes-luta-contra-um-cancro.html' title='Lobo Antunes luta contra um cancro'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-3346832225822296540</id><published>2007-04-18T18:07:00.000-03:00</published><updated>2007-04-18T18:09:31.734-03:00</updated><title type='text'>cancro, câncer de merda!</title><content type='html'>Lobo Antunes está mal, como leram abaixo. Abaixo de mim, abaixo de deus, abaixo do capeta que o parta. Jamil Snege, um bom amigo foi levado. Cancro no pulmão. Foi rpapido. Espero que com o portuga seja diferente. mas está adiantado, percebe-se. Jamil fez crônica de seu infortúnio. sempre assim. Fala de si mesmo em forma de literatura. Estetisa a vida e diz que é arte. Estética da dor esta loiteratura que consome feito câncer. Revolta contra si mesmo, contra a vida, contra tudo que nos cerca e nos impossibilita. Agonia de merda!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-3346832225822296540?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/3346832225822296540/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=3346832225822296540' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3346832225822296540'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/3346832225822296540'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/04/cancro-cncer-de-merda.html' title='cancro, câncer de merda!'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-7721860205462053814</id><published>2007-04-18T18:03:00.000-03:00</published><updated>2007-04-18T18:05:07.031-03:00</updated><title type='text'>António Lobo Antunes luta contra um cancro após intervenção cirúrgica</title><content type='html'>12.04.2007 - 17h32   PUBLICO.PT&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor António Lobo Antunes foi operado depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro, revelou o próprio na sua crónica semanal na revista "Visão".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lobo Antunes escreveu a crónica no hospital, onde recuperava de uma intervenção cirúrgica em que lhe foi retirada a vesícula. O prognóstico era ainda reservado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor confessa abertamente a sua angústia e desespero, mitigados com a esperança dada pelo facto de um amigo de longa data, em quem deposita inteira confiança, ter aceite operá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não acreditava que um dia destes chegasse. E agora, Março de 2007, veio com a brutalidade de uma explosão no peito. Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé" – escreve Lobo Antunes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autor diz que está a lutar e que, seja qual for o desfecho, o cancro alterou "de cabo a rabo" a sua vida, mas ainda sem saber em que sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pede também desculpa pelo facto de o texto poder estar um pouco desconexo e pede à revista que entenda "a caligrafia tremida da crónica".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o cancro, escreve: "Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não — sim."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-7721860205462053814?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1290998' title='António Lobo Antunes luta contra um cancro após intervenção cirúrgica'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/7721860205462053814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=7721860205462053814' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/7721860205462053814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/7721860205462053814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/04/antnio-lobo-antunes-luta-contra-um.html' title='António Lobo Antunes luta contra um cancro após intervenção cirúrgica'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-2069770825965846765</id><published>2007-04-18T17:57:00.000-03:00</published><updated>2007-04-18T18:00:22.391-03:00</updated><title type='text'>O que é literatura?</title><content type='html'>Havia a coleção Primeiros Passos, da editora Brasiliense, nos idos anos da década de 1980; hoje o que temos? A famigerada Web. Para colaborar no rumo discreto que toma a ignorância coletiva, tomo para mim a função de catedrático das coisas pueris e das frases sem sentido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Literatura é:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida que poderia ser e não foi... ainda (nunca será?, me diga).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A realização de que estar alienado nos desejos alheios é algo do qual jamais escaparei, por isso escrevo e leio, na crença vã que deste modo escapo dessa prisão que me agonia.  (Goethe disse algo parecido, mas, segundo a lenda, ele conseguiu se libertar).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-2069770825965846765?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/2069770825965846765/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=2069770825965846765' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/2069770825965846765'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/2069770825965846765'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/04/o-que-literatura.html' title='O que é literatura?'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-2684633320648092027</id><published>2007-03-29T10:26:00.000-03:00</published><updated>2007-03-29T10:45:17.043-03:00</updated><title type='text'>história de detetive</title><content type='html'>Curitiba está insuportável de tanto calor. Ventiladores não param nas prateleiras e o consumo de água mineral extrapolou os limites do aceitável. Refrigeradores e condicionadores de ar trabalham a 110%. E eu aqui, suando feito uma morsa desdentada em um oásis no Saara. Alguma coisa podia acontecer (sempre que peço isso acontece e eu me arrependo).&lt;br /&gt;Toca a campainho. Calço os sapatos e fecho a braguilha e vou atender. Quando abro a porta, me dou conta que não tenho campainha. Para minha sorte,a visita do vizinho quer uma informação.&lt;br /&gt;- Eles se mudaram?, ela pergunta com sua voz de supermodel e óculos de viúva rica.&lt;br /&gt;- Não. DEvem ter saído para alguma reunião.&lt;br /&gt;- O senhor se incomodaria se eu esperasse? Aqui no corredor está um calor infernal. &lt;br /&gt;- Eu não tenho ar-condicionado. Só aquele ventilador de teto com as pás capengas.&lt;br /&gt;- É melhor que ficar no corredor.&lt;br /&gt;Ela passa por mim e o perfume poderia derrubar centenas de camelos na fila do INAMPS. Também me afeta o contorno redondo e levemente amassado de suas ancas. Se estivesse tocando Burt Bacharah no aparelho de som, juro que a agarraria.&lt;br /&gt;Ela senta e cruza as pernas na poltrona junto à janela. A brisa abafada que entra não consegue vencer o laquê dos longos cabelos loiro avermelhados. Quase tão avermelhados quando os lábios e a lingua, que não pára de apontar para fora, como um bichinho da goiaba vigiando os predadores ao redor.&lt;br /&gt;- Como você se chama?&lt;br /&gt;Dou um de meus últimos cartões.&lt;br /&gt;- Celina. Estou na cidade de passagem.&lt;br /&gt;- Você parece uma mulher com algum dinheiro na poupança. Por que está procurando advogados de porta-de-cadeia?&lt;br /&gt;- Meu namorado está preso...&lt;br /&gt;- Ele são péssimos.&lt;br /&gt;- E meu pai e meu irmão.&lt;br /&gt;- Então a Máfia da cidade fechou as portas.&lt;br /&gt;Ela não ri da piada. E nem eu. Acendo um cigarro e puxo a cordinha que acelera as pás do ventilador. Não tenho medo dos riscos envolvidos. Me irrita mais é o barulgo de avião antigo. Eu poderia fazer graça com os modelos que conheço, aqueles que voavam na primeira grande guerra e que, meu avô, jura ter um dia pilotado. Mas fico quieto. Não quero arriscar um segundo fracasso. Sou um comediante que sabe medir o valor de seu público.&lt;br /&gt;- Tem água gelada?&lt;br /&gt;Aponto a geladeira e peço que se sirva. A velha Frigidaire ainda funciona. E bem. Faz minha conta de luz extrapolar mas não tem problemas. Quando me mudei pra cá ela já estava naquele canto e foi ali que deixei. REspeito aos mais velhos é importante.&lt;br /&gt;Ela bebe um copo com tanta delicadeza que surpreende o velho copo de vidro surrupiado do restaurante do Português. &lt;br /&gt;- Posso usar o toilete?&lt;br /&gt;Fora de meu hábito, levanto. Quando a porta se fecha, volto a sentar e, mal pego o cigarro, ouço o som de tiros. Sei que são tiros apesar do tempo que larguei a polícia e assumi este trabalho de caça-marido traidor. Com cuidado, abro a porta e olho o corredor. Ninguém, nem de um lado, nem de outro. Mas a tranquilidade dura menos que eu gostaria. DFo escritório ao lado, dois brutamontes saem e, de passagem, me perguntam com a gentileza de lordes ingleses se eu vi uma bela mulher de cabelos aloidos E um pouco ruiva também, o moreno careca acrescenta à fala do polaco robusto. &lt;br /&gt;- Não, eu digo.&lt;br /&gt;Eles agradecem e se vão. FEcho a porta e penso um instante que eu os conheço de algum lugar. Rostos como aqueles são facilmente encontrados nas quebradas das favelas, onde eles desfilam com camisas escrito segurança. Com certeza um bom aviso.&lt;br /&gt;- Muito obrigado, ela mal sai do tailete e já vai me agradecendo. Eles querem me matar.&lt;br /&gt;- Então é melhor você ir embora. Eles já foram.&lt;br /&gt;- Estou com medo.&lt;br /&gt;- Eu não tenho nada com isso, digo me sentando e dando a última tragada no cigarro neurastênico.&lt;br /&gt;Ela chora como uma atriz dos anos 1950. As mãos apertando os olhos e os joelhos  apertados.&lt;br /&gt;Antes de ir consolá-la, puxo mais uma vez a cordinha do ventilador para que o vento em meus cabelos deixe a cena mais romântica. Abraçado à ela, com a ponta dos dedos, consigo trazer Burt Bacharah para nossas vidas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-2684633320648092027?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/2684633320648092027/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=2684633320648092027' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/2684633320648092027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/2684633320648092027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/03/histria-de-detetive.html' title='história de detetive'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-6875085874203632881</id><published>2007-03-27T14:28:00.000-03:00</published><updated>2007-03-27T14:40:45.666-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Comprei um 38. As duas caixas de bala vieram como brinde. Paguei barato. 50 reais por um revólver ilegal. Tudo bem, não pretendo atirar mesmo. Na verdade, nem sei porque comprei.&lt;br /&gt;Duas horas depois dei 20 tiros e gostaria de dar mais se não fosse desperdício. É viciante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-6875085874203632881?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/6875085874203632881/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=6875085874203632881' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/6875085874203632881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/6875085874203632881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/03/comprei-um-38.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-8562821596657085305</id><published>2007-03-27T12:05:00.000-03:00</published><updated>2007-03-27T12:28:41.439-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A pior coisa é autopiedade. Na verdade, quase tudo que tem auto antes é problemático (tavez exceção ao automóvel). Excluo o alto-falante por não ser um auto gramatical, apenas sonoro. Digo isto antes pois hoje estou com saudade de mim mesmo. Automelancolia. Estou sentado no jardim de inverno de meu escritório (um tipo de deserto de inverno pela falta de plantas) e ouvindo guitar man, do Bread. Ao lado do telefone está um charuto fumado pela metade. Na esquina de meus olhos um livro chamado Earth, com fotos de milhares de lugares maravilhosos que nunca vou conhecer e por isso aprofunda meu desespero saudosista. Sob Earth está um estudo das obras de Hopper. Assustar que as imagens pintadas sejam tão semelhantes às fotos do artista. Quero crer que seja homegem feita pelos fotógrafos (ou falta de criatividade).&lt;br /&gt;Ok, acabei de acender o Monte Cristo. Podia pegar um fechado mas não quero desperdiçar um tabaco tão bom. &lt;br /&gt;(meu deus que não creio, começo io che non vivo senza te)&lt;br /&gt;Amilcar trouxe uma caixa, de Cuba. Espero que meu amigo esteja bem. Eventualmente a vida prega peças. Faz com que a mente viaje para locais tão distantes que nos perdemos de nós mesmos. Como eu, agora, com saudade de mim e sem saber como me recuperar. Não, amigo, não digo isso como lamento. Está menos para fado que tarantella. &lt;br /&gt;Ontem, falando com um amigo de Berlin, me vi reprimindo pensamentos complacentes quanto a decisões tomadas. Questões que um dia me fizeram migrar de um destino grandioso para este. Um escritor que mal escreve; um homem que mal provê; uma esperança que nunca morre. Sei que muita gente imagina glamour onde existe mero desespero. Já ouvi comentários e muito mais. Mesmo gente que supus um dia estar realizada, falavam com palavras mastigadas o quanto invejavam minha situação. &lt;br /&gt;(Fast car, Tracy Chapman)&lt;br /&gt;Ou vocês acham que Phillip Roth escreve o que escreve pela alegria que sente em ser judeu, em ver a vida de seus amigos esfacelada, em acompanhar o crescimento, declínio e morte de tantas dezenas de milhares de companheiros de viagem? Koh Murobushi me comentou algo semelhante. Sua vida, apesar de todas as realizações, continuava atrelada à Tatsumi Hijikata. POr mais que caminhasse, por mais que voasse, por mais que seu barco singrasse imensidões únicas, sua bandeira nunca era vista como outra que não a de um Butoh que jamais amanheceu. &lt;br /&gt;(Hurt, Johnny Cash)&lt;br /&gt;Tanta gente, meu adeus, tanta gente que procura, ergue rochas prometeicas e dispara lasers hiper-poderosos, abrindo uma estrada de feltro e carvão para supor a si mesmo como realizado na existência. Meus deus, tanta gente buscando pavimentar a felicidade na via única de seus sentidos mal apaziguados pelos desejos que se realizam para evidenciar galhos secos de árvores derrubadas na tarefa que não finda. Estudos que nunca acabam, graduações sobre graduações, conhecimento que se espalha na planice e dinheiro que brota de fontes de eterna juventude. Um afã esbaforido no colo de quem se ama e se perde por se supor infeliz e por isso desmerecedor de aprazível descanso. &lt;br /&gt;(She, Elvis Costello)&lt;br /&gt;E lá estou eu, sobre o planalto, avançando e qurendo ver o sol nascer. Banhar-me na luz e respirar o ar da montanha que espero alcançar. Lá vou eu, perdido com meu charuto e no deserto sem plantas e cheio de móveis de madeira morta. Lá me vou, esquecido de onde vim mas sabendo que um dia parti de mim e agora sei que não posso retornar. &lt;br /&gt;(Talk about revolution, TRacy Chapman)&lt;br /&gt;E lá vou eu, egoísta preocupado em estar sozinho e medroso.Sem um pai que me liguem a fama. &lt;br /&gt;Tem momentos valeria a pena descansar, mas o amanhecer logo chega.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-8562821596657085305?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/8562821596657085305/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=8562821596657085305' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/8562821596657085305'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/8562821596657085305'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/03/pior-coisa-autopiedade.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-116828150331290590</id><published>2007-01-08T16:26:00.000-02:00</published><updated>2007-01-08T16:38:23.326-02:00</updated><title type='text'>Vésper</title><content type='html'>Duas ou três lembranças em minha vida incomodam mais que uma faca na virilha ou o desarranjo intestinal causado por uma feijoada excessivamente salgada. Uma delas realmente dói, feito a desilusão do primeiro amor não correspondido (ah, como dura essa desilusão, perseguindo nossos pesadelos de cores funestas mesmo durante o amor feito com a nova amada desesperadamente amada). Feito um passo em falso na calçada de petit-paves, o tropeção que arranca a unha do dedo maior, essa dor fere a carne, tanto quanto a mente e o espírito. Talvez eu devesse chamá-la de dor em desatino, selvagem como o touro cavalgado a duras penas pelo vaqueiro em fim de carreira; ou seria a mácula no vestido recém feito, que torna a núbia vestal um ponto tão brilhante em meio à multidão como a estrela vésper incapaz de ocultar-se das promessas de mil adolescentes em fúria. Quem me dera saber mais, eu poderia dizer mas não digo para não soar piegas ou retrógrado em minhas palavras que, a qualquer momento, devem soar como televisão, micro-ondas, eletrodomésticos e computadores e raios de ultra-visão e mangeiga desidratada e pixels e coisas mais que nos dão a impressão de que o que se lê é realmente parelho com o tempo que vivemos e mesmo assim andamos esquecidos que certos sentimentos perseguem o homem desde que a linguagem surgiu e me tornou (ah, herança maldita) cativo de lembranças dolorosas como estas que agora professo. Duas delas me incomodam, uma me dói; e mesmo assim, apenas a que dói me permito falar. A que me incomoda, que deveria ser tão fácil, tão doce e silples de repetir pois parece uma coceira na sola do pé calçado do noivo caminhando ao altar, essa deveria ser leve como a nuvem que não ameaça chuva e apenas passa, entre aviões desgovernados e terroristas esperançosos por um fim de tarde no paraíso. Por que, me diga? Por que a dor me incomoda menos que o que me incomoda como a coceira que não posso coçar e o coração infartado que não vejo, mas sinto, e me alimenta de agonias na esperança vã que o bisturi instrusivo descubra todos os meus desalentos e me libere daquilo que, como o coração que sinto e não posso tocar, me incomoda e não posso desincomodar. Se souber, por favor, me diz antes que o noivo pare no meio do caminho ou a nuvem torne-se tempestade, impedindo a tragédia de milhões e a maravilha de um só - que acredita tanto que morre para provar, como aquele que ama tanto e jura poder morrer mas, na realidade, não o faz pois a morte elimina todas as possibilidade de continuar vivendo as glórias de ser sabido verdadeiro amante, sincero e supremo do coração daquela que, imóvel e em pranto sorridente, aguarda, sem saber daquele incômodo terrível ou que, depois, quando o sol escurecer toda a lembrança da estrela vésper, vai desatar os nós do vestido nupcial e assim se apagar de todo o brilho, para nunca mais... ou não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-116828150331290590?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/116828150331290590/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=116828150331290590' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116828150331290590'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116828150331290590'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2007/01/vsper.html' title='Vésper'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-116658632248172233</id><published>2006-12-20T01:45:00.000-02:00</published><updated>2006-12-20T01:45:22.493-02:00</updated><title type='text'>frases pouco poéticas</title><content type='html'>Simples, quando você quiser preservar alguém da dor, não preserve. Quando quiser mentir, minta, mas cubra as pistas que levam à verdade. Quando tiver certeza que a vida vai ser melhor de outro modo, assuma de uma vez. Quando quiser acusar alguém, faça as acusações corretas, pelos motivos corretos, e não invente motivos paralelos para justificar escolhas já feitas e não admitidas. Gostar não significa amar. Amar está mais perto do ódio e da vingança, por isso, armas em punho e tiros no alvo. Não desperdice munição (referindo-se ao ponto anterior). Se pego em uma mentira, mesmo que pelos melhores motivos, diga isso mesmo, foi pelos melhores motivos. Mesmo o amor passa, então, mantenha os negócios em dia. Romper laços é uma arte, o que não significa que podem se originar tragédias e grandes comédias. Perdoar é divino - quão poucos deuses caminham sobre a terra! Continue o trabalho (qualquer que seja) e receba os resultados dos seus esforços (de preferência dinheiro). Acenda cigarros na brasa do anterior. Vingue-se da dor que sentiu. Decida-se pelo novo e desista do velho (principalmente aquele que te magoou). Se ouvir um foda-se, responda - mas mantenha a classe e continue as negociações. Coloque imagens em locais estratégicos, que te permitam ser descoberto e, sem parecer inescrupuloso ou sacana. Tenha certeza de que, se o outro cometeu crime maior, ou equivalente, nada que ele diga realmente poderá te ferir. A raiva passa, assim como o rancor. Cuide bem do seu amor, que um dia acaba. Cuide bem do seu amor, que um dia ele parte. Cuide bem do seu amor, que um dia esse dia chega. Lembre-se que dói, mas passa. E o principal, deus não existe, assim como o diabo, então, sua alma está preservada e tudo o que você fez pensando em perder ou mantê-lo, está certo. Se existe ou existiu algo chamado amor, apesar de todas as idiotices cometidas e todas as dores, dará certo (o problema é quando e se vale realmente a pena esperar). Normalmente, não se espera.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-116658632248172233?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/116658632248172233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=116658632248172233' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116658632248172233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116658632248172233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/12/frases-pouco-poticas.html' title='frases pouco poéticas'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-116525020918140337</id><published>2006-12-04T14:20:00.000-02:00</published><updated>2007-01-05T22:47:38.263-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Pela primeira vez, vou responder um comentário. Sabe, Diego, em nenhum momento achei que fossem comentário pouco elogiosos. Pelo contrário, se tinha algum elogio menor, era com relação à minha própria ignorância. No mais, achei bem bacana você ter mandando um post com as correções. Normalmente, nem isso as pessoas fazem. Sabe que, sendo eu filho e neto de imigrantes, já sofri muito com a ignorância alheia, quando o assunto se trata de meus antepassados ou mesmo do distante Japão. Atualmente parece que a situação se acalmou. Não sei se as pessoas pararam de insistir no assunto comigo ou se eu que estou ficando velho surdo e caduco. De qualquer modo, é mais uma constatação que um afirmação.&lt;br /&gt;Tem dias que eu estou de saco cheio. Realmente de saco cheio. E quando isso acontece, o que melhora meu ânimo e mudar de ambientes (a Travessa é um lugar bacana, onde sempre tenho boas conversas). Naquele dia, ao chegar na Travessa, fui não por estar de saco cheio (muito cansado estava eu, como diria mestre Yoda), mas porque tinha uma conversa com a Paola. Eu deveria resolver a questão a ir embora. O que me prendeu na editora foi o bom papo. Sandrinni sempre me ajuda com as novidades que rondam o mundo acadêmico; Márcio me põem a par de uma certa realidade literária à qual normalmente fico afastado; e poderia citar todos (Fábio, Rubens, Diva etc), cada um me enriquecendo com sua vitalidade e disposição para trocar assuntos. Naquele dia eu cheguei com um objetivo e, surpresa, saí com um texto para escrever. E isso ér esponsabilidade sua. Há semanas em que minha relação com a escrita se resume a preencher cheques e notas promissórias, mas nesse dia em particular, eu saí disposto a inserir um personagem a mais em meu diário na WEB. Gente interessante, que me dá vontade de ficcionar é raro (não sei se isso pode ser tomado como um elogio completo, porém...), e você eu achei um cara realmente interessante. Rico em possibilidades e contrastes não apenas para a ficção mas para o convívio. &lt;br /&gt;No próximo texto, em que você aparecer, quero ver se erro menos (não prometo pois quanto mais rápido digitam meus dedos, menos eficiente torna-se minha intelecção).&lt;br /&gt;abraços, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;wilson sagae&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-116525020918140337?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/116525020918140337/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=116525020918140337' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116525020918140337'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116525020918140337'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/12/pela-primeira-vez-vou-responder-um.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-116524908284834914</id><published>2006-12-04T14:13:00.000-02:00</published><updated>2006-12-04T14:18:02.890-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Grande Sagae, apesar das palavras pouco elogiosas, eu gostaria de apontar algumas incorreções do seu texto. A vinda de indianos para o Brasil na primeira metade do sec. 20 nada tem a ver com "o universo migrante ter se consumido no apoteótico nadir da economia de ululantes pré-segunda guerra mundial", ao contrário da vinda japonesa. Tanto que não se encontram colonias indianas no Brasil. Não existe um padrão. Meu avô, por exemplo, teve motivos pessoais, que não são do teu conhecimento, e que não tiveram absolutamente influência da conjuntura social, econômica ou polí­tica indiana na época. E por falar nisso, o motivo de você não ter conseguido argumentar comigo sobre a cultura indiana não é por eu ser uma "etnia perdida três gerações", e sim porque você desconhece o assunto e a própria cultura indiana. Outra coisa, você dizer: "Sikhs mataram Indira Gandhi e seu filho. Culpa dos párias." É descolar o fato do contexto, distorcer o sentido e ser sensacionalista. Não que eu apoie qualquer tipo de morte ou agressão, apenas acho que essa é uma maneira "rasa" de tocar no assunto.&lt;br /&gt;Abraço,&lt;br /&gt;Diego Singh&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-116524908284834914?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/116524908284834914/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=116524908284834914' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116524908284834914'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116524908284834914'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/12/grande-sagae-apesar-das-palavras-pouco.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-116368799112740039</id><published>2006-11-16T12:16:00.000-02:00</published><updated>2006-11-16T12:39:51.143-02:00</updated><title type='text'>Quando as montanhas falam</title><content type='html'>Duas montanhas, após dezenas de milhões de anos, encontraram-se novamente. Pico ante pico (não mais tão altos e garbosos quanto no período cretáceo), sorriram. &lt;br /&gt;- Nem me lembro mais porque brigamos.&lt;br /&gt;- Eu lembro.&lt;br /&gt;- Você ainda guarda esse rancor?&lt;br /&gt;- Você não disse que não lembrava?&lt;br /&gt;- Nâo lembrava mesmo. Mas, pelo seu modo de falar, tudo voltou à memória.&lt;br /&gt;- Você foi muito cruel. &lt;br /&gt;- Se você pensa desse modo, porque sorriu?&lt;br /&gt;- Sorri por achar graça. Se naqueles anos de turbulência magmática você se achava a melhor, por ser alguns metros mais alta, veja voicê hoje. Um reles morrinho que nem formigas fazem força pra contornar.&lt;br /&gt;- É, eu fui assim. Fui arrogante, fui prepotente, fui orgulhosa e, mais que tudo, fui altiva quando podia ser. Mas, se soubesse o que sei hoje, teria sido diferente.&lt;br /&gt;- E o que você sabe hoje?&lt;br /&gt;- Lembra-se como éramos cercadas de nuvens. Tantas e tão espessas que mal podíamos ver os caminhantes aos nossos pés. Eram dias de instabilidade. Quando o ar era úmido demais mesmo para os voadores. &lt;br /&gt;- Eu gostava de sentir o vento roçando minhas costas e meu peito. Talvez se soubesse que esse roçar constante acabaria me levando à ruína, teria apreciado menos.&lt;br /&gt;- Milênio a milênio, as nuvens foram ficando mais distantes e menos espessas. Milênio a milênio, no tempo que leva o sol para sentir nosso hálito, fui me dando conta que para além de mim havia as rochas, e as pedras, e, finalmente, o pó.&lt;br /&gt;- Insignificante é o pó.&lt;br /&gt;- Que você mesmo percebeu, ao se degradar de nossa pele foi nos tornando pequenos amontoados de terra, ao invés de onipresentes montanhas.&lt;br /&gt;- E o que isso tem a ver com sua humildade.&lt;br /&gt;- Alguns milhões de anos atrás, quando me dei conta, passei a ansiar ser eu mesmo tão ínfima quanto o pó.&lt;br /&gt;- Que estupidez. Eu, não, me aferro com todas as forças à rocha me faz ser eu para continua grande e me sobrepo ao mundo.&lt;br /&gt;- Ao me tornar ínfima como o pó, finalmente poderei viajar com o vento e, sem amarras aos meus pés, tocarei a realidade em suas minúcias e nunca mais serei uma imponência passiva. Mínima poderei conhecer o máximo.&lt;br /&gt;- Pra mim, contiua parecendo estupidez... Do que está rindo?&lt;br /&gt;- Da gente. Eu, na grandeza, fui arrogante o bastante pra me sentir perfeita. Você, apesar da pequenes que te assola, ainda sonha com a grandeza que nunca mais retornará. &lt;br /&gt;- Se ao menos eu fosse um vulcão.&lt;br /&gt;- Por sorte, um dia eu serei um granículo de pó.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-116368799112740039?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/116368799112740039/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=116368799112740039' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116368799112740039'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116368799112740039'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/11/quando-as-montanhas-falam.html' title='Quando as montanhas falam'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-116353629191441723</id><published>2006-11-14T17:28:00.000-02:00</published><updated>2006-12-02T14:44:47.793-02:00</updated><title type='text'>Travessa dos editores</title><content type='html'>Saí agora da Travessa. Fui falar com o Rubens. Rubens não estava e não chegou. A espera foi abreviada pela conversa. Com todo mundo, mas, pra resumir, vamos acenar com nomes fictícios para que ninguém se comprometa. Paulo Sandrinni, pra variar, estava de preto. Na leva dos escritores em luto, mantém-se fiel àquela morta carcomida: a literatura. Está com os pêlos do rosto por fazer (seria mais dramático se os contornos não fossem tão bem destilados do amargo álcool que é a tal barba rala). Na companhia de Bento (não o XVI), travam uma batalha campal, atacando e revidando nomes e prenomes de capitais e bandeiras de países do mundo conhecido e de outros nem tanto). Sinto-me ignorante. Ainda mais depois de ter sido corrigido por Diego Singh quanto ao título do livro reportagem de Norman Mailler - A luta ( e não Quando éramos reis, título de documentário). Estrabuchado com meus pensamentos mequetrefes, vejo na janela o vôo cinza de pássaros assustados. Penso "qual a verdade disso tudo e se realmente não deveria ser Diego o escritor e eu o fotógrafo?". Mas me apago com uma virada de acontecimentos&lt;br /&gt;- Singh é indiano. Sikhs&lt;br /&gt;e nada poderia ser pior do que argumentar com etnias perdidas três gerações após o universo migrante ter se consumido no apoteótico nadir da economia de ululantes pré-segunda guerra mundial. República de Weimar, eu digo&lt;br /&gt;- e o que isso tem a ver&lt;br /&gt;nada, respondo, ainda mais angustiado com minha personalidade de diversas facetas e tão pouca coerência. Neste mundo de desmando e milhares de bandeiras, acendo um pequeno toco de cigarro e me aflijo com a áfta no fundo do céu da boca - ferida que me consome e me confunde e me faz temer cânceres imaginários e outros mais reais. &lt;br /&gt;Levanto e me parto. &lt;br /&gt;- Sikhs mataram Indira Gandhi e seu filho. Culpa dos párias.&lt;br /&gt;Fico quieto, pária ou não, páro de me argumentar e me assumo na ignorância de estar há tempo demais esperando e, afinal, essa conversa com Rybens pode ser feita outro dia. Agora é melhor voltar pro Bureau e resolver a parte prática de minha vida, que por ser menos sedutora, não é menos importante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-116353629191441723?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/116353629191441723/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=116353629191441723' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116353629191441723'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116353629191441723'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/11/travessa-dos-editores.html' title='Travessa dos editores'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-116351964095203001</id><published>2006-11-14T13:51:00.000-02:00</published><updated>2006-11-14T13:54:00.970-02:00</updated><title type='text'>Adeus às armas</title><content type='html'>Hoje eu me dei conta de que as pessoas envelhecem e, na consideração geral, deixam de pertencer ao grupo à qual estavam reconhecidos. Estudar, trabalhar, competir no mercado e, quando o corpo parece cansado e a idade chega, e parece que você não mais tem condições d ecompetir de igual pra igual, adeus. O velho soldado se aposenta e, não sendo general, é declinado de sua patente para ser um mero civil, tolo em suas preocupações para com sua gente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-116351964095203001?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/116351964095203001/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=116351964095203001' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116351964095203001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/116351964095203001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/11/adeus-s-armas.html' title='Adeus às armas'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115800574591297174</id><published>2006-09-11T17:02:00.000-03:00</published><updated>2006-09-11T17:15:45.943-03:00</updated><title type='text'>RIOS INTERNOS</title><content type='html'>Voltou a sensação de vazio. Horrível isso (o que significa que o vazio não é total, e isso é bom). É como estar imerso em um tempo de manteiga, que não permite escoar para lugar algum, pensamento algum, possibilidade alguma. E é isso que atormenta. Possibilidades. Na verdade elas existem mas nenhuma satisfaz. E se assim é, como decidir o que fazer? &lt;br /&gt;O que fazer?, é o que me pergunto enquanto tento dormir de olhos fechados em um quarto escurecido pela noite. Divago sob as pálpebras pesadas consultando um oráculo passado (tenho o hábito de conversar com os mortos procurando respostas). Hoje questiono minha mãe, alguém que passeou por tantas religiões e crenças que chega a ser difícil de levar a sério suas percepções mundanas. Como alguém com a espiritualidade tão aberta pôde morrer de derrame, diabética, perna amputada e jurando que a vida é boa e que devemos continuar insistindo? JUstamente pela espiritualidade. Mas, o que fazer, se eu não sou assim?&lt;br /&gt;- princípios, siga os princípios,&lt;br /&gt;e quais seriam eles? Que princípios? Nâo tenho nenhum. &lt;br /&gt;- escolha e aceite&lt;br /&gt;como?&lt;br /&gt;- pergunte a si mesmo pelo que vale a pena morrer, e aí estará um princípio, não definido por você, mas definido pela sua vida&lt;br /&gt;não vejo nada e é tão difícil&lt;br /&gt;- a partir do momento que definiu seus princípios, estabeleça objetivos; assim você poderá seguir construindo algo e saberá, com clareza, quais os limites e que preços não poderão ser pagos nessa jornada&lt;br /&gt;eu não consigo&lt;br /&gt;- a fraqueza pode ser um princípio&lt;br /&gt;E assim conversei com minha mãe (ou a imagem idealizada que dela tenho) e passei a madrugada (não falei que era madrugada, de uma escuridão cruel e cheia de armadilhas) tentando encontrar meus princípios. E mesmo assim amanheci vazio, e agora persisto na busca dos tais princípios. Não pela questão existencial (não?), mas porque é preciso. Passei da idade da inconsequencia e preciso construir algo, caminhar para algo, me aperceber como alguém e não mais ser um ponto estático no universo mas alguém que está a caminho. Basta de enganar a mim mesmo que é possível a imobilidade (sangue, líquidos, tudo flui em meus rios internos), preciso ir adiante como quem lamenta a dor do viver e mesmo assim, doente, amputado, em uma cama de UTI ainda conversa com aqueles que ama e jura que é possível encontrar a felicidade do caminho justo com os próprios princípios. Mesmo sendo o retrato da decadência, da velhice, da derrota, ser capaz de convenver a realidade de que nada daquilo é real e apenas a certeza de que às portas da morte ainda se está a caminho. Não sou eu uma colônia de células (trilhões e trilhões) que morrem e nascem todos os dias, e que lutam pela sobrevivência sabendo que sua sobrevida depende da vida da comunidade? &lt;br /&gt;- minha vida continua em você&lt;br /&gt;eu queria ser digno&lt;br /&gt;- isso não importa&lt;br /&gt;então o que importa?&lt;br /&gt;- nada, a não ser que você faça ser assim&lt;br /&gt;vamos nos ver novamente?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115800574591297174?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115800574591297174/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115800574591297174' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115800574591297174'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115800574591297174'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/09/rios-internos.html' title='RIOS INTERNOS'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115749165604228109</id><published>2006-09-05T18:27:00.000-03:00</published><updated>2006-09-05T18:27:36.076-03:00</updated><title type='text'>ÉTER</title><content type='html'>Existe um tipo de silêncio que grita. Não aquele da física quântica, que limita o tempo ao Big Bang, mas aquele da termodinâmica, que afirma que antes do Big Bang havia o espaço vazio ao redor, no qual oscilava a densidade; e, sendo assim, mesmo antes do início, já havia algo, já havia o tempo. Saber disso, optar por isso, dá esperanças de que depois do fim também haverá algo, talvez menor que o burburinho branco que é esta vida, talvez fluído e irreal como a densidade no vazio, um silêncio vibrante tanto que, em algum momento, zilhões de anos na eternidade, ecloda um novo primeiro momento e dele nasça uma nova possibilidade de mim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115749165604228109?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115749165604228109/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115749165604228109' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115749165604228109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115749165604228109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/09/ter.html' title='ÉTER'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115686640967744324</id><published>2006-08-29T12:45:00.001-03:00</published><updated>2006-08-29T12:46:49.903-03:00</updated><title type='text'>2. Quando um telefone alerta que algo está errado e que tudo o que foi planejado talvez seja mais conveniente do que parece</title><content type='html'>O telefone toca e a melodia te irrita. Beira a loucura o que se faz quando se ama uma mulher. Até música baiana você aceitou. Você que sempre odiou Caetano Veloso e Gilberto Gil. Tudo bem que piorou com o dito cujo virando ministro. Merda! Você atende e a voz é conhecida O que você fez, cara?! Você ficou louco?! Deve haver explicação do motivo que leva você a se acalmar quando fala com alguém mais nervoso que você Eu não estou bem. Me liga depois Não! Você precisa se mandar agora, antes que a polícia chegue Que polícia? Meu, sai daí agora! Jofre desliga na sua cara e nem explica o que se passa e mesmo assim você corre vestir uma calça sem ao menos vestir a cueca. Jofre não é daqueles que se espantam ou se assustam com besteiras. Por isso você convidou o cara pra ser seu padrinho de casamento. Sabia que ele não ia se escandalizar pelo fato de você estar desposando Joaninha, a puta drogada e que não pegou AIDs ainda por milagre. Se bem agora não pega mais (como evitar o riso?). Bota logo a camiseta e uma jaqueta por cima e calça os sapatos e vai até a porta da sala, quando escuta vozes no corredor. Interrompe a viagem da chave à fechadura e espera vir o silêncio. São os vizinhos. Duas sapatas mais preocupadas com o gato gordo e castrado do que com aua vidinha arrasada. Quando você tentou se suicidar e o chuveiro quebrou pois não aguentou seu peso, riram toda a descida do elevador. Você e sua boca grande. O porteiro, justo o porteiro você tinha que contar. Mereceu. Merda, o telefone toca de novo. Precisa mudar a música. Alou? Ninguém responde. Deve ser a polícia. Cata o celular sem se dar conta que é branco e não preto e sai e esquece de trancar a porta de volta. Que importa? Talvez tenha que fugir e nunca mais voltar. De qualquer modo, você se sente uma barata amassada mesmo. Pra quem decidiu dar cabo de si, está preocupado demais com a possibilidade de uma prisão perpétua (e nem ao menos sabe o motivo). Desce pelas escadas a fim de evitar encontros inoportunos. Vai fumando um Marlboro para justificar. Nestes momentos é bom ser calculista. Joaninha sempre reclamava disso. Babaca. Se tivesse dado ouvidos ao povo todo, nada tinha acontecido. Como foi se apaixonar por Joaninha, a puta drogada e que não pegou AIDs ainda por milagre? Simples. Pura burrice. Pura burrice.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115686640967744324?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115686640967744324/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115686640967744324' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115686640967744324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115686640967744324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/2-quando-um-telefone-alerta-que-algo.html' title='2. Quando um telefone alerta que algo está errado e que tudo o que foi planejado talvez seja mais conveniente do que parece'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115686633289776244</id><published>2006-08-29T12:45:00.000-03:00</published><updated>2006-08-29T12:45:40.736-03:00</updated><title type='text'>1. O dia em que tudo deu errado e você decidiu assumir que se a vida deve ter um ponto final, quem dará esse ponto é você</title><content type='html'>Você acorda. Ainda está escuro mas é dia. Levanta e abre o blecaute. A luz irrita seus olhos e mesmo assim você insiste em não piscar. Foda-se a dor e o incômodo. Abre a janela e o vento parece chicote. Inverno de merda! Deixa o quarto esfriar e vai até o banheiro. O espelho do boxe, espatifado no chão, te recorta como um monstrengo de filme trash. Um dos cacos enfia em seu pé e sangra. O tapete fica marcado e mesmo assim parece ser como deve ser. Filha-da-puta!!!! Você cata um dos pedaços e apóia no canto da pia. O cigarro apagado no filtro. Cata a ponta e joga na privada. Deixa que se vá com os escarros da madrugada. Acende-se uma luz em sua mente. E imediatamente apaga. Não é bom ter idéias quando tudo já está decidido. A covardia nasce da abertura de possibilidades. Sim, a vida poderia ser melhor. Sim, pode ser que amanhã tudo fique melhor. Sim, pode ser que semana que vem ela ressuscite e tudo volte ao normal. Sim, pode ser que todos os desgraçados acordem e deixem de ser o que são: desgraçados. É foda saber que tudo poderia ser diferente e(o espelho te observa com apenas um dos olhos e o vermelho da órbita avisa que deve se cuidar pra não alterar os planos). Assim é a vida. Uma hora chega ao fim. Ou devia dizer um segundo. Um milésimo de segundo. Merda, assim é o que é. Encosta a bunda pelada no azulejo e tira com a ponta das unhas o vidro pontudo. É uma peça bonita, ainda mais suja com seu vermelho hemoglobina. Voc~e começa a rir. Lembra de quando era criança e viu o absorvente de sua mãe jogado no cesto de lixo do banheiro. Catou e foi até a cozinha. Mãe, você vai morrer? Ela nunca responde. Te catou pela orelha e te fez devolver aquele acumulado de vida esvaída ao lixo a que pertencia. E você nem sabia que aquilo era duas vezes vida. Vida pela metade será morte pela metade? Um óvulo a menos. Um irmão potencial que não se fez inteiro. Inteiro como você. Um fracasso integral. Merda! Afinal, porque você está rindo?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115686633289776244?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115686633289776244/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115686633289776244' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115686633289776244'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115686633289776244'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/1-o-dia-em-que-tudo-deu-errado-e-voc.html' title='1. O dia em que tudo deu errado e você decidiu assumir que se a vida deve ter um ponto final, quem dará esse ponto é você'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115678938306665849</id><published>2006-08-28T15:22:00.000-03:00</published><updated>2006-08-28T16:37:57.520-03:00</updated><title type='text'>A LIBERDADE</title><content type='html'>Ela te liga e pergunta se É amor? Você responde que Não sei... Talvez e ela não parece nem um pouco satisfeita Você é como todos os outros que passaram pela minha vida e não deixaram marcas e você poderia continuar a conversa mas precisa continuar o trabalho ou vai se atrasar tanto que A gente pode se encontrar e conversar pessoalmente sai antes que você tenha tempo de Tudo bem e aí é tarde, adeus trabalho, adeus amor, adeus dia tranquilo no qual finalmente sua vida ia entrar em bom ritmo Pode ser no restaurante que a gente foi na primeira vez e você aceita antes mesmo que ela possa conter o riso e o arfar ansioso e você saca de imediato que foi pro brejo e noite e muito mais terá se acabado antes que o dia seguinte amanheça.&lt;br /&gt;Na bolsa uma faca de cozinha que você não denuncia nem mesmo ao se aperceber que a costela de carneiro está mal assada Que delícia, não é? e Está ótimo você Quem diria que Um dia a vida vai Será que nós Nunca vou lembrar a verdade do Morri de inveja e o beijo ocorre como se assim devesse ocorrer (só pra constar, assisti Brokeback mountais e lembrei agora que certos beijos têm mais comprometimento que outros) e logo as mãos e as pernas e a umidade e a secura e a vontade de um dia Você voltou a fumar? ela não responde, continua a soprar a fumaça e olhar pelo espelho do teto que seu corpo emagreceu e que uma pequena marca vermelha aparece perto da virilha e alguém Sai com dois caras ontem e você não se faz de surpreso porque realmente não é Eu sei Você não está bravo? Não Você me ama? e você nãor esponde, levanta e vai pelado até a mesa e mexe na bolsa enquanto ela Se a getne casar, não preciso procurar outros caras e você apenas apaga a luz e pensa que amanhã o trabalho irá render e que finalmente sua vida entrará nos trilhos e não precisará mais pensar se ama pois nbinguém ais o questionará e o único amor verdadeiro é aquele que terá por si mesmo na busca incenssante de preservar a liberdade, plena e suprema liberdade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115678938306665849?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115678938306665849/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115678938306665849' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115678938306665849'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115678938306665849'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/liberdade.html' title='A LIBERDADE'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115678874215953713</id><published>2006-08-28T15:12:00.000-03:00</published><updated>2006-08-28T15:12:22.653-03:00</updated><title type='text'>Câncer</title><content type='html'>Domingo você gostaria de acordar tarde mas não acorda. Um desejo irrepremível de doce de abóbora com côco te faz saltar do cabideiro e escorrer até a sala e, de trás do aparelho de som, tira um pote cheio de parafusos. Olha com atenção o único parafuso provido de porca e lembra-se qual o motivo de querer acordar tarde: continuar o sonho molhado e marítimo que estava tendo dois dias atrás, sobre a escrivaninha da cozinha. Volta para a cama mas é tarde. Tarde para dormir, tarde para comer doce de abóbora com côco. Levanta-se e veste a bermuda florida e a camisa de seda azul cobalto. de chinelas vai para a feirinha do Largo da Ordem e, de café da manhã, toma café. Acende uma cigarrilha Dona Flor e senta-se no banco junto ao relógio das flores. Na terceira tragada lembra-se que deixou de fumar. Câncer, que se importa? Quem além de seu médico que anunciou Seis meses de vida e você fez que não era com você e, agora, contando os dias ímpares e pares, passaram sete meses e nada aconteceu. Nenhuma dos sintomas apareceram e nem mesmo fez a quimioterapia. Volta ao cigarro e olha para aquela montanha lavada de pessoas subindo e descendoa feirinha, rpocurando incensos, bugigangas, antiquidades novidadeiras e, por um segundo, acha que tem tonturas. Levanta-se, respira fundo e morre. Acorda em sua cama, ao lado a mulher que nunca amou e aos sues pés o velho e fiel cachorro Brutus. Vai ao banheiro, faz xixi e acomoda-se np sofá da sala e liga a televisão no canal pornô. Meus deus, pensa, quantas vezes vai fazer isso até que finalmente seja verdade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115678874215953713?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115678874215953713/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115678874215953713' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115678874215953713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115678874215953713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/cncer.html' title='Câncer'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115652483507981542</id><published>2006-08-25T13:37:00.000-03:00</published><updated>2006-11-14T17:17:55.143-02:00</updated><title type='text'>Trabalho por amor</title><content type='html'>Avante, filha-da-puta! Avante que um passo a menos é uma bala na cabeça. Avança de uma vez que o barranco precisa de pressa. Se você for devagar no início, não chega ao final. E você quer chegar ao final, não? Você quer satisfazer a mim, que te impulsiona feito um carrasco na direção da guilhotina, feito o pastor ao teu lado, rezando o salmo 28, compondo a figura de sonhos que tantas vezes você sonhou deitado em sua cela sem grades. É, você não devia ter tentado o que não podia conseguir. Fracassado de merda! Olha o mato ao seu redor e me diz se era desse modo que você imaginava o fim. Está vendo seus sapatos, o modo como as solas engrossam com o barro e a merda de animais tantos que se você realmente soubesse teria desistido faz anos de comer carne. Sim, eu sei que você tentou ser vegetariano, não tanto em respeito às almas bovinas, mas principalmente pelo prezado corpo que logo, em breve, em brevíssimo - cala a boca que não me interessa que você não queira ouvir - onde eu estava? Ah, em brevíssimo tempo será uma parte a mais desta natureza exuberante. Afinal, não era isso que você queria. Quando você orava de palmas julntas, pedindo para conquistar a tal unicidade. Ser um co  o todo e não mais sofrer , e não mais ser derrotado pois você, naquele momento, seria o universo, e não esse personagem mesquinho e sem capacidade que não seja fracassar naquele grande emprendimento? Vamos, anda de uma vez que ainda falta, não muito, mas falta. Vamos que as cordas não atrapalham tanto assim. Eu sei porque já fiz este caminho, mais de uma vez. Não, eu não sou o diabo, muito menos o espírito de natal (se pelo menos natal fosse). O que eu entendo desta vida e posso te dizer, agora que você pode parar... não quer parar? OLha, o caminho inteiro você reclamou da trilha e agora quer continuar? Claro, sei que está com medo de se ajoelhar e eu dar cabo de tua existência mesquinha. Olha, vou te dar uma chance. Eu vou senntar naquela pedra ali e vou acender um cigarro. Quer um? Causa câncer, você sabe, não sabe? POis bem, aqui está. Pega e traga devagar porque odeio gente tosse quando fuma. Pára de tossir, você não ouviu? Todos os dias, quando eu era criança, eu assistia a sessão da tarde e ficava esperando que fosse um filme com cachorros. Lassie, Rin-tin-tin, essas coisas. Mas o melhor era um que eu não lembro o título, com um bull-terrier miniatura. Muito esperto. Na época eu não sabia que era um cachorro tão caro. É, muito caro. Poucos criadores neste paisinho de merda. Eu sei, faz parte da vida. Senta, que é melhor. A árvore não vai cair. Senta e descansa as pernas. Eu sei que é foda. Já te disse, eu já cumpri o seu papel. Como eu fiz pra me livrar? Não vou te contar que você não vai acreditar. Tudo bem, eu conto. Eu convenci meu guia de que era mais vantajoso me ter amigo do que morto. Como eu fiz isso? Simples, encostei meu peito na arma e falei que daquele jeito ele estaria perdendo a grand eoportunidade da vida. E falei da merda do meu sócio, que tinha contratado ele. E falei da merda da minha mulher, que trapava com meu sócio. E falei das merdas dos meus filhos, que não sabia de nada mas eram merda do mesmo jeito. E jurei, pedindo pra ele pegar minha carteira, que com o cartão do banco dava pra sacar uma boa grana e depois, qunado o dia raiasse, a gente podia tirar o resto. Pelo menos 40 mil. Uma boa grana pra aquele tonto que, quando eu tive chance, enterrei na cova que deplois coloquei mais dois pra fazer companhia. Meus filhos? Ainda vivos, mas não falo mais com eles. Nem eles comigo. Eles sabem que não é bom pra saúde. Ah, aclaro que eles sabem. Foi na frente deles que ajeitei as coisas. E fiz eles saberem pra que pudessem mentir pra mim. Amor de filho não é tão forte como o ódio e o medo. É um prazer falar, claro, por que a vida não se resume apenas aos momentos de ação. Aproveitar as boas lembranças faz parte do prazer de viver. Eu já disse isso? Nâo importa. Seu cartão e crédito? Pode me dar, assim como o cartão do banco. Fala a senha que eu anoto. Tudo bem, eu admito, foi sua mulher e o caseiro (ah, jardineiro), é foram eles que acertaram o serviço. Nâo sei se são amantes. Tem gente que é assim, fazer o quê? Tchau. Vou comprar um cachorro. Obrigado pelo quê? Ah, é verdade. estava esquecendo. Adeus. E Desculpa. Gostei de você mas eu sou profissional. E como passei pelos dois lados da moeda, sei que é melhor não enrolar. Se bem que enrolo. Pede pro papai do céu que o cachorreiro não tenha vendido o machinho pirata. Como eu disse (não disse?), trabalho por amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115652483507981542?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115652483507981542/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115652483507981542' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115652483507981542'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115652483507981542'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/trabalho-por-amor.html' title='Trabalho por amor'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115652382104115397</id><published>2006-08-25T13:36:00.000-03:00</published><updated>2006-08-25T13:37:01.393-03:00</updated><title type='text'>Nelson</title><content type='html'>A barriga aguda e os joelhos tortos vaticinaram à parteira de que eu viria a ser ladrão e assassino. Minha língua curta e os dedos vampiros levaram meu pai a enterrar viva minha mãe. Meus cabelos ralos afastaram a boa vontade dos professores do orfanato enquanto minha bunda de banquinho me ensinou a dor da amizade. As mãos vermelhas e os olhos fundos comprometiam o ganho com a esmola e a compaixão. Os pés pequenos e as grandes orelhas ocultaram da mulher amada minha existência. A inteligência de cardeal e minha voz de jegue malhado atraíram o interesse de um padre obtuso, hóstias de poucas calorias, vinho batizado e um teto sagrado. Isso até o dia em que o circo me abriu os braços. Hoje, apesar do público cada vez menor, menos curioso, com diminuta capacidade de garantir a perenidade de meu salário, alimento a imensa capacidade de me auto-iludir e a total descrença em um deus paternal rindo desesperadamente daqueles que se crêem melhores que eu e você.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115652382104115397?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115652382104115397/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115652382104115397' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115652382104115397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115652382104115397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/nelson.html' title='Nelson'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115643551711158393</id><published>2006-08-24T13:05:00.000-03:00</published><updated>2006-08-24T13:05:17.310-03:00</updated><title type='text'>eleição</title><content type='html'>Como o prometido, aqui via mais uma fórmula mágica.&lt;br /&gt;Com o fim dos showmícios, muitos candidatos ficaram ao deus dará e se arrependem amargamente de não term espaço na televisão e em programas de rádio. Podem apostar, finda a eleição 2006, teremos uma guerra dentro das emissoras. As programações serão saturadas de pretensos radialistas e os ouvidos encerados pelas AMs serão obrigados a receber muito óleo com arnica pra prevenir a inflamação. &lt;br /&gt;Porém, retornando ao tema, com o fim dos showmícios, os impressos e a utilização de call-centers parece ser a moda. Tudo bem que os impressos já eram usados, e muito, mas os call-centers sempre foram subaproveitados. Agora, creio, não mais. Um outro veículo que vai se fortalecer é a web. Infelizmente ainda não existe uma legislação consistente para tratar dela. Os spams foram defenestrados pelos usuários como sendo algo abominável mas continuam na ativa. Não com a primazia de antes, mas continuam. Gente que recebe informas de festas, bares, centros culturais, continuam abrindo mensagens e lendo o que ali está anunciado. Eis um vazio que os candidatos não aproveitam. Houve tempo que os chamados candidatos amigos da cultura se faziam presentes em peças e cinema e espetáculos dos mais variados. Hoje, isso mudou. Muito poucos o fazem. Os antigos pararam (Greca optou pela igreja e Vanhoni parece gostar mais do velho jack). Os novos, ingorantes de cateirinha, preferem investir em bandeiras e bandeirolas. Ainda não estamos na véspera da eleição, quando as ruas serão tomadas pelas guerrilhas dos candidatos (falando nisso, volta e meio encontro Osmar dias [esse nome não ajuda, realmente], e ele não está com aquele olhar vencedor, de quem está disposto a vender a alma ao demo pra conseguir o direito de fazer o bem comum. Só ele não sabe que é preciso ser Fausto pra conquistar o céu). Gentinha que se canditada e que me lê eventualmente, recebm os maillings e copiam meus textos mandando via e-mail, sem showmício e sem associação com artistas, sua vida ficou mais difícil. Aconselho que comecem a frequentar os locais que dêem valor a vocês como pessoas capazes. Vão ao teatro, Vão a shows musicais, vão ao cinema, estejam resentes em conversas de artistas, na universidade, comecem a parecer gente de conhecimento e, aos poucos, esses fazedores da opinião pública, vão relfletir pela dúvida que talvez você seja alguém minimamente inteligente. Ah, é importante que não abram a bvoca em debate para que a dúvida se fortaleça. Faça cara de esperto que está ótimo.&lt;br /&gt;Bom, pra variar acabou meu tempo. Depois a gente fala mais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115643551711158393?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115643551711158393/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115643551711158393' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115643551711158393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115643551711158393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/eleio.html' title='eleição'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115643489864749068</id><published>2006-08-24T12:51:00.000-03:00</published><updated>2006-08-24T12:54:58.846-03:00</updated><title type='text'>Peça: Cafeína</title><content type='html'>Cafeína, esse é o nome da peça que finalmente terminei e sacramentei como terminada. É uma encomenda pro grupo de teatro da PUC Paraná. Originalmente devia ser uma comédia, mas acabei fazendo algo que mais se assemelha à uma tragédia (se bem que, nos dias de hoje, quem se assusta com tragédias encenadas?). Há riso, há crítica, há pedantismos e há muito preconceito e descaso. Espero que o Laércio Ruffa, o diretor, aprove o texto. Caso contrário, lá vou eu retomar um outro materila que eu havia teminado mas, sabem como é, descobri que poderia ser melhor se fosse tratado com a devida seriedade. Claro que acredito naqueles que dizem que o riso modifica mais o mundo que o choro, mas meu objetivo não é fazer rir nbem chorar, meu objetivo é mais prosaico e passa pelo envolver o público ou o leitor em um tipo de realidade que o surpreenda tamanha a familiaridade e tamanha a estranheza.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115643489864749068?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115643489864749068/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115643489864749068' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115643489864749068'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115643489864749068'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/pea-cafena.html' title='Peça: Cafeína'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115643466302141619</id><published>2006-08-24T12:45:00.000-03:00</published><updated>2006-11-14T18:50:52.676-02:00</updated><title type='text'>Cornélio e a Universidade</title><content type='html'>O jornal Cornélio chega à universidade. Alguns alunos da PUC (Sílvia e Frabrícia) estão entrevistando o Bureau de Fatos pra um trabalho. No meio da conversa, veio a questão do novo. Eis aí a qeustão. Existe novo é só mais um mito que a tecnologia e as vendas pelo E-bay e Mercado-Livre estimulam? Em um mundo de 6 bilhões de pessoas, a coisa piora pois existe, certamente, o novo para o mundo (raríssimo) e o novo pra si mesmo (comum). Muita gente se gaba de criar o que é novo pra si, esquecendo que, muitas vezes, a novidade já surgiu faz séculos e simplesmente não chegou a alguns ou muitos ouvidos moucos pela simples e normal falta de espeço na agenda hiperespacial. Sejamos claros, se é novo pra gente já é legal, mas daí, anunciar como novo pro universo é pretensão. Foi-se o tempo que circunavegação planetária horrorizava a igreja (se bem que o novo livro do Gunter Grass está causando escândalo pois cita um certo alemão hitlerista que hoje é papa). Pois, que seja, o assunto é o Cornélio, não algo novo. Principalmente porque o Cornélio nasceu velho e bigodudo, feito um schnauzer que eu conheço e que de vez em quando visita o Bureau.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115643466302141619?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115643466302141619/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115643466302141619' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115643466302141619'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115643466302141619'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/cornlio-e-universidade.html' title='Cornélio e a Universidade'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115522702230358009</id><published>2006-08-10T13:20:00.000-03:00</published><updated>2006-08-10T13:23:42.463-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Original fire, o novo clipe do Audioslave, Michelle, minha sócia, acredita piamaente que é basado em nosso jornal, Cornélio. Já que eles recebem a publicação, e já que temos conversas quase semanais com os caras, até que é plausível. &lt;br /&gt;Primeiro Michelle achou legal, como eu. Agora ela está indignada. "Por que os caras não contratama a gente?" Digo que tem muita gente boa nos estates. Ela reclama que Eles devem apoiar o teceiro mundo, a gente! Respondo que não pe bem assim e ela Claro que é assim senão porque eles tem uma ong chama axe of justice?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115522702230358009?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115522702230358009/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115522702230358009' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115522702230358009'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115522702230358009'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/original-fire-o-novo-clipe-do.html' title=''/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115522668831394679</id><published>2006-08-10T13:17:00.000-03:00</published><updated>2006-08-10T13:18:08.470-03:00</updated><title type='text'>O que o candidato tem a ver com a maconha?</title><content type='html'>Nem vou citar o Bill Clinton dizendo que não tragava, ou o Bush negando que já viu a tal da Maria (um bêbado como esse, meu deus - se bem que o Lula está na mesma roda). Vamos direto ao assunto. Maconha é fumo banido. Não pode ser vendido de forma legal, então não pode ter o aviso do ministério da saúde. Política é algo legal. Tem a ver com a administração da Polis (não a polis grega, mas a pólis suburbana e mal fornida a qual estamos condenados). Polis, pois então, suburbios e locais de alta concentração humana. Sendo o centro reservado ao comério, é no suburbio que está a população. Infelizmente não mais peripatética platonica mas apenas patética. Uma população toda patética e cheia de conceitos novela de televisão e amores adornados a cortes de cabelo Hebe Camargo. Onde quero chegar? Já cheguei. Um garoto que conheço que pediu emprestado dez reais pra poder comprar um baseado. Achei interessante (não, não fiquei horrorizado pois já tive a idade dele e, desde os catorze, fumei Marlboro eoutras merdas) e acabei dando o dinheiro. Muito mais pela honestidade, sendo honesto, do que desejando incentivar vícios e outras consequencias malévolas. D2, o sambista rapper vende discos baseado na maconha. Esquadrilha da fumaça, toda vez que vejo, penso na dita cuja. Política, a polis suburbana, as rodas de maconheiros mirins. a conversa sem sentido e as risadas súbitas. Política de mal trato à população e candidatos mais interessados no bem próprio do que no bem comum. Triste pensar que fazem o que fazem pensando na re-eleição, e não pela peripatética conversa em gabinete que levou a concluirem que é preciso lutar pela verdade e ser honesto e ter valores. Roda de maconheiros que falam sem direção e nem vão lembrar. Peripatetica política contemporânea, uma roda de maconheiros tomados de amnésia do dia seguinte. Pesquisas indicam que a população que político honesto. A mídia maceta dizendo que a corruoção é o grande mal e é preciso um choque de moralidade. Assassinato é imoral, política é amoral. Maconha, essa nem tem idéia ou pode ser julgada. Ilegal, maconha é ilegal. Estou divagando? Claro que estou, o que mais há para se fazer quando a consciência impede atpe mesmo de acender um baseado pois, afastar-se do mundo, apenas na morte ou em um foguete aeroespacial. No mais, a sobriedade minha foi conquistada de forma dolorosa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115522668831394679?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115522668831394679/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115522668831394679' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115522668831394679'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115522668831394679'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/o-que-o-candidato-tem-ver-com-maconha.html' title='O que o candidato tem a ver com a maconha?'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115522587728228166</id><published>2006-08-10T12:53:00.000-03:00</published><updated>2006-08-10T13:04:37.553-03:00</updated><title type='text'>O que aconteceu com a gente, Joey?</title><content type='html'>Qualquer dia desses compro uma passagem pra Bangladesh e vou entender o que aconteceu com George Harrison. Para os da minha geração o Concerto para Bangladesh foi o primeiro Live AID. Nada tão estrombótico, sem estádio, sem transmissão via Tv. Acho que foi no Madison Square Garden, em uma tarde de sábado, cheio de gente ainda tentando requerer para si o advento de um novo mundo - melhor, mais forte, mais rápido - sem saber que Steve Austin já detinha a primazia da frase (ou terá  sido Oscar Goldman?). O certo é que era uma tarde e um anoitecer, cheio de velhos hippies e alguns novatos, cheirando a baseado e dançando em batas que atrapalhavam os movimentos do spés. Não eram poucos os que sorriam imaginando que ali estava a faísca a renascer o flower power. Pobres mortais alucinados. Nem Timothy Leary estava mais nessa. Depois da família Manson, os adoradores das viagens astrais e defensores de Don Juan (ah, velhos porteiros das portas da percepção) tornaram-se meros garotos sentados em escadas de concreto, em grupo, discutindo rock e baladas enquanto queimam a última ponta. Acho que era 1972, ou 1974, ou qualquer outro ano por perto, que interessa. O caso é que já estavam rondando o CBGB os New York Dolls e já tinha um magrelo alto, de salto agulha e paetês e plumas, andando desengonçado pelas vias próximas e imaginando se Ramone seria um bom nome ou apenas um espirro de seu murcho cérebro tomado de boletas. Ah, bons tempos, não se lembra Joey? A gente andava como se fosse gente grande e discutia livros e altas voltagens musicais. Indignados que os babacas do rock psicodélico se achavam os tais enquanto supunham que nós, garotos perdidos do Brooklin, que nem tínhamos namoradas, servíamos apenas de bucha de canhão a babar na platéia embevecida. Afinal, Joey, como fomos parar nesse show do George Harrison e, pior, o que eu estou fazendo agora, pensando se vale a pena ir para esse paiseco asiático procurar algo que parece que perdi entre a adolescência e a vida adulta?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115522587728228166?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115522587728228166/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115522587728228166' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115522587728228166'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115522587728228166'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/o-que-aconteceu-com-gente-joey.html' title='O que aconteceu com a gente, Joey?'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115470695294272840</id><published>2006-08-04T12:55:00.000-03:00</published><updated>2006-08-04T12:55:53.233-03:00</updated><title type='text'>Quem somos nós?</title><content type='html'>Assisti ao filme. Uma cópia passada por Kendi. Há falhas, há superficialidades, há tantas objeções possíveis que nem vale  apena começar. Melhor ficar na grande qualidade. A vida se faz das possibilidades que escolhemos. &lt;br /&gt;Sartre estava certo ao ditar que sempre fazemos a melhor escolha para o momento em que vivemos. Então qual o motivo do medo do arrependimento futuro? Isso é herança judaico-cristã?&lt;br /&gt;Camus disse que o suicídio é a única questão que realmente importa. Nela extinguem-se todas as possibilidades. Se for o medo que nos impede de mudar, melhor seria o suicídio pois, nele, está a verdadeira imobilidade da consciência. &lt;br /&gt;“Se Deus não existe, tudo é permitido”, frase que não dá pra levar a sério pois foi dita por um estudante, Raskólnikov (mas vamos dar o crédito a Dostoievski e crer que teve momentos de lucidez, distante da vodka e da roleta). Tudo é permitido. Antes do presente somos basicamente possibilidades. Tudo é permitido se deus não existe.&lt;br /&gt;Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma (lembram-se?). Panta rei - tudo se move - dizia Heráclito, aquele bastardo imprestável.&lt;br /&gt;O homem age por medo do castigo ou na esperança do prêmio (ou quase isso). E se for assim, do que temos medo? Por que não viramos a mesa e tomamos outro destino que não seja a repetição do dia anterior e do anterior, em uma segurança besta de refazendo o já feito tenho certeza do resulta, ou seja, mais um dia de modorra. &lt;br /&gt;Conhece-te a ti mesmo, dizia Sócrates, aquele pederesta, e não Conhce a todos que te cercam inclusive a si mesmo. Quem sou eu, é a resposta que surge em qualquer meditação feita com seriedade. Os pensamentos e sensações que te percorrem respondem à essa pergunta, mesmo que d emodo caótico. Sou possibilidades sem causa ou efeito, apenas possibilidades que, atualizadas, desfazem-se imeditamente na memória e ajudam a construir o que posso chamar realmente de eu, este amontoado de misérias e constipações, incapaz de revirar a pele do porórpio corpo e deixar expostas as vísceras e os pecados.&lt;br /&gt;É inverno, uma boa desculpa para me esconder sob agasalhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115470695294272840?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115470695294272840/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115470695294272840' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115470695294272840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115470695294272840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/quem-somos-ns.html' title='Quem somos nós?'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115470588062752253</id><published>2006-08-04T12:35:00.000-03:00</published><updated>2006-08-04T12:38:03.166-03:00</updated><title type='text'>frase do dia</title><content type='html'>1.&lt;br /&gt;Tua mente viaja do passado ao futuro e teu corpo acredita e sofre com isso, ou se satisfaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;Tua mente ofende e agrada a terceiros, e teu corpo acredita e sofre e se agrada como se o agrado e a ofensa fossem pra si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;Afinal, será que o Karma é uma idéia tão absurda assim?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115470588062752253?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115470588062752253/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115470588062752253' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115470588062752253'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115470588062752253'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/frase-do-dia.html' title='frase do dia'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115463862905253666</id><published>2006-08-03T17:44:00.000-03:00</published><updated>2006-08-03T17:57:09.260-03:00</updated><title type='text'>Vanhoni e suas similaridades com o Senhor dos Anéis</title><content type='html'>Quem é Vanhoni? Para aqueles que não sabem, quase ganhou a eleição para prefeito de Curitiba alguns anos atrás mas, dizem as muitas línguas rasteiras que se acobertam sob palavreados tortuosos, entregou a corrida na reta final por medo da cobrança de uma divida de honra e cifrões. O que ele tem a ver com o Senhor dos Anéis? Além da expressão "eu sempre me frodo?". Bem, pra começar ele parece viver em um mundo mágico, no qual as expectativas de realização pessoal passam pela salvação da terra média. Pena que Curitiba e o Paraná estejam tão distantes do condado de Tolkien. &lt;br /&gt;De todos os aspectos de Vanhoni, o que mais o assemelha à epopéia de trolls, elfos, humanos, hobbits, é a busca do anel, do cálice sagrado, da princesa adormecida, da titularidade de um mandato. Sendo que nessa trajetória de lutas e galhardias, é preciso matar um ogro por dia, conquistar uma raça por aventura, aliciar um poder de cada vez e, mesmo sentindo-se perdido e sem possibilidades, continuar até receber os louvores de todos. O interessante é que, na eleição pra prefeito, como Frodo, Vanhoni entregou o anel às chamas no momento final. Tenho certeza que por um motivo nobre, porém, as massas ignaras duvido que sejam capazes de ler essa entrelinha. Para as gentes sem educação e valores definidos pela nobreza de caráter, a entrega da eleição pareceu covardia e atestado de incapacidade. E agora, quando Vanhoni se prepara para avançar mar adentro, indo às terras do ocidente, onde corre ouro nos rios (ah, planalto central, onde tantos acreditam estar o Valhala brasileiro, Brasília onde deveria prosperar o pau-brasil mas que, ironicamente, este nunca graçou), agora que saltaria de um círculo de baixa energia e como eletro reacendido pela energia das urnas viveria em uma escala superior, agora que... tudo parece perdido. Gado sem pastor que confunde Vanhoni não com o caloroso lobo mas com o chacal carniceiro, ao invés de investi-lo com a armadura da confiança o brada de triste e desde já derrotado bruxa do norte (aquela do país de oz), que à primeira chuva se desfaz pois é feita de sal, estéril e esterilizando apesar de essencial para a sobrevivência do organismo político.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115463862905253666?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115463862905253666/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115463862905253666' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115463862905253666'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115463862905253666'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/vanhoni-e-suas-similaridades-com-o.html' title='Vanhoni e suas similaridades com o Senhor dos Anéis'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115463776581029753</id><published>2006-08-03T17:34:00.000-03:00</published><updated>2006-08-03T17:42:46.196-03:00</updated><title type='text'>O homem da mala</title><content type='html'>O homem da mala é que carrega o dinheiro e faz os pagamentos, em cash, evitando contra-tempos como recibos, contas bancárias, documentos e instituições capazes de arruinar uma vitória justa e correta nas urnas. Não, ele não é o homem da mala grande, cujo grande representante foi mister John Holmes (quem não conhece, que procure na web). Você gostaria de ter seu homem da mala particular? Aconselho que antes de perscrutar seus amigos e correligionários, procure descobrir em quantas anda a taxa de resíduo financeiro a qual você, Polaquinho, tem acesso e com o qual pode contar. Nesse caso, pode ser contribuição daquela grande empresa que, futuramente, irá cobrar em favores o que no momento te adianta a fundo perdido; talvez aquele bicheiro, ou outro contraventor tão marginalizado, que só te diz que a vida é dura e que pretende te ajudar sem esperar retorno pois sabe que você é como ele, um marginalizado, saca?; talvez aquele dinheiro sonegado do imposto de renda (benzadeus); ou qualquer pessoa que possa descarregar valores consideráveis (diria que a partir de dez mil reais está valendo) em sua campanha e que, mais tarde, quando você der mostras o quão profunda e valorosa é sua amizade, ninguém rastreie e incrimine (evohé justiça surda, cega, muda e penitente de uma gonorréia pútrida). &lt;br /&gt;Uma vez tendo o principal, encontrar um bom homem da mala dia mais respeito a qualidade que a maioria dos advogados e contadores possuem. Mais simples, impossível.&lt;br /&gt;Outra hora falo como arranjar um bom suplente e quais qualidades são cabíveis a tão importante personagem (Waldemar, sua lagartixa de ar rarefeito, se tivesse me perguntado a respeito te diria algo mais interessante que Rita Cadilac ouve nos presídios).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115463776581029753?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115463776581029753/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115463776581029753' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115463776581029753'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115463776581029753'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/o-homem-da-mala.html' title='O homem da mala'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115462767224462941</id><published>2006-08-03T14:45:00.000-03:00</published><updated>2006-08-03T14:54:32.440-03:00</updated><title type='text'>Estratégia de campanha eleitoral: rumo à vitória 3</title><content type='html'>Deputados, contra vocês existe a língua. De putados já infere o conceito de que vendem o que é mais importante (não, não falo de sexo e amor). Pensando deste modo, elaborar um bom perfil e uma boa figura é o que interessa. Ninguém vai ouvir e querer saber qual a sua plataforma, sua estratégia, quais são seus interesses. O bom deputado tem família, tem amigos, tem uma estampa que exala saúde e confiabilidade. O bom deputado veste-se dignamente, sem ser pernóstico. O bom candidato a deputado, mais que tudo, é a toda prova alguém que você conversaria na fila do caixa, no ponto de ônibus, tomando um cafezinho, e falaria da vida sem compromisso e pediria opiniões sobre o que é certo e errado. O bom deputado aparenta preparo e sucesso pessoal e profissional, e mesmo assim não se deixou levar pelos seguidores de Baal, o corruptor financeiro.&lt;br /&gt;Mas nada adianta se ninguém vir a figura de tão excelente pessoa. Candidatos a deputados, invistam na própria imagem. Comprem roupas boas mas que não pareçam caras em demasia. Visitem um bom salão de beleza e tratem da estampa, e peçam ao gerente do estabelecimento que vocês precisam parecer não um noivo no altar, mas o pai orgulhoso da noiva, ou mesmo o digno irmão. Alguém importante, mas não tanto que ofusque o astro do evento.&lt;br /&gt;Candidatos, gastem colocando sua imagem na rua.&lt;br /&gt;Candidato, caso você não tenha uma boa imagem, coloque a de seus familiares dizendo quem você é (melhor que sejam sinceros, caso não, que mintam acreditando que você um dia será assim como sonham).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115462767224462941?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115462767224462941/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115462767224462941' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115462767224462941'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115462767224462941'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/estratgia-de-campanha-elei_115462767224462941.html' title='Estratégia de campanha eleitoral: rumo à vitória 3'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115462710022977853</id><published>2006-08-03T14:36:00.000-03:00</published><updated>2006-08-03T14:45:00.380-03:00</updated><title type='text'>Estratégia de campanha eleitoral: rumo à vitória 2</title><content type='html'>Falar de campanha pra governador é fácil, no final das contas. Uma boa idéia e bons executores fazem o trampo e, se o candidato tiver uma boa cara e for bom intérprete, tudo está resolvido. Mas e pra senador? É um cargo importante, que no geral os eleitores não dão a devida importância. E ai está o calcanhar de aquiles. É mais fácil e barato eleger um senador do que um deputado. Menos concorrentes e um bom espaço no horário político eleitoral na TV. &lt;br /&gt;Querem uma boa idéia? Heheheh, Polaquinho, tua via consumista e aproveitadora se iguala a todos os viventes bípedes e descendentes de Adão (mas lembre-se da sapiência judaica: filho da raça apenas os filhos da mãe!). &lt;br /&gt;A família ouve o telejornal, no qual se anuncia o cenário político econômico. O que temos são os descalabros atuais. A família assustada clama ao patriarca e à matriarca que responda ao dilema e os conforte. O pai e a mãe diz que tudo está bem, que estamos em boas mãos. Ao sai de casa, pai e mãe olham para cima e vêm a própria casa sustentada por finas estacas e velhos de terno e gravatas, distraídos com ofertas de dinheiro.&lt;br /&gt;Obviamente é uma campanha para quem não está dentro da baderna política brasiliana. É um conceito que pode ser trabalhado em várias instâncias, até mesmo para governador e presidente. Mas o fato claro e mais bacana da idéia é construir a partir dela um candidato construtor, um candidato engenheiro (quse um maçon, seu Ostin), capaz de reformar as bases da construção, da casa da família. Certo que pra isso é preciso tempo de TV, o que o candidato a senador tem e o candidato e deputado carece.&lt;br /&gt;Outra hora falo de campanhas pra deputado e como a candidatura a vereador é a campanha mais cara de todas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115462710022977853?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115462710022977853/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115462710022977853' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115462710022977853'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115462710022977853'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/estratgia-de-campanha-eleitoral-rumo_03.html' title='Estratégia de campanha eleitoral: rumo à vitória 2'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115462656587159593</id><published>2006-08-03T14:20:00.000-03:00</published><updated>2006-08-09T14:47:43.686-03:00</updated><title type='text'>Estratégia de campanha eleitoral: rumo à vitória</title><content type='html'>Vamos tomar um caso para exemplificar: Roberto Requião. O homem é conhecido pela truculência no discurso. Fala sorrindo e suave os maiores absurdos. Para resumir: não leva desaforo pra casa (e muitos dizem que não leva os desaforos de casa pra rua). Como levar o velho Requião, com todas as suas qualidades e defeitos, para um segundo mandato? Ou, como impedi-lo?&lt;br /&gt;Primeiro, Polaquinho, vou desenhar o cenário: Guerra no Oriente Médio; crise do petróleo se avizinhando; juros altos na comunidade europeia; MST; corrupção no Congresso (nem vou citar todos os casos para não cansar a você e a mim); seca; terremotos, maremotos; falta de água, excesso de chuva; e por aí vai. Neste mundo turbulento e imprevisível, estando você em um navio, o que você prefere? Um capitão (evohé Walt Whitman e Álvaro de Campos) capaz de decidir na hora que rumo tomar, como agir, ou um indeciso que fica fazendo pose de bonzinho (digamos Osmar Dias) e no final das contas jamais esteve cara a cara com o cargo principal, responsável pela popa e pela proa e por milhões de vidas?&lt;br /&gt;Agora, digamos que o navio está no mar, ou o avião no céu, e a turbulência não apenas se avizinha, mas já toma conta do céu como o grande dragão bíblico. Durante metade da viagem fomos conduzidos pelo déspota esclarecido (inclusive os cabelos) e, como todos respiramos, cá vamos nós avante; qual de nós pode repetir, sem um frio na espinha, que se sente coagido a seguir este rumo? Qual de nós não se sente constrangido, inferiorizado nesta condição de ovelha de rebanho, boi no pasto? E mesmo assim estamos indo adiante (no fundo as pessoas gostam de ser conduzidas, de se sentir seguras na mão do pastor, mesmo sendo ele Moisés tirano). &lt;br /&gt;A idéia de mostrar Roberto como um capitão de navio em tempo de trovoadas é do Jamil Snege. Campanha que ninguém aceitou fazer sabeseláporque. É uma boa idéia que, bem executada, levará o nosso grisalho Huno esclarecido a nos conduzir até o final da jornada (estamos no meio do oceano, lembre-se, Polaquinho). E, pra falar a verdade, bem adaptada, serve pra qualquer um.&lt;br /&gt;Outra hora falo sobre como deter a invasão bárbara (evohé Ernani).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115462656587159593?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115462656587159593/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115462656587159593' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115462656587159593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115462656587159593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/estratgia-de-campanha-eleitoral-rumo.html' title='Estratégia de campanha eleitoral: rumo à vitória'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115462545588903319</id><published>2006-08-03T14:10:00.000-03:00</published><updated>2006-08-03T14:17:40.583-03:00</updated><title type='text'>O mito da impotência masculina em aforismas</title><content type='html'>1. &lt;br /&gt;O Amor é invenção literária para vender livros para mulheres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. &lt;br /&gt;Quando a indústria gráfica surgiu (evohe Guttemberg), tornou-se necessário expandir o mercado consumidor: por que não as mulheres?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;O que as mulheres querem além de outro motivo pra viver suas vidas medonhas (NAQUELA ÉPOCA), acrentes de o fazem, como fazem, em função de um valor maior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4.&lt;br /&gt;O amor já existia como conceito (evohé gregos onanistas e pederastas), e até se cultivavaem cortes e casas de famílias cultas, porém passou a valer como réplica vulgar ao amor divino desde que a pena tocou o papel e o tipo prensou a folha e definiu em cores permanentes que todos (mulheres) a ele tinham direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5.&lt;br /&gt;Bom para as mulheres, a princípio bom para os homens - que mais tarde se tocaram da besteira que haviam cometido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6.&lt;br /&gt;Amor e sexo - mulher e homem -, nestes dias de revistas Nova, Vip, Playboy, TPM, Caras, nas quais se celebra o amor e o sexo como contrapartes do mesmo envolvimento, quem iria acreditar que o primeiro grande affair se deu entre o cinzel e a pedra, entre a pena e o papiro, entre o estúpido e arrogante macho que acreditou realmente estar salvando a indústria gráfica sem se perceber como o destruidor de toda e qualquer potência masculina restante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115462545588903319?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115462545588903319/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115462545588903319' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115462545588903319'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115462545588903319'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/o-mito-da-impotncia-masculina-em.html' title='O mito da impotência masculina em aforismas'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115444376247991159</id><published>2006-08-01T11:39:00.000-03:00</published><updated>2006-08-01T11:49:22.950-03:00</updated><title type='text'>O mito da impotência masculina 17</title><content type='html'>Já discuti o processo histórico e, como todos concordam, foi conclusivo. A partir daqui, abandono a dialética marxista (além de estar fora de moda é um saco aguentar as críticas dos órfãos lininistas de plantão)e passo a utilizar um método menos - digamos, - materialista histórico. No decorrer dos dias, e com os muitos contatos que me são feitos tratando da questão, etre as tantas ameaças e desfeitas, uma me chamou a atenção. Meu caro amigo Lindolfo (vamos chamá-lo assim para evitar constrangimentos) secretou-me que, ao denunciar a mentira que durante milênios nós, homens de fato e de contra-cheque assinado, acabamos caindo em uma valeta sem fundo Nunca mais vamos poder aliviar a carga em casa Lindolfo me disse entretranspirações e tiques nervosos. Minha mulher está com essa mania de mexer nos meus e-mails, agora, agora que ela sabe de tudo, além de mexer nos meus e-mails também verifica meu celular, olha meu extrato bancário e, acredite ou não, botou um detetive pra me seguir. Perguntei qual o motivo dele tolerar tamanhas invasões Eu já não estou mais a fim de encrencam você sabe que meus dias de pular a cerca acabaram e o qu eu quero é sossego já dizia o mestre Tim Maia, campeão de ser corneado até pelo próprio sobrinho Ed Motta. Pois bem, os caros leitores deverãoe star se perguntando, o que isso tem a ver. O que isso tem a ver é que me arrependo amargamente de tudo o que disse e, como expliquei nas primeiras linhas, mudo de características e assumo a cristandade da qual sou herdeiro. Essa sociedade que muito nos sacode a poeira e manda pular miúdo por causa de obrigações sociais ligaas não apenas ao sexo, mas a todos os envolvimentos de tempo e espaço. Vejamos, pois, diria Manoel, o padeiro de minha esquina: no meu último suspiro, nenhuma mulher poiderá me devolver o tempo perdido em adulações e cavalheirismos, em jantares e passeios, leituras e suspiros, todos aqueles momentos em que, corcordamos nós, homens de classe e de carteira assinada, deveriam ser gastos em funções de melhor retorno. Desculpem, a patro me chama, depois listo quais as funçoes de melhor retorno. Àqueles que me criticam, digo: s'eu lavo não cozinho/ s'eu cozinho não lavo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115444376247991159?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115444376247991159/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115444376247991159' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115444376247991159'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115444376247991159'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/08/o-mito-da-impotncia-masculina-17.html' title='O mito da impotência masculina 17'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115342127772417670</id><published>2006-07-20T15:46:00.000-03:00</published><updated>2006-07-20T15:47:57.960-03:00</updated><title type='text'>frase</title><content type='html'>1.&lt;br /&gt;Se as mulheres soubessem o que realmente é divertido na vida, seriam homens.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115342127772417670?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115342127772417670/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115342127772417670' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115342127772417670'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115342127772417670'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/07/frase.html' title='frase'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115250160518663308</id><published>2006-07-10T00:19:00.000-03:00</published><updated>2006-07-30T01:06:09.086-03:00</updated><title type='text'>COMO VENCER UMA ELEIÇÃO EM TRÊS FASES</title><content type='html'>O que vou fazer aqui é dar uma fórmula simples para que você, excelentíssimo candidato, alcance as hostes celestiais, os píncaros do poder, o grande nirvana, o reino de Baal – aquele que corrompe  idolatra o dinheiro e o poder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Você vai mesmo fazer isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certamente que sim, Polaquinho, meu amigo. E mais, além de definir em palavras a fórmula mágica da vitória, vou abrir espaço para responder todas as perguntas que a  mim forem dirigidas através do rico e laborioso espaço chamado redação de jornal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- E porque você vai fazer isso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oras, Polaquinho, amigo de todas as horas. São muitos os que procuram as benesses do poder público e poucos os que a alcançam. Assim como para o infiel, é mais fácil um camelo passar por um buraco de agulha do que um qualquer ser leito vereador. Como você e todos os demais leitores sabem, a eleição mais difícil é de vereador. A quantidade de candidatos por vaga torna quase que inviável um pobre coitado conseguir fazer o número de votos necessários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Me ocorreu uma coisa. S sua fórmula é realmente certa, todos eu a lerem e usarem deveriam ser eleitos. E isso é impossível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito bem pensado, meu caro Polaquinho. Realmente é assim. Se as fórmulas de auto-ajuda fossem perfeitas, não haveria infelicidade no mundo e as palavras de Cristo e Buda e Maomé seriam esquecidas como as folhas espargidas ao vento do outono. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(convenhamos, há momentos em que minha poesia ultrapassa os limites da prosa e me fazem crer que eu deveria ser considerado mais que um simples cronista de jornal e um arauto da boa fé)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não entendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nem tente entender, meu caro amigo de pele clara e cabelos feito trigo maduro. Certas palavras foram feitas para serem mistério. O que não pode ser dito da minha impagável fórmula de sucesso para o candidato promissor. Digo promissor pois apenas aqueles que têm qualidades podem alardear ao mundo suas futuras conquistas. E é aqui que começa o meu triálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(se fossem dez conceitos, seria decálogo. Sendo tr~es, é um triálogo. Concorda, seu Paschoale?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descubra quais são suas qualidades. E quando digo qualidades, quero dizer todas, sem exceção. Mesmo aquilo que você considera bobo. Enumere-as e as leia em voz alta. Caso você fique impressionado, está ótimo. Senão, é preciso começar a pensar no segundo passo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Podia explicar melhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro, ser de tez manchada pela lua. Veja o que você tem de bom. O que você faz bem e o que fez direito. Por exemplo: você sabe contar piadas; você largou de fumar; assistiu a todos os jogos da seleção desde que seu pai comprou televisão. E por aí vai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Isso parece meio sem sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alma que viva parece morta, não seja assim. Vou explicar melhor. Conhecendo suas qualidades, você não vai saber apenas o que dizer para aqueles que pensam em votar em você ou em outro. Conhecendo suas qualidades, você vai saber que assuntos pode tocar. Por exemplo: se você assistiu todos os jogos do Brasil, pode puxar este assunto com qualquer pessoas com a certeza de que vai se dar bem. E quando terminar a fala, a pessoa vai ficar impressionada com sua capacidade e, quem sabe, vota em você supondo que uma pessoa que sabe tanto da seleção brasileira, deve saber tanto ou mais de outros assuntos, inclusive assuntos relevantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faz sentido. Diz mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Digo, claro, mas uma próxima vez. Agora o espaço acabou e eu também estou meio acabado. Na semana que vem tem mais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115250160518663308?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115250160518663308/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115250160518663308' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250160518663308'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250160518663308'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/07/como-vencer-uma-eleio-em-trs-fases.html' title='COMO VENCER UMA ELEIÇÃO EM TRÊS FASES'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115250156017457674</id><published>2006-07-10T00:18:00.000-03:00</published><updated>2006-07-10T00:19:20.300-03:00</updated><title type='text'>HISTÓRIAS, ENREDOS E UMA METÁFORA DE VIOLÊNCIA</title><content type='html'>Cláudia me pareceu um pouco barriguda, mas, por educação, não comentei a respeito. Sei como esse assunto é delicado para as mulheres. Enquanto ela volta correndo para o banheiro, de onde a tirei do meio do banho, sento no sofá, ao lado de alguns livros sobre relações internacionais. Folheio um deles sem me interessar por continuar. Levanto e confiro os CDs que da estante. Me detenho em uma coletânea de rock milanês da década de 1960. Abro o encarte e leio rapidamente extraindo o que meu parco italiano permite. Devolvo ao lugar de origem e pego um livro de Dario Fo, ator, diretor, escritor laureado com o Nobel. Um ator cômico ganhar o Nobel sempre me pareceu algo, no mínimo, curioso.&lt;br /&gt;Pela janela, vejo o Centro Cívico iluminado. Um grupo de garotos joga basquete na quadra vizinha ao prédio em que estou. Eles correm, gritam, parecendo se divertir apesar do frio. Um deles, mais alto e magro, naturalmente se destaca. Por ser talentoso, sofre com as pancadas, camas-de-gato, e outros artifícios usados para deter suas qualidades naturais. Simpatizo com o menino. Apesar da violência, não parece incomodado; pelo contrário, conformado a sofrer pelos seus méritos, ele levanta e volta correndo para sua área de defesa a tempo de efetuar o toco. Seus companheiros, os mesmos que, momentos antes eram seus agressores, correm abraçá-lo, confraternizando a grande jogada. Ele sorri uma felicidade exultante, que transborda ainda mais com o jogo retomado e seu talento livre. &lt;br /&gt;- Você precisa se dedicar mais aos roteiros, Cláudia me diz terminando de secar os cabelos. No Brasil, não tem mais de três pessoas escrevendo bons roteiros de filmes. É quase um monopólio. Eles estão ganhando bem por disso. &lt;br /&gt;Tiro do bolso um pequeno embrulho&lt;br /&gt;(- Um presente.) &lt;br /&gt;e coloco sobre a mesa da ante-sala. Cláudia sorri e o abre. &lt;br /&gt;- Nossa, um sapo?&lt;br /&gt;- É para dar sorte. A explicação está nesse papel que acompanha.&lt;br /&gt;Na cozinha, enquanto esperamos que o café fique pronto, pergunto o que tem feito. Ela me conta de suas viagens, do emprego novo de seu marido, de sua mãe que sabe conciliar trabalho e diversão&lt;br /&gt;- mas continua uma maluca. Imagina ela na praia, indo de um lado para o outro, conversando com todo mundo. Só falta arranjar um namorado.&lt;br /&gt;Pego a xícara com a mão direita e, com a esquerda, seguro o pires. Bebo devagar para não queimar a língua. Gosto do sabor forte e amargo.&lt;br /&gt;- Assistiu ao Circo Imperial da China?, eu pergunto.&lt;br /&gt;- Não. Estava em São Paulo. Vou me mudar para lá no final do mês.&lt;br /&gt;Ela troca os Cds. Põe a trilha do filme Betty Blue, de Luc Besson. &lt;br /&gt;- Hoje em dia, fazer roteiros dá mais dinheiro que fazer teatro. Por isso tem muito dramaturgo de talento fazendo bico na televisão, ou mesmo no cinema. Mas ainda faltam especialistas.&lt;br /&gt;- Do jeito que a coisa anda, escrever está ficando fora de moda. O que se faz é dramaturgia a partir de improvisações. Pelo menos no teatro.&lt;br /&gt;Cláudia liga o computador. Demora um pouco até localizar o trecho de sua monografia, que ela quer que eu leia. Enquanto isso, continuamos com o assunto.&lt;br /&gt;- O que falta, em todas as áreas, são bons autores. As últimas peças que eu assisti parecem estar com distúrbio de personalidade. Você sai do teatro sem saber se  assistiu a um espetáculo de dança, de teatro, ou, sei lá, uma performance. &lt;br /&gt;- Se bem que isso não é problema, é?&lt;br /&gt;- Não quando falamos de forma. Se o diretor domina a dramaturgia, essa maneiraa de trabalhar costuma dar certo. A dificuldade começa quando vira Vaudeville. Sabe, um monte de sketches sem encadeamento. Unidos apenas por serem os mesmos atores em cena. &lt;br /&gt;- É bem por isso que é difícil achar um bom roteiro. Os caras não conseguem escrevem o texto de um longa. São sempre três, quatro curtas. Parece que as idéias terminam e, para dar o tempo, juntam histórias que não têm a ver. Falta capacidade de discutir idéias com profundidade sobre o pano de fundo de uma história. &lt;br /&gt;Nelson finalmente chega. Trazendo sob o braço os esboços pedidos, não aceita uma cadeira para sentar. Após ter ficado o dia inteiro trancado no escritório de design, recusa-se a continuar frente a uma tela de computador. &lt;br /&gt;- Quem está com fome?, ele pergunta. Que tal a gente sair e comer alguma coisa?&lt;br /&gt;Feitos os pedidos, discutimos rapidamente um projeto de livro de mesa, algo dedicado às etnias que compõem a sociedade curitibana. Paramos quando um conhecido de Cláudia chega até nossa mesa. Ator de novelas, pergunta quando estréia o curta metragem. &lt;br /&gt;- Em julho, ela sorri, gentil. O rapaz, afeminado e simpático, gasta muitos beijos antes de se afastar. Falando nisso, falou com o Jamil Snege?, ela dirige-se a mim.&lt;br /&gt;Digo que sim, mas completo que não tenho uma posição exata. Um filme baseado em um dos seus livros? Ou um roteiro escrito por ele? Vai depender de sua disponibilidade de ânimo. Na última conversa, tudo o que discutimos foi a impressionante marca de quinze amigos tomados por crises de depressão. Um recorde, mesmo na entrada do inverno.&lt;br /&gt;- Acho que criadores ficam na pior porque existe um enorme preconceito contra quem tem talento e inteligência. Ficam o tempo todo tomando pau, sendo rebaixados, vendo gente sem qualidade conseguindo os melhores salários, os melhores cargos, recebendo  louros por trabalhos medíocres. &lt;br /&gt;- A ignorância é uma grande merda, Nelson completa. Não lembro em que gibi eu li mas “eles não podem saber que gigantes caminham sobre a terra”.&lt;br /&gt;Eu não digo nada. Só consigo lembrar do menino alto que, durante o jogo de basquete, sacrifica seu corpo em nome da glória de ser festejado pelos amigos após uma bela jogada.&lt;br /&gt;Na hora da partida, Nelson toma um táxi e Cláudia me dá uma carona até em casa. Antes que eu desça do carro, ela me conta a novidade. &lt;br /&gt;- Você notou minha barriga? Estou grávida.&lt;br /&gt;Dou um grande abraço em minha amiga e repito aqueles clichês de felicitações.&lt;br /&gt;Subindo de elevador, penso que poderia ter feito uma piada relacionando criação e tomar porrada. Mas fiz bem em ficar quieto. Seria de muito mal gosto. &lt;br /&gt;Estou ficando velho&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115250156017457674?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115250156017457674/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115250156017457674' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250156017457674'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250156017457674'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/07/histrias-enredos-e-uma-metfora-de.html' title='HISTÓRIAS, ENREDOS E UMA METÁFORA DE VIOLÊNCIA'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115250147512004216</id><published>2006-07-10T00:17:00.000-03:00</published><updated>2006-07-10T00:17:58.263-03:00</updated><title type='text'>BAAL E OS SUPERMERCADOS E SHOPPING-CENTERS</title><content type='html'>Existem ilhas de abandono, que fazem com que a vida siga adiante sem que estejamos limitados às catástrofes cotidianas: supermercados e shoppings. &lt;br /&gt;- Como assim?&lt;br /&gt;É o fim o mito da segurança do lar. Nunca mais “lar doce lar”. O abrigo último, a redenção do homem contemporâneo, a chaga de Cristo que redime todos os pecados, a igreja do fim dos tempos são os templos do consumismo. &lt;br /&gt;- Não seja melodramático.&lt;br /&gt;- É, não seja melodramático. Eu gosto de supermercados e Shoppings. Principalmente os bem iluminados. Aqueles em que a gente pode andar de olhos fechados e mesmo assim consegue ver tudo. Sabe que tudo está no lugar.&lt;br /&gt;São nesses grandes espaços, locais de concentração populacional no qual o mais pobre e o mais rico se encontram uniformizados em roupas de marcas como Ellus, Fórum, Lacoste, Rosachá, e por aí vai, que descobrimos a solução para o fatalismo cotidiano. Os sociólogos e psicólogos estão errados,&lt;br /&gt;(afinal de contas, não são as duas áreas a mesma, separadas apenas pela fina membrana fotossensível e clarões de flashes?)&lt;br /&gt;o desejo de comprar não é o desejo contra thanatos – o medo da morte freudiano - , pelo contrário, o desejo de comprar é o desejo de Eros – o amor. É como se entrando nas lojas, procurando o produto exato – aquele que não sabemos exatamente qual pois não temos tempo de acompanhar todas as propagandas – tenhamos o poder sobre o tempo. Aquele tempo que nos é roubado nas filas do cinema, nos congestionamentos, nas esperas telefônicas, no tédio do emprego burocrático. Comprar nos torna senhores de nós mesmos na parcela mais preciosa. &lt;br /&gt;- Eu não acho isso. Comprar é o desejo de diferenciar-se sem conseguir. &lt;br /&gt;- Eu concordo. É a tentativa estúpida de ser diferente tendo algo que outro não tem e que sabe que não tem pois não tem dinheiro para ter aquilo que somente alguns têm.&lt;br /&gt;- Ficou confuso.&lt;br /&gt;- Eu sei. Mas não deixa de ser verdade por isso.&lt;br /&gt;Na Idade Média, quando os primeiros burgos estavam se formando, quando os feudos prosperavam e o comércio dava os passos fundantes das grandes feiras. Quando os Cruzados perceberam que era bom ir para Jerusalém e no meio do caminho encontrar produtos que os lembrava do lar, nesses dias que hoje apelidamos de sombrios, naqueles dias já estava presente mais que apenas o germe da peste bubônica – a peste negra –  (se bem que não tenho certeza se é um germe que causa a peste, ou causou), ali já havia ao influência do grande deus Baal.&lt;br /&gt;(desde já é bom dizer que Baal não é apenas o deus pagão do dinheiro, da grana, do l’ argent. Não, Baal representa mais que isso. Baal é o deus da vida. Aquele que dá instrumentos para parcos ignorantes, que não usufruem do conhecimento das profundas filosofias, das altas ciências, permite que reles mortais condenados pelo destino desde já às chamas o inferno católico  a serem mais do que cacotes de um deus onipotente e onipresente e insatisfeito consigo mesmo a ponto de criar criaturas que se pensam. Baal dá aos homens a possibilidade de serem senhores de poder. Podem comprar algo que não entendem e... mas vamos deixar a conversa fruir sem parênteses)&lt;br /&gt;- Eu não sou católico e mesmo assim não gosto dessa louvação ao comércio. O dinheiro, o consumismo transforma homens em devoradores de homens. O lobo é  lobo do homem, quem disse isto?&lt;br /&gt;- Malthus. Ele também disse que o homem só age esperando benefícios ou por medo do castigo.&lt;br /&gt;- E isso acaba com qualquer gratuidade cristã.&lt;br /&gt;- Eu sou católico e cristão e não acho isso. Acho que o homem é bom por natureza.&lt;br /&gt;- Tão bom que canibais adoram o homem, principalmente o branco. Um velho canibal no Pará disse que se lembrava que carne de branco tem gosto de banana madura.&lt;br /&gt;- Então macacos são canibais?&lt;br /&gt;- Se você assistisse Discovery channel saberia que sim.&lt;br /&gt;- Que horror.&lt;br /&gt;Supermercados e Shoppings refugiam as pessoas. Hoje, desde bebês aprendemos essa grande lição. É um mundo dentro do mundo. Uma realidade dentro da realidade. Um cosmo dentro do cosmo, só que melhor, porque não foi obra de um Big Bang, ou de um Deus que se afastou de nossas vidas, mas algo construído segundo as necessidades humanas. Nossas necessidades.&lt;br /&gt;- Pra mim esse seu humanismo ateu é coisa e comunista. Coisa de gente démodé. Olha a marca da sua calça.&lt;br /&gt;- Comprei no Paraguai. Babaca!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115250147512004216?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115250147512004216/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115250147512004216' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250147512004216'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250147512004216'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/07/baal-e-os-supermercados-e-shopping.html' title='BAAL E OS SUPERMERCADOS E SHOPPING-CENTERS'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115250139206745003</id><published>2006-07-10T00:16:00.000-03:00</published><updated>2006-07-10T00:16:37.740-03:00</updated><title type='text'>A VIDA QUE CONTINUA</title><content type='html'>- Só há uma vida para se viver e nela que estou.&lt;br /&gt;Na parede do prédio uma pichação inscrita: Independência ou deixa pra lá.  Duas pequenas baratas dançam feito bêbadas agônicas entre lixo e poças de chuva. O velho deitado no canto, mais ao fundo, acende o cigarro e respira com dificuldade e pede que eu me aproxime. Seus olhos são cinza e ele me diz que um dia soube falar palavras ucraínas mas que hoje perdeu essa memória como também perdeu muitas outras de maior e menor importância. Em sua mão direita falta a ponta do dedo médio.&lt;br /&gt;- Nasci em 1916 e isso quer dizer que tenho 88 anos e que vi muita coisa.&lt;br /&gt;Respondo que sim e ele acena com o queixo que é verdade e pede que eu me aproxime e eu me recuso. Ainda assim ele continua sua fala, como se realmente não importasse qual fosse minha posição.&lt;br /&gt;- Nasci onde agora chamam de Bacacheri e casei e tive tr~es filhos, todos no mesmo lugar, na mesma casa e que já não existe mais porque a prefeitura decidiu construir uma estrada e minha casa estava no caminho.&lt;br /&gt;O casaco preto que veste tem um largo rasgo sob a axila esquerda e por ali dá para ver a mancha negra e dura formada pelo sangue ressecado. &lt;br /&gt;- Ainda é dia?&lt;br /&gt;Respondo que perto da hora do almoço e ele sorri.&lt;br /&gt;- Te contei que tenho 88 anos?&lt;br /&gt;Como não respondo ele toma como sim, ou talvez como não, não importando realmente, e traga uma vez mais o cigarro e pergunta se eu me importaria em ceder um dos meus a ele.&lt;br /&gt;- Eu não sei o que aconteceu com meus filhos. Depois que minha mulher foi embora e levou eles nunca mais tive notícias. Uma vez encontrei um homem na rua que me olhou de um jeito estranho e me pagou um sanduíche de mortadela e me fez várias perguntas e na hora de ir embora me deu um abraço apesar de eu já ser um mendigo  ele vestir-se como bancário. &lt;br /&gt;A travessa em que estamos faz esquina com a rua Riachuelo e poucos metros mais estão uma série de restaurantes. Em um deles eu devia almoçar e aliviar a fome que incomoda meu estômago. Vejo entrar no restaurante vegetariano Mikado um grupo d músicos da orquestra do Teatro Guairá e penso que talvez fosse melhor eu comer no restaurante ao lado, talvez massa ou quem sabe um bom prato de cozido espanhol.&lt;br /&gt;- O senhor acredita em Deus? Acha que ele está esperando a gente morrer para dar uma bela lição sobre como nossa vida foi miserável?&lt;br /&gt;Respondo que não penso no assunto e que não me incomoda a questão.&lt;br /&gt;- Quando eu tinha sua idade também pensava do mesmo jeito. Não, é mentira. Desde sempre eu me preocupei com o que seria de mim e se eu morresse no momento seguinte se minha vida teria valido a pena.&lt;br /&gt;Ele ri.&lt;br /&gt;- Agora tudo perde sentido, não é? &lt;br /&gt;Pergunto se ele se arrepende de ter vivido como viveu.&lt;br /&gt;- Só há uma vida para se viver e nela que estou.&lt;br /&gt;Concordo com  um pigarrear e enfio as mãos nos bolsos da calça e toco a chave da moto. Um casal de viados atravessa a rua de paralelepípedos assim como outras pessoas que ao ver o velho caído na calçada silenciam as palavras e as retomam penas metros distantes, como se não fosse mais possível serem ouvidas.&lt;br /&gt;- Se deus não existir, vai ser uma grande decepção.&lt;br /&gt;A cinza do cigarro acumula-se nas dobras do casaco. Uma barata escala as pernas frouxas do velho. Com um chute com a ponta de meus tênis a lanço para longe. O velho continua a falar como se não tivesse sentido o toque em sua perna e me explica que um dia a terra foi uma terra de homens e que hoje restam apenas sombras etéreas desses homens de outrora.&lt;br /&gt;- Não dá para dizer o que se perdeu ou o motivo. Talvez tenha sido a vida fácil. Antigamente comer era um luxo e hoje em dia até uma merda como eu têm comida farta. Ou quem sabe foi o destino da querência divina que decidiu que assim era melhor. Que  era chegado o momento do homem deixar de ser algo de valor e retornar ao barro pútrido e miserável de onde veio. Não sei, qualquer coisa pode ser verdade.&lt;br /&gt;Com leves toques acerto o velho até a altura das costelas quando ele pisca os olhos. Na esquina surge um carro do SIATE que estaciona bloqueando a rua. Dois homens descem e um atende o velho e outro me questiona. Confirmo que fui eu que chamei o serviço e que não tenho parentesco algum com o mendigo e após ser liberado, ao me despedir do velho, ele me promete contar a verdade mesmo que seja dolorosa.&lt;br /&gt;- Na próxima vez que a gente se encontrar, eu te falo. &lt;br /&gt;Ele sorri os dentes apodrecidos.&lt;br /&gt;- Mas pode ser que você já esteja sabendo, não é?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115250139206745003?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115250139206745003/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115250139206745003' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250139206745003'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250139206745003'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/07/vida-que-continua.html' title='A VIDA QUE CONTINUA'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115250135097955832</id><published>2006-07-10T00:15:00.000-03:00</published><updated>2006-07-10T00:15:51.170-03:00</updated><title type='text'>A POLÍTICA, ADÃO E O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM</title><content type='html'>Polaquinho, você acredita que vai conseguir realmente entender as lides políticas?  Não? Pois então sorria que vou te ajudar.  Por meio de metáforas fáceis e claras mostrarei a você que a política nada mais é que uma grande família em processo de expansão pelo mundo, um formigueiro, se quiser, abrindo ramificações nas quatro direções.&lt;br /&gt;- Putz, se não bastasse todos os jornais, agora ele também vai dar uma de analista político?&lt;br /&gt;- Vou pra cama dormir.&lt;br /&gt;- Sozinho? Flor-do-campo-caída-na-água-fria-do-inverno-desejosa-pelo-desabrochar?&lt;br /&gt;- Ehhhhh! Que viadagem é essa?&lt;br /&gt;- Abra-se sua mente, rapaz, e no caminho, aproveita pra abrir as pernas também.&lt;br /&gt;- Você está brincando cômico, não é?&lt;br /&gt;- A verdade em troca de um beijo.&lt;br /&gt;Digamos que Adão estivesse cansado da vida e, sem entender o que significa a solidão, olhasse para o alto e visse aquele enorme sol brilhando no céu, feito um buraco luminoso a defecar fezes luminosas.&lt;br /&gt;- Estamos teleológicos hoje, hein?&lt;br /&gt;- Hein? Búfalo-de-chifre-amarrado-ao arco-íris-ao-meiol-dia.&lt;br /&gt;Banhado por aquele esplendor todo – ainda sem saber o que seria o sentimento de vazio que o oprimia, &lt;br /&gt;(Adão, por conhecer o criador, sabia o que era a opressão, apesar de não se revoltar pois ainda não tinha companheiros para organizar uma grave, instrumento único, como todos sabem, para obrigar o patrão a fazer a vontade dos mais fracos).&lt;br /&gt;Adão abriu a boca e bocejou.&lt;br /&gt;- Ai que tédio!&lt;br /&gt;E já que não tinha com quem conversar, bateu no tronco da árvore ao lado.&lt;br /&gt;- E aí, o que anda acontecendo na sua vida, cara?&lt;br /&gt;A árvore, muito mal-educadamente, não respondeu. &lt;br /&gt;- Qual é, vai ficar ai parada, balançando ao vento, as folhas rubras de timidez por ter tão perto um homem pelado. Se solta!&lt;br /&gt;Mesmo assim a árvore nem deu sinal de simpatia.&lt;br /&gt;- Tudo bem, então.&lt;br /&gt;Adão levantou-se e pôs-se a caminhar. Naqueles campos imensos do paraíso é uma atividade que vai longe, literalmente. Porém, com os pés descalços, digamos que foi mais ou menos longe, 787 metros, para ser exato. E com um estrepe sob o dedão do pé direito, sentou-se na beira do rio e não chorou. Nem ao menos lamentou. O que aconteceu, foi algo inédito.&lt;br /&gt;(esta é a história boa de se escrever: tudo é inédito)&lt;br /&gt;Um instante antes de colocar o pé na água, Adão viu a si mesmo&lt;br /&gt;- E aí, simpático. Já te vi aqui antes?&lt;br /&gt;e abriu um sorriso tão largo que ofuscou as fezes solares. Esquecendo-se do ferimento no pé, Adão acomodou-se e ficou a falar e admirar o estranho.&lt;br /&gt;- Eu não sabia que o Patrão tinha colocado mais alguém aqui. Na verdade ele fala muito pouco comigo. É um vadio. Vive descansando. A última vez que vi o Malandro ele estava acabando um bocejo. E olha a desculpa besta pra má-educação. Falou que tinha me dado o sopro da vida. É muita cara-de-pau.&lt;br /&gt;Com tão boa companhia, as horas passaram depressa e a noite veio. Cansado pela longa caminhada, Adão adormeceu na fofa relva, como um esquilo aconchegado pelos pêlos fofos de sua cauda.&lt;br /&gt;- Que historinha besta. E ainda por cima falando do Gênesis.&lt;br /&gt;- Cadê o Phil Collins?&lt;br /&gt;- Do livro um da Bíblia, idiota.&lt;br /&gt;- Isso, me ofenda. Me chama de mouse e me aperta todo!&lt;br /&gt;Sentindo o primeiro estrume solar no rosto, Adão abriu os olhos fatigados. Entre as pernas uma estranha dor. Ao estender a mão e tocar, a rigidez o assustou. Olhou depressa e viu a pedra sobre a qual havia dormido. Mas não se importou. Antes de mais nada, voltou o rosto para a água do manso rio e viu seu amigo ali, com o mesmo sorriso de felicidade.&lt;br /&gt;- E ai, caladão? Como foi a experiência de dormir comigo? Foi bom pra você?&lt;br /&gt;Nesse momento, um raio abateu um coelho que passava por ali, sem nada a ver com a história e fez tremer a terra.&lt;br /&gt;- Não! Não se vá. Não me abandone, por favor, que sem você tudo vai ficar...&lt;br /&gt;E a voz tonitroante do patrão se fez ouvir.&lt;br /&gt;- Adão, o que você está fazendo?&lt;br /&gt;- Patrão, para onde meu amigo se foi? Ele me completava, me fazia inteiro, e agora eu me sinto tão solto na existência, sem sentido.&lt;br /&gt;- Meu eu. Adão, pára de viadagem. Não sou seu analista e nem quero ser.  Você não percebeu que era a sua imagem. Era você mesmo que você via refletido no rio?&lt;br /&gt;- O que eu vou fazer da vida sem ele?&lt;br /&gt;Como Adão não parava de se lamentar e chorar, o Homem arrancou duas costelas de Adão e fez a mulher.&lt;br /&gt;- Se você quer algo de você pra amar, Ai está. &lt;br /&gt;- E a política.&lt;br /&gt;- E meu beijo.&lt;br /&gt;Semana que vem entramos nos meandros poluídos da política e como acontecem os acordos escusos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115250135097955832?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115250135097955832/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115250135097955832' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250135097955832'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250135097955832'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/07/poltica-ado-e-o-primeiro-amor-de-um.html' title='A POLÍTICA, ADÃO E O PRIMEIRO AMOR DE UM HOMEM'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115250130697236429</id><published>2006-07-10T00:14:00.000-03:00</published><updated>2006-07-10T00:15:07.103-03:00</updated><title type='text'>A POLÍTICA E A VISÃO DE FUTURO E FREUD LEVANDO FUMO</title><content type='html'>Ostracismo. Na Grécia queria dizer ser banido de sua cidade-estado por dez anos. Atualmente, ostracismo é ser esquecido. Ficar distante. Algo que políticos detestam. Para estes, ostracismo é perder uma eleição. Não receber nas urnas a confirmação do poder de seus nomes. &lt;br /&gt;- E tem gente que se importa com isso?&lt;br /&gt;- Pra mim, ostracismo é quem tem preconceito contra ostras.&lt;br /&gt;Para os políticos que perderam a eleição, ou que irão perder, vou dar uma série de conselhos capazes de mantê-los em constante presença na mídia. &lt;br /&gt;- Pois eu vou te falar outras palavras de significado dúbio. Biscoito, por exemplo. &lt;br /&gt;- Coito duas vezes. Óbvio.&lt;br /&gt;- Então te pergunto, como ficou significando bolacha gordinha com um buraco no meio... deixa pra lá.&lt;br /&gt;O primeiro conselho é: Perdida a eleição, vá para casa tomar um bom banho, vista a melhor roupa e saia para algum lugar agitado, cheio de gente e animado. Mostre que está feliz e pouco se lixando para o que aconteceu. Povo e mídia detestam gente deprê. &lt;br /&gt;- Eu não concordo. Pra mim, a mídia gosta daquilo que acontece com gente famosa. Não importa se é bom ou ruim.&lt;br /&gt;- Nossa, gostei do raciocínio. Como disse Warhol: cada pessoa tem direito a quinze minutos de fama, e acrescento, à quantidade de escândalos que sua imaginação permitir.&lt;br /&gt;Segundo conselho: No dia seguinte, acorde cedo e vá para algum jornal conversar com algum jornalista amigo. De preferência um jornalista empregado. E tente não falar de seus planos futuros, mas conte, de passagem alguma fofoca de campanha. Algo bem capcioso, do tipo que sai em notas políticas.&lt;br /&gt;- Cara, se você for tão furreca que não conhece ninguém, vem tomar um café com o Alessandro. &lt;br /&gt;- É. E aproveita e trás um saco de biscoito para redação.&lt;br /&gt;Terceiro conselho: A noite, vá novamente na mesma casa noturna e divirta-se ao máximo. Na manhã seguinte, veja o jornal e telefone para seu amigo jornalista. Diga que não deviam ter publicado a informação. Que se descobrirem que foi você a coisa vai ficar feia.  E acrescente, e tons dramáticos, que um determinado crime que ocorreu na semana passada teve motivação política.&lt;br /&gt;- Eu gosto daquele biscoito goiabinha.&lt;br /&gt;- Sei. Do tipo que tem um buraco comprido e cheio daquela massa avermelhada. Freud diria que você tem uma certa fixação na fase anal. Ou pior, uma outra obsessão relacionando sexo e sangue. Hitler era assim. Já li que Rock Hudson também.&lt;br /&gt;Quarto conselho: Saia novamente, mas antes chame vários amigos, inclusive o jornalista. No meio da balada, vá ao banheiro e discretamente saia do local. Dê dois tiros para o alto e o terceiro acerte o pneu. Jogue a arma no bueiro.&lt;br /&gt;- Ele devia aconselhar o cara a usar luvas, ou apagar suas digitais.   &lt;br /&gt;- É verdade. Assistir filmes e seriados ajuda muito a elaborar um crime. &lt;br /&gt;- Freud teria algo a dizer a respeito.&lt;br /&gt;Quinto conselho: no dia seguinte, após terem saído as matérias, desminta toda a história. Diga que o crime não teve motivação política. Diga que a viagem que você vai fazer não tem nada a ver com a questão. Acenda um cigarro e quando o amigo jornalista perguntar se você voltou a fumar, diga que sim. Conte que na legacia aceitou um cigarro de um policial e isso desencadeou a volta do vício. Comece a chorar. &lt;br /&gt;- Este é o pior texto que ele escreve em anos.&lt;br /&gt;- Acho que poderia ser pior. Quer um biscoito?&lt;br /&gt;Sexto conselho: volte da viagem antes do previsto e chame os jornalista. Fale que se arrependeu de ter mentido. Diga que vai contar toda a verdade. Com as decidido, declare que a política é um mundo sujo e que não possível viver com medo. Descreva a paisagem do local onde estava e afirme peremptório que as pessoas que por lá conheceu foram gentis e amigas e que várias delas tiveram grandes tristezas em suas vida. Descreva as longas conversas que tiveram falando das perdas de entes amados, vítimas da violência urbana; dos desesperados que tudo perderam por acreditarem em estelionatários e advogados picaretas; repita várias vezes o nome da velha senhora que adoeceu de câncer e morreu na fila do SUS. Por fim, levante-se e conte que tentou se matar e no último momento ouviu uma voz. Não conte o que a voz falou, apenas deixe lágrimas escorrerem e saia da sala, em silêncio. &lt;br /&gt;- O biscoito estava ótimo. Agora, que tal um cigarrinho?&lt;br /&gt;- Ainda quer mais fumo?&lt;br /&gt;Sétimo conselho: dez minutos depois, retorne com os olhos vermelhos e se despeça. Revele que vai se tornar uma pessoa dedicada à deus e por meio dele pretende mudar o mundo. Diga qual a congregação e dê o endereço na qual irá pregar. Se tiver dificuldades, compre a licença de pastor de alguma boa franquia. Feito isso, daqui a quatro anos você estará garantido para vereador, e se o trabalho for bem feito, daqui a dois anos pode ser uma excelente contribuição à bancada evangélica.&lt;br /&gt;- Levar fumo?&lt;br /&gt;- Até mesmo Freud gostava. E eram uns baitas charutões.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115250130697236429?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115250130697236429/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115250130697236429' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250130697236429'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250130697236429'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/07/poltica-e-viso-de-futuro-e-freud.html' title='A POLÍTICA E A VISÃO DE FUTURO E FREUD LEVANDO FUMO'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115250125896476620</id><published>2006-07-10T00:13:00.000-03:00</published><updated>2006-07-10T00:14:19.063-03:00</updated><title type='text'>A DANÇA CONTEMPORÂNEA E OS SOL NOS OSSOS DE MINHA MÃE</title><content type='html'>Sombras de pequenas coisas, isso me impressionava desde criança. de minha baixa estatura, pequeno como uma mureta de supermercado, não entendia porque sombras de pequenas coisas podias ser grandes, maiores até, que aquelas dos grandes prédios. No correr de uma tarde (tempo em que olhar para o alto era uma constante e mesmo assim não via o sol) apanhava minha irmã negra, alongada feito o asfalto longe da janela de meu quarto, curta feito as solas de meus pés. Não entendia o que é refração, ponto de fuga, fóton, clarividência, lucidez, inteligência. Nunca entendi ao certo porque minha sombra podia ir mais longe que eu, apesar de suas pernas estarem sempre presas a mim, diminuto e insignificante, diuturnamente a sonhar com personagens da televisão e sofrendo a angustiante dor de querer crescer adulto no espaço de uma tarde para, no anoitecer, descansar no colo de minha mãe.&lt;br /&gt;- Mudamos novamente?&lt;br /&gt;- Deve ter sido a viagem a Porto Alegre. Esqueceu de escrever o texto da semana passada, corrido com as atribulações da mostra de dança do Cone Sul.&lt;br /&gt;- Eu gostei das uruguaias. O espetáculo delas, Trust me, foi um dos mais divertidos a que tive acesso nos últimos anos. Não dá pra entender como em Montevidéu, Uruguai, possa haver uma dança contemporânea vigorosa.&lt;br /&gt;Hoje minha mãe está morta e seu aniversário passou. Hoje estou longe de casa na mesma proporção que, sentado em casa, olho a tela do computador. Hoje estou sem sombra ou pesar pelas horas que não me dão mais a dor do crescimento lento – exceto o lateral, essa gordura na cintura que insiste em acumular-se, querendo ser eu. Na próxima viagem à Londrina preciso visitar seu túmulo. Ver se foi lavado, se colocaram os azulejos de modo correto, se há flores e incenso, se a velas não espalharam cera disforme por toda a terra e calçamento ao redor. Não sei se foi boa idéia escolherem estar junto ao muro alto. Não sei de muita coisa, e assim me reencontro com eu pequeno, junto ao muro dessa casa de mortos. Muro alto que faz sombra a mim e à minha mãe, para sempre oculta. &lt;br /&gt;- Você acha que as uruguaias fizeram sátira?&lt;br /&gt;- Não, pra mim aquilo foi mais uma representação da vida. Algo como a exacerbação de atitudes cotidianas. E os trejeitos consagrados de muitas coreografias também o são. Você sabe que a gente tem tanta atitude repetida em nosso cotidiano. A dança contemporânea devia mostrar como isso é estúpido. Ao apresentar gestos que não fazem parte e nosso dia a dia.&lt;br /&gt;- Ou denunciar, como as uruguaias.&lt;br /&gt;Sorrio lembrando que seus ossos sempre estiveram ocultos. Pelo menos até onde eu sei, nunca teve fraturas expostas. Sua carne sempre esteve protegendo-os. Pelo menos até agora, quando a putrefação fez seu trabalho e os vermes e bactérias transformaram sua veste macia em menos que pó, alimento. Quero estar presente quando forem retirar seus olhos. Provavelmente não irei leva-los para casa. Quero apenas vê-los tomar sol. Tocar e sentir que aquecem como agora me sinto aquecido recebo um reflexo seu através da janela.&lt;br /&gt;- Dança é política grande patê nesse sentido. A política é que faz com que aceitemos as imposições da sociedade, que dita que devemos aceitar que os trabalhos nos obriguem a viver em cubículos, a carregar pesos obscenos, a falar educadamente com quem nos agride, a sorrir enquanto a dor da tristeza e da saudade nos consome.&lt;br /&gt;- Queria poder dançar de forma livre para libertar meu corpo de todas essas amarras. Ma a impressão clara que eu tenho é que não consigo. Os meus movimentos vão ser todos uma repetição do que eu faço na prisão do dia a dia meu corpo está bem treinado demais.&lt;br /&gt;- Dança contemporânea é política e política de campo e de indivíduo. Como requer esforço dizer as verdades que se ocultam sob as palavras cotidianas, é preciso esforço para recuperar a claridade os gestos. Sem a obrigação de significar nada (uma poesia de palavras sem sentido que o recebem de quem lê), sem o compromisso de dar resultado. &lt;br /&gt;quando eu era pequeno eu nem sabia que tinha osso, e muito menos que lês podiam fazer sombra. Não desconfiava em nada que um dia pudesse ter nas mãos os ossos de minha mãe (algo mais grave que tem em mim meus ossos) ou que sentado à frente do computador me fosse fluído falar de tantas misérias e agonias e risos e de movimento. Sempre quis ser livre e nunca fui por méis que tentasse. Talvez tentei demais e isso me aprisionou.&lt;br /&gt;- Sempre quis ser livre, apesar de não saber o que é ser livre.&lt;br /&gt;- Isso me incomoda muito, mas não sei se o bastante para escapar dessa vida que me diz que preciso trabalhar, representar papéis repetidos, correr feito louco atrás de pequenos prazeres.&lt;br /&gt;- Arte não tem nada a ver com prazer.&lt;br /&gt;- Agor&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115250125896476620?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115250125896476620/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115250125896476620' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250125896476620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250125896476620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/07/dana-contempornea-e-os-sol-nos-ossos.html' title='A DANÇA CONTEMPORÂNEA E OS SOL NOS OSSOS DE MINHA MÃE'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115250117745643557</id><published>2006-07-10T00:10:00.000-03:00</published><updated>2006-07-10T00:12:57.766-03:00</updated><title type='text'>Mulheres</title><content type='html'>Maria e Joana estão sentadas na sacada do apartamento alimentando os passarinhos.&lt;br /&gt;- Se eu estivesse com fome mataria um desses passarinhos.&lt;br /&gt;- Duvido.&lt;br /&gt;- Matava sem piscar e comia cru! É exatamente como estou dizendo. Quando a necessidade aperta a garganta a gente toma atitudes que normalmente não tomaria. Matar passarinhos, fazer regime, transar com mulher feia...&lt;br /&gt;- Olha, sinceramente, você tem que parar com esses complexos. Você não é feia, é... fora de moda. Seu tipo não está na moda. Algum dia ele entra na moda e você passa a ser a mais gostosa do planeta.&lt;br /&gt;- Tá me chamando de miss Universo feiura?&lt;br /&gt;- Não, o caso é que não gosto que você fique se depreciando. Você é a pessoa mais legal que eu conheço. Pára com isso.&lt;br /&gt;- Não, não precisa me consolar. Eu sei que a vida é assim. Deus dá rabo para alguns abanarem moscas e às moscas dá cus sem rabos. Há uma lógica. Eu só não entendo porque eu tive que entrar com o cu.&lt;br /&gt;- Você é virgem?&lt;br /&gt;- Não, claro que não. A primeira vez transei com treze anos... a segunda eu não lembro. Mas aconteceu, tenho certeza. E você? Ainda brinca de almofada anatômica com aquele lindão da faculdade?&lt;br /&gt;- Ele me deu um pé na bunda.&lt;br /&gt;- Bom, mas antes ele te deu outras coisas? Presentes, eu quero dizer. Bom, isso não é consolo. Quando eu te vejo triste me dói o coração. Você é minha grande amiga. Como será que esses passarinhos ficam bem assados?&lt;br /&gt;- Maria! Por favor... Eu não estou triste pelo Fred ter me largado. O chato é ele ter me trocado por um homem.&lt;br /&gt;- O cara é viado-do? Daqueles homens que beijam outros homens? (tom) Que lindo. Deve ser uma gracinha ver dois marmanjos barbados brincando de Ivanhoé. Ou Power Rangers para os mais novos. Quer dizer que o cara era Rei Artur e você não sabia?&lt;br /&gt;- Rei artur?&lt;br /&gt;- É, a espada era a lei. Desculpe, não deu pra segurar.&lt;br /&gt;- Não tem problema. Eu ainda sou amiga dos dois. Eu não consigo ficar brava com esses viadinhos.&lt;br /&gt;- Eu já acho viadagem coisa de bicha. Imagine, se eu não virei sapata porque esses lindões iriam virar?(se exibe) Tá, certo, já entendi. Mas existem as lindas que fazem os homens pensarem duas vezes antes de sairem se agarrando. Eu nunca vi um namorado meu virar viado. Eles me trocam por outras, mas nunca por outro.&lt;br /&gt;- Você acha que foi minha causa? Será que é algum problema meu? Agora fiquei cabrera.&lt;br /&gt;- Ficou o quê?&lt;br /&gt;- Cabrera, fiquei com a pulga atrás da orelha.&lt;br /&gt;- Cabrera. Tipo tocadora de cabras. &lt;br /&gt;- Não, cabrera tipo curiosa, preocupada. Você acha que a culpada dele ter virado o barco pro polo sul foi minha?&lt;br /&gt;- Claro que não. Eu, se fosse homem, iria querer te comer todo dia e jamais iria enjoar. Você é bonita, pode não ser muito inteligente mas é bonita. Pode não ser rica mas é bonita. Você tem o maior dos predicados!&lt;br /&gt;- ...?&lt;br /&gt;- Um nariz certinho dividindo a cara. Acho que eu mataria por um nariz igual ao seu. Na verdade eu mataria por uma bunda igual a sua. Pensando bem, será que se eu me matar reencarno gostosona? &lt;br /&gt;- Acho melhor não. Numa dessas sai pior.&lt;br /&gt;- Pior? Você tá brincando. Tá gozando com a minha cara. Me diz uma coisa, o cara transava legal?&lt;br /&gt;- Fred? Era carinhoso. Eu não gostava muito de certas coisas que ele fazia..&lt;br /&gt;- Sodomia? Cunnilingus? Felação? &lt;br /&gt;- Peidar. O desgraçado peidava sem parar quando estava em cima de mim. Parecia um navio a vapor. Toda vez que a gente ia transar eu acendia um incensozinho para desbaratinar. &lt;br /&gt;- Talvez tenha sido melhor vocês terem se largado.&lt;br /&gt;- Não, a gente não se largou não. A gente só está dando um tempo. Esperimentando novos horizontes. Talvez a gente volte. Apesar de tudo eu ainda gosto dele.&lt;br /&gt;- Joana, menina, diga sinceramente aqui pra sua amiga do peito. Não esconda nada do que se passa nessa cabecinha ôca. Você tá brincando?&lt;br /&gt;- Não, hoje a gente vai sair. Os três para discutir relacionamentos. Abrir a cabeça, sabe.&lt;br /&gt;- Deviam mesmo abrir as cabeças. Com marretas de cinco quilos, de preferencia.&lt;br /&gt;- Você não quer vir junto?&lt;br /&gt;- Não, aluguei a fita da Cicciolina"Sadomasoquismo para Emagrecer". &lt;br /&gt;- Olha, Maria, eu não lembro onde ouvi a respito dessa tal Titiolinha, mas o que eu ouvi não era boa coisa não. Parece que ela era deputada e fez alguma coisa muito grave no congresso. Peitou alguém importante, sei lá.&lt;br /&gt;- De putada ela realmente entende muito. E peitar é com ela. Joana, fica fria, eu sei me cuidar. Pode deixar que nas cenas mais fortes eu fecho os olhos.&lt;br /&gt;- Você promete?&lt;br /&gt;- Juro sobre o corpo de minha mãe morta.&lt;br /&gt;- Sua mãe não morreu, você quer me enganar.&lt;br /&gt;- Você me pegou. Tudo bem, juro sobre o corpo de sua mãe morta. Assim tá bom?&lt;br /&gt;- Aí tá melhor. Vou tomar um banho?&lt;br /&gt;- Eu vou trabalhar.&lt;br /&gt;           Saem de cena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria deitada no sofá. Entra Joana com máscara facial verde. &lt;br /&gt;- Ah! Pelamordedeus, desconjuro Satanás!&lt;br /&gt;- Que foi que aconteceu?&lt;br /&gt;- Joana? O que fizeram em seu rosto? Calma que ainda tem solução.&lt;br /&gt;- É só uma máscara facial. Uma receita que aprendi no programa do Clodovil. Disse que deixa a gente com pele de pessego. &lt;br /&gt;- Você já tem pele de pessego.&lt;br /&gt;- É verdade. Bom, mas é divertido. Você não acha que eu fico parecida com o Hulk?&lt;br /&gt;- Tal e qual. Identica. Inclusive foi isso que eu pensei quando você entrou na sala. O doutor David Banner está entre nós. O mostro tomou conta de seu corpo novamente.&lt;br /&gt;- Você está brincando.&lt;br /&gt;- Eu?&lt;br /&gt;- Eu tenho quase certeza que você está brincando. Fale séria comigo. Eu preciso estar bonitinha para trabalhar hoje a noite na recepção do senador. Eu vou ser a modelo que vai entregar o prêmio principal da noite. O "Chaveco de Ouro". É a primeira vez que acontece essa festa. Vão os principais nomes da sociedade. Me disseram que até o Rubinho Barrichelo vai estar lá. Dizem que ele vai dar uma demonstração de um produto novo da parmalat. Um tipo de espremedor de laranja.&lt;br /&gt;- Laranja? Deve ser ele mesmo. &lt;br /&gt;- Eu tenho convites. Quer ir?&lt;br /&gt;- Sozinha?&lt;br /&gt;- Bom, o Fred pode ir com você. Só que ele vai com o namorado dele. Mas eles fazem de conta que namoram você. Que tal?&lt;br /&gt;- Não sei se alguém vai acreditar.&lt;br /&gt;- Bobagem, tem de monte homem bonito namorando mulheres feias.&lt;br /&gt;- Eu quis dizer que dois viados bandeirosos feito eles não iam conseguir fazer papel de homens.  Bom, em todo caso, acho que vou. Mas eu não tenho vestido.&lt;br /&gt;- Pega um meu. Pega o vermelho.&lt;br /&gt;- Pano de menos.&lt;br /&gt;- O verde.&lt;br /&gt;- Minhas pernas!&lt;br /&gt;- O pink, não, falta seios. Pega o branco que vai dar certinho.&lt;br /&gt;- Mas o branco é aquele vestido que sua tia esqueceu.&lt;br /&gt;- Ela não vai se importar. Vamos, vista que vai ficar uma gracinha.&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;saem para o quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joana com um belíssimo vestido de noite e Maria com roupa de Senhora de setenta anos voltando para casa.&lt;br /&gt;- Não foi tão ruim assim.&lt;br /&gt;- Como não? Primeiro o cara tentou me ajudar a descer do carro me chamando de senhora. Quando eu recusei ele ofereceu a cadeira de rodas. &lt;br /&gt;- Ah, mas a festa foi uma gracinha. O Fred até dançou com você. Vocês estavam um casal maravilhoso.&lt;br /&gt;- No banheiro me perguntaram como eu me sentia tendo um filho gay. Teve uma senhora que até pediu conselhos sobre como agir com o dela. &lt;br /&gt;- Mas você se divertiu. Quando eu estava no palco ao lado do governador você não parava de rir e pular.&lt;br /&gt;- O garçon deixou cair uma cereja nas minhas costas. Bom, mas tudo bem. O que eu quero agora é tirar estes sapatos e descansar. Ah, que alívio. Sabe, ainda bem que hoje é sexta-feira. Ai meu Deus, ai meu Deus. &lt;br /&gt;- O que foi?&lt;br /&gt;- Esqueci de gravar a sexta-sexy. Eu sou uma anta mesmo.&lt;br /&gt;- Hum,hum.&lt;br /&gt;- Não precisava concordar. Quando a gente fala se depreciando perto de amigos é para que os amigos digam que não é verdade. Que a gente é maravilhosa. Que nós somos incríveis.&lt;br /&gt;- Minha mãe disse para eu não contrariar os mais velhos.&lt;br /&gt;- Eu sou só uma semana mais velha que você.&lt;br /&gt;- Não interessa. Imagine que se toda vez que um velho passasse a mão na minha bunda eu fosse estapear, xingar, chutar. Coitadinho do governador, ia parecer bola de futebol velha.&lt;br /&gt;- O governador passou a mão na sua bunda?&lt;br /&gt;- E o senador e o deputado. Quase perguntei ao prefeito porque ele não passava.&lt;br /&gt;- E você ficou quieta?&lt;br /&gt;- Passar a mão não tira pedaço. Além disso o vestido é escuro, não suja.&lt;br /&gt;- Nossa, ainda bem. Que horas você vai acordar amanhã?&lt;br /&gt;- Cedo. Lá pelo meio-dia. Mas se você quiser eu posso te acordar lá pelas onze. Não vai fazer muita diferença. Minha mãe sempre diz que dormir demais incita a preguiça. Incita a preguiça, frase bonita, você não acha. Dá a impresão que tem um conteúdo mais profundo, filosófico até. Dormir incita a preguiça! Todos os caras que saem comigo dizem que eu os incito.&lt;br /&gt;- Excita.&lt;br /&gt;- Então. Exclusive aconteceu isso hoje. Aquele velho que chegou de limusine olhou pra mim e deu pra perceber que ele ficou incitado. Exclusive ele tentou passar a mão em mim. Até cheguei mais perto pra ajudar o coitadinho, mas ele não conseguiu. Tadinho. Nessa idade o sangue não flui tão rápido do saco pras mãos. Exclusive pensei que ele fosse desmaiar.&lt;br /&gt;- Inclusive.&lt;br /&gt;- Ah, você viu também. Falando nisso o Sé gostou muito de você.&lt;br /&gt;- Que Sé?&lt;br /&gt;- O Sérgio. &lt;br /&gt;- Ah, o namorado do Fred. Que ótimo que ele gostou de mim.&lt;br /&gt;- Ele disse que te achou a pessoa mais divertida do mundo. Disse que gostaria de sair mais vezes com você. Disse que adorou quando você deu um chute no saco do cara que chamou o Fred de fresco.&lt;br /&gt;- Alguém tinha que tomar uma atitude de homem. Como é que pode dois homenzarrões daqueles agirem como duas menininhas. Se eu fosse do tamanho deles baixava a porrada em todas aquelas personalidades. Mas batia sem dó em qualquer um que me olhasse torto.&lt;br /&gt;- Você já é asim.&lt;br /&gt;- É, pois é. Pois então eu bateria também nos que não me olhassem torto.&lt;br /&gt;- Quer ajuda para tirar a maquiagem?&lt;br /&gt;- Tirei no caminho.&lt;br /&gt;- Me espera tirar?&lt;br /&gt;- Não, estou com sono. Vou dormir. Agora são duas horas. Lá pelas quatro, quando você terminar me acorde para eu dar água pras plantas.&lt;br /&gt;- Tudo bem. Boa noite.&lt;br /&gt;- Boa noite, querida. &lt;br /&gt;        &lt;br /&gt;Entram nos quartos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entram Joana e Maria. Maria entra primeiro muito puta da cara.&lt;br /&gt;- Filha-da-puta. Chamar a gente de sapatas eu não ia nem ligar, mas perguntar pra você se não tinha homem mais feio pra namorar é brincadeira.&lt;br /&gt;- Você não acha que foi dura demais? Bolsada foi cruel.&lt;br /&gt;- Eu devia era ter tirado a chave inglesa da bolsa e dado só com ela. Fui é muito boazinha. Justo hoje que eu estava tão contente. Não te falei, né. Ganhamos a conta dos eletrodomésticosWaldos.&lt;br /&gt;- Não sei porque Waldo me lembra picanha. Será que é alguma mensagem subliminar.&lt;br /&gt;- Deve ser. O mundo está cheio de mensagens escondidas. Lembra quando você tocou o disco do Chitãozinho ao contrário.&lt;br /&gt;- Lembro, foi incrível. (faz ruídos como se fosse cantar ao contrário) Com certeza é alguma lingua oriental. Talvez seja inglês. Você sabia que o Chitãozinho cantava em inglês? Não é incrível?&lt;br /&gt;- Tem alguma coisa na geladeira?&lt;br /&gt;- Pipocas. E estão frescas. Eu fiz ontem.&lt;br /&gt;- Muito bom. Com quem você vai sair hoje? &lt;br /&gt;- Com o senador.&lt;br /&gt;- Você não disse que ele cheirava à alcool?&lt;br /&gt;- Escocês, doze anos. Não sei porque eu gosto tanto de sair com pessoas mais velhas. Deve ser complexo de Édipo.&lt;br /&gt;- Complexo de Édipo é quando se é gamada no pai. Quando se é gamada no avô é outra coisa.&lt;br /&gt;- Ai, eu acho que ele realmente me ama. Até me deu este colar. Não é lindo?&lt;br /&gt;- Meu Deus! Diamantes?Vidro, estava bom demais.&lt;br /&gt;- Então, não são diamantes? Mas que velho sem vergonha. Nunca mais abaixo para amarrar os sapatos dele.&lt;br /&gt;- Você fazia isso? Ele só queria que seu vestido subisse.&lt;br /&gt;- Claro que não.Eu já estava pelada.&lt;br /&gt;- Claro. Bom, vou fazer uma sopa. Quer?&lt;br /&gt;- Já que eu não vou sair mesmo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Como você pode fazer uma coisa dessas?&lt;br /&gt;- Mas, a galinha já estava morta.&lt;br /&gt;- Como é que você se sentira se alguém pegasse sua mãe e fizesse em pedaços?&lt;br /&gt;- Você tinha algum parentesco com a galinha?&lt;br /&gt;-Sim! Não! Mas e os pintinhos?&lt;br /&gt;- Que pintinhos?&lt;br /&gt;- Você acha que eu não sei que aqueles ovos saem das galinhas. Um de cada vez! Só porque colocam em caixas de uma dúzia vocês, insensíveis, acham que substituem o calor maternal?&lt;br /&gt;- Joana, vá ver se eu estou na esquina.&lt;br /&gt;- Não tente me desviar a atenção. Eu sei que você está aqui. Senão como faria a pergunta. Desalmada.&lt;br /&gt;- Você nunca tomou canja?&lt;br /&gt;- Claro que sim.&lt;br /&gt;- Canjas são feitas de galinha.&lt;br /&gt;- Ai meu Deus. Eu sou uma antropófaga.&lt;br /&gt;- Antropófagos são pessoas que comem os da mesma espécie... pensando bem.          &lt;br /&gt;Ah, deixa disso e tome sua canja. Ontem você foi ao churrasco e disse ue adorou.&lt;br /&gt;- Lá não havia cadáveres. Só bifes.&lt;br /&gt;- E não eram bifes de vaca?&lt;br /&gt;- Você quer dizer que... Ah!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fred no sofá&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Vocês acham que todo homossexual é bicha? Estão enganados. Alguns são homens. Só que gostam de outros homens. Toda mulher entende isso. Só as que são sapatas que não. Bom, mas aí começa a complicação. meu pai, por exemplo.Ele me perguntou, já que gosto tanto de homens porque eu não arranjo uma sapatão. Sim, devo admitir que é uma questão delicada. Muito difícil mesmo de explicar. Por isso não vou explicar nada. &lt;br /&gt;- Fred, como está?&lt;br /&gt;- Oi, Maria, Joana está no banho. A gente vai sair para comprar um vestido.&lt;br /&gt;- Outro. Ela comprou um ontem!&lt;br /&gt;- Que coisa, não? (constrangido)&lt;br /&gt;- É, bom, como está o seu namorado? É assim que se fala?&lt;br /&gt;- É, meu namorado. Acabamos. Não deu certo. Ele queria coisas diferentes do que eu.&lt;br /&gt;- Ele gosta de mulher! Eu sabia que vocês tinham remédio. Ele descobriu que tinha feito escolhas erradas.&lt;br /&gt;- Não, não é isso. Ele queria que nosso quarto fosse laranja e eu queria azul.&lt;br /&gt;- Vocês brigaram só por isso?&lt;br /&gt;- Não, claro que não. Depois do sexo ele dormia.&lt;br /&gt;- Bom, era só você virar ele e.... ah, entendi. Dormindo não funciona. claro, como sou estúpida. Mas, você parece bem. &lt;br /&gt;- É, a vida continua. Vou dar uma festa, hoje a noite. Se você quiser ir.&lt;br /&gt;- Vai ter homens?&lt;br /&gt;- Claro!&lt;br /&gt;- Eu quero dizer, homens!&lt;br /&gt;- Bom, sempre tem uns desgarrados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115250117745643557?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115250117745643557/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115250117745643557' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250117745643557'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115250117745643557'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/07/mulheres.html' title='Mulheres'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115163692654308296</id><published>2006-06-30T00:08:00.000-03:00</published><updated>2006-06-30T00:08:46.640-03:00</updated><title type='text'>O PERIGO, A ABÓBORA E O VENTO</title><content type='html'>Fiz uma sopa multicultural – abóbora japonesa, batatas inglesas, bacon Da Fazenda, cebolas, caldo de galinha Knorr e creme de leite Batavo. &lt;br /&gt;- Mistura explosiva, o leitor concorda.&lt;br /&gt;Paola trouxe os vídeos A vida de Brian e O iluminado, mais uma garrafa de vinho branco Almadén; Marcelo veio com seu casaco friorento escondendo o vinho tinto da mesma marca; Marcos arrastou na memória o livro escrito por Stephen King, na qual se baseou o filme de Stanley kubrick; Mônica arrumou  a casa para que todos vissem a organização (é engraçado que neste aspecto ela realmente parece Mônica do seriado Friends).&lt;br /&gt;Devemos ver o lado bacana da morte, canta o pessoal do Monty Python, após serem crucificados pelos romanos. Gosto dos pezinhos balançando. &lt;br /&gt;- Eu não acredito que os caras tenham pensado nisso, Paola diverte-se &lt;br /&gt;à mesa, todos reunidos, brindamos a amizade e recebo elogios pelas minhas capacidades culinárias, logo a seguir entramos em uma essencial discussão tratando das benesses da pimenta para a saúde do intestino reto.&lt;br /&gt;- O problema não é a entrada, é a saída, Marcelo filosofa enquanto aceita a pimenta que ofereço. &lt;br /&gt;- Vamos mudar de assunto, Paola e Mônica fazem coro.&lt;br /&gt;- Terminei de ler um livro chamado Tudo no Timing, de David Ives. São 7 comédias de um ato, a maioria baseadas em questões literárias: melopéia, ritmo, reconstrução de situação. Boas se a gente tem disposição para pensar, algum conteúdo anterior e, principalmente, gosto pelo absurdo que faz rir. Imaginem Trotsky com uma picareta na cabeça, ou três macacos tentando escrever Hamlet sem saber o que é Hamlet.&lt;br /&gt;Em A vida de Brian, o riso é o foco principal (tempo), &lt;br /&gt;(- É interessante que todos os Romances de King têm sempre um personagem escritor, Marcos esclarece.)&lt;br /&gt;em O iluminado, o suspense é o mote (tempo). Vale destacar as trilhas e o som incidental. Outra qualidade é – &lt;br /&gt;(- No livro, fica claro que o filho tem um grande poder, no filme é meio dúbio. E o pai é um cara normal mas tem um problema. )  &lt;br /&gt;e nisto este é um dos melhores exemplos –, &lt;br /&gt;(- A cara dele é ótima!, Paola e Mônica deliciam-se com as caretas de Nicholson. Ele parece que está liberando algo preso dentro dele...) (Liberando algo dentro dele?)&lt;br /&gt;a maneira como o diretor trabalha o ritmo. Isso cria&lt;br /&gt; (- Pára, Wilson! Nenhuma delas gosta que eu fique dando pequenas batidas na porta e na parede do armário embutido. Mas eu não consigo controlar meu nervosismo. Não me sai da cabeça o perigo de reunir um grupo de amigos, em uma sala pequena, logo após uma sopa cremosa.)&lt;br /&gt; (- Alguém quer chá?, fujo para a cozinha como o covarde que sou. Nada aconteceu, ainda, mas eu acredito que o perigo está próximo.)&lt;br /&gt;uma ambientação extremamente tensa. Quem prestar atenção vai ver que  &lt;br /&gt;(Os olhos de Paola, Mônica, Marcos e Marcelo estão presos no vídeo. Não sei se é pela hipnótica cadência imprimida pelo diretor ou pela percepção de algo está prestes a tomar o ar. É a velha estratégia de fazer rir para que o susto posterior seja maior.)&lt;br /&gt;as cenas transcorrem com pouquíssimos&lt;br /&gt;(- Eu quero mais chá, Marcos é o único...)&lt;br /&gt;diálogos. Do mesmo modo que Hitchcock, Kubrick abusa das pausas dramáticas, que neste filme, merece ser chamado de &lt;br /&gt;(Nicholson persegue seu filho empunhando um machado. Penso em Trotsky com a picareta na cabeça. Não resisto.)&lt;br /&gt;transcurso dramático.&lt;br /&gt; (- Bu!, Mônica e Paola dão um salto. Marcelo as acompanha. Marcos me aplaude mas eu não me alegro. Me dou conta que o susto pode, perfeitamente, servir de desculpa para liberar o que está preso e ganhando potência. Sozinho, na cozinha, me penitencio lavando a louça na água fria.) &lt;br /&gt; A comédia e o terror têm os mesmos componentes de absurdo, e, cada um, a seu modo, exercitam nossa capacidade de extrapolar sensações. Quem seria capaz de negar as qualidades técnicas de Stephen King? &lt;br /&gt;- No dia que assisti O exorcista, precisei deixar as luzes acesas, Marcelo confidencia. &lt;br /&gt;- Meu Deus!, as luzes se apagam. Pela sacada luzes noturnas invadem. Ninguém grita, mas sons se propagam. &lt;br /&gt;- Está quente. Acho que vou abrir a janela.&lt;br /&gt;A sugestão é imediatamente aceita e logo todos respiram com tranqüilidade. &lt;br /&gt;É preciso ver o lado bacana da morte..., eu que o diga.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115163692654308296?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115163692654308296/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115163692654308296' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115163692654308296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115163692654308296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/06/o-perigo-abbora-e-o-vento.html' title='O PERIGO, A ABÓBORA E O VENTO'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115163686063966537</id><published>2006-06-30T00:07:00.000-03:00</published><updated>2006-06-30T00:07:46.056-03:00</updated><title type='text'>ENCONTRANDO CORMAC MCCARTHY</title><content type='html'>El Paso. Por aqui se ouve tanto castelhano quanto inglês e o chapéu de abas largas não é enfeite. As ruas são de asfalto duro para suportar o sol desertificador. As rádios tocam rock, pop, rap, mas é o country que predomina. Loiras opulentas, chicanas acabrunhadas dividem as calçadas. Fronteira com o México é assim mesmo. &lt;br /&gt;Estou há uma semana tentando contatar Cormac McCarthy, o escritor dos escritores. Após a explosão de vendas de sua Trilogia da Fronteira: Todos os belos cavalos, A travessia, Cidades da planice, ele deixou de ser um personagem cult para tornar-se uma celebridade popular, o que não diminuiu a qualidade de seu trabalho, muito. Don DeLillo afirmou anos atrás que McCarthy foi o maioral durante a década de 1980. Gente como Norman Mailler admira seu estilo despido de psicologismos e rodeios intelectuais. Seu Meridiano sangrento é aclamado, em tom de piada, como o livro mais sanguinolento desde a Ilíada – no que está certo. E mesmo os críticos dizem que McCarthy é grande. Desde seu primeiro livro, The Orchard Keeper, 1965, consideram-no o sucessor de Willian Faulkner, tanto que ganhou o prêmio que leva este nome, assim como o da Academia Americana de Artes e Letras e a bolsa da Fundação Rockfeller. Graças à esse dinheiro, e de outros prêmios que vieram de trabalhos posteriores (Outer dark, 1968, Child of God, 1973, The Gardener's son [roteiro], 1977)  McCarthy sobreviveu para chegar ao sucesso. &lt;br /&gt;- Moro atrás do shopping, onde havia uma lavanderia. É pequeno para dois, mas para mim serve. Tenho dinheiro para deixar El Paso, mas para onde? Já fui sem teto, morei em hotéis, dormi em banheiros de postos de gasolina, o que me resta? &lt;br /&gt;Apesar de sua agente Amanda Urban, da International Creative Management, me garantir que seria perda de tempo, &lt;br /&gt;(- Até hoje ele só deu uma entrevista.)&lt;br /&gt;tomei o avião e vim. Não serei o primeiro a dar com os burros na areia, mesmo o jornal local, The El Paso Herald-Post, quando tentou homenageá-lo com um jantar e uma placa de bronze, amargou a espera frustrante. Se falhar, não me sentirei incapaz, no máximo, desidratado.&lt;br /&gt;Em 1933, nasceu em Rhode Island. Aos 4 anos, mudou-se para Knoxville. Na vida e nas experiências ali acontecidas, McCarthy baseou-se para escrever Suttree.&lt;br /&gt;- Ninguém conhecia seu lado negro, disse um amigo retratado nessas páginas.&lt;br /&gt;Desde 1976, vive em El Paso.&lt;br /&gt;- Sempre gostei do sudoeste, da vida selvagem. Você sabe, não tem lugar no mundo que não se ouça falar de cowboys, índios e do mito do oeste.&lt;br /&gt;Meu avião parte no final da tarde, mas continuo tentando. Neste momento estou no Pueblo Viejo, um desses saloons abundantes na parte velha da cidade. O gerente do hotel me disse que Macarthy costuma vir fazer compras por aqui. Peço uma garrafa de água mineral. O barman coça a orelha e&lt;br /&gt;(- Homem toma uísque e cerveja.)&lt;br /&gt;continua a limpar o balcão. Pego a garrafa vou sentar em uma das muitas mesas vagas. Na penumbra, acabo tropeçando em uma lata vazia. Se o velho cowboy não me segurasse, eu dava de cara no chão. &lt;br /&gt;- Cuida-te.&lt;br /&gt;Ele é magro, rosto afilado e usa um chapéu branco daqueles que se vê em propagandas de cigarros. Move-se com os quadris soltos, como se estivesse esperando o início da música. Por reflexo, agradeço&lt;br /&gt;(- Obrigado.)&lt;br /&gt;em português. Ele aperta os olhos e pergunta de onde sou. Ao saber que venho do Brasil, abre o sorriso e me convida a sentar. Não comento mas acho estranho aqueles bonecos de animês japoneses - Pokemon, Dragon Ball, Samurai X, e outros que não conheço - enfileirados no canto da mesa.&lt;br /&gt;- É passatempo. Já tive todos os que você pode imaginar mas estou sempre procurando novos. Pessoas como eu não vivem entediadas, não lembro de ter passado por isso. Tudo é interessante.&lt;br /&gt;Chama-se Charles. Sua voz é tranqüila e fala misturando palavras antigas com gírias modernas. Tem ritmo e sintaxes elegantes. &lt;br /&gt;- Se vai passear fora da cidade, cuidado. No deserto do Mojave, as cascavéis têm como veneno uma neurotoxina muito parecida com a das cobras. E alarga um sorriso que não revela os dentes. É muito interessante ver na natureza um animal que pode deixar você morto no cemitério. &lt;br /&gt;Anne de Lislle, a segunda esposa de McCarthy, lembra com saudades o tempo em que viveram juntos. Apesar de dormirem em traillers, tomarem banho no lago e mal terem dinheiro para o feijão do dia seguinte, seu marido se recusava a dar palestras, aulas, ou o que estivesse ligado à literatura.&lt;br /&gt;- Está tudo no livro.&lt;br /&gt;Mesmo ofertas de 2 mil dólares foram recusadas. &lt;br /&gt;- Literatura é o caminho, o caminho para não falar comigo.&lt;br /&gt;Nunca pagou pensão a nenhuma das duas ex-esposas por nunca ter com que pagar. A poucos anos retomou relações com o filho do primeiro casamento. Gastos? 7 mil livros espalhados em vários depósitos.&lt;br /&gt;Charles toma uma Coca-Cola dietética e faz diversas perguntas sobre o Brasil. Diz ter curiosidade pelo país do futebol, &lt;br /&gt;(- As meninas daqui gostam.) &lt;br /&gt;mas que dificilmente irá visitá-lo. Mal tem tempo para passear pelo deserto e reconhecer o que ali existe. &lt;br /&gt;McCarthy é conhecido pelas suas ambientações, personagens tão fortes quanto qualquer protagonista. Ele só escreve sobre lugares que conhece, informação que acrescenta mas não explica seu talento. &lt;br /&gt;- Uma pena terem acabado com os coiotes. Há um projeto para reintroduzi-los, só depende dos esforços dos fazendeiros. São como ursos, vivem de comer pequenos animais, porém, sem mais nem menos, podem se virar contra você. Nunca fui atacado, mas acredito no que ouvi.&lt;br /&gt;Após abandonar o curso de Artes na Faculdade do Tenesse, em 1953, McCarthy entrou para a força aérea e foi servir, por três anos, no Alaska. Sem o que fazer, desencavou livros e tornou-se um leitor contumaz.&lt;br /&gt;- Eu sempre soube que sabia escrever, &lt;br /&gt;mesmo assim, antes da Trilogia da Fronteira, seus títulos vendiam na média 5 mil volumes, o que é pouco para o mercado americano. &lt;br /&gt;- O que é horrível nos livros foi feito fora dos livros. A novela depende, para viver, de outras novelas já escritas. Bons escritores são Melville - Moby Dick é meu livro preferido -, Dostoyevsky, Faulkner. O que escrevem trata de situações de vida e morte. Proust e Henry James eu não entendo. Pra mim não é literatura. Tem muitos escritores que são considerados bons e eu acho estranhos. &lt;br /&gt;Seu primeiro editor, Ralph Ellison Erskine, da Randon House, também editou A sombra do vulcão, de Malcolm Lowry, e grande parte da obra de Faulkner. Nunca ganhou dinheiro com McCarthy. Uma relação de pai para filho.&lt;br /&gt;- Só essa vez mandei originais, e para a Randon House porque era a única editora que eu conhecia.&lt;br /&gt;Acaba de chegar um ônibus de turistas. São japoneses, alemães, franceses, vestindo bermudas, bonés brancos e armados com máquinas fotográficas. Charles se afunda na cadeira até que a linha de seus olhos pareie com a borda da mesa. Logo que os invasores partem, Charles junta os boneco em uma sacola de pano, levanta e se despede. &lt;br /&gt;- Preciso ir. Estou trocando o piso lá de casa. &lt;br /&gt;Junto à porta, pergunta se vou ficar mais tempo na cidade. Respondo que não. Diz que é uma pena, que há muita coisa a ser vista. O deserto, após as chuvas, tem uma beleza incomparável. &lt;br /&gt;- Vida e morte. Não acontece muita coisa sem derramamento de sangue. Eu acho que a noção de que as espécies podem melhorar, que todos podem viver em harmonia, é uma idéia realmente perigosa. Aqueles que estão preocupados com essa noção são os primeiros a venderem suas almas, suas liberdades. O desejo de que isso seja o caminho escraviza e deixa a vida vazia. &lt;br /&gt;Para McCarthy, o grande bem que as altas vendas de seus livros derivaram foi a compra de uma caminhonete, no mais, a vida continua a mesma. Ainda é fiel à sua Olivetti manual.&lt;br /&gt;- Cormac foi um rei irlandês, não foi?&lt;br /&gt;Charles sorri.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115163686063966537?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115163686063966537/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115163686063966537' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115163686063966537'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115163686063966537'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/06/encontrando-cormac-mccarthy.html' title='ENCONTRANDO CORMAC MCCARTHY'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115163681259623443</id><published>2006-06-30T00:06:00.000-03:00</published><updated>2006-06-30T00:06:52.866-03:00</updated><title type='text'>Encontrando Yukio Mishima</title><content type='html'>Tomei um vôo, sem escalas, até a cidade luz. Desci no Aeroporto Charles De Gaulle às 8 da manhã, debaixo de chuva. &lt;br /&gt;Durante a viagem, revisei minhas anotações. Em 25 de novembro de 1970, às 11 h., acompanhado de quatro componentes de sua milícia particular, a Sociedade Protetora (Tate no Kai), o escritor, teatrólogo, três vezes indicado ao prêmio Nobel, Yukio Mishima, 45, chega em visita ao Quartel-general Ichigaya, do Exército do Leste. Após tomar como refém o General Kanetoshi Mashita, faz um discurso frente às tropas pedindo o retorno das tradições guerreiras do Japão. Suas palavras são recebidas com escárnio. Sem mais, com o grito de &lt;br /&gt;- Longa vida à sua majestade, o Imperador&lt;br /&gt;entra no escritório e comete seppuku. Masakatsu Morita tenta por três vezes decepar sua cabeça. Nervoso, falha criando um enorme constrangimento. &lt;br /&gt;O saguão do aeroporto está agitado. Painéis com o rosto de Yukio Mishima e de atores de Butoh, anunciam a exposição fotográfica de Eiko Hosoe. Perdido no escarcéu de imagens e viajantes, pergunto a um negro vestido com trajes marroquinos qual o meio mais rápido de chegar ao Centro Georges Pompidou. N’Gabu Nadour sorri&lt;br /&gt;(- Kimitaka Hiraoka? Brinca com o nome verdadeiro de Mishima)&lt;br /&gt;e, durante a carona, me confessa sua paixão pela artes marciais e, principalmente, pelo escritor. &lt;br /&gt;- Ele nasceu em 1925, em família nobre. Seu primeiro texto foi publicado aos sete anos. A partir de então, ano a ano, produziu e editou em revistas escolares poemas, contos, ensaios, novelas. Aos 16 anos, adotou o pseudônimo. Aos 20 anos, recebeu o primeiro cachê. Em 1947, formou-se em direito pela Universidade de Tókio, indo trabalhar, por pouco tempo, no ministério das finanças. Lá, é aconselhado a dedicar-se à literatura. Criou 40 novelas, 18 peças de teatro, 20 volumes de contos e muitos ensaios.&lt;br /&gt;Como bom fã, Nadour leu a tetralogia O mar da fertilidade, além de Confissões de uma máscara, O marinheiro que perdeu as graças do mar, O pavilhão do templo dourado, Neve da primavera, Cores proibidas, Sol e aço, os contos de Morte em pleno verão, e mesmo suas Cinco peças modernas de teatro Noh.&lt;br /&gt;- Ele lançou seu primeiro romance, Confissões de uma máscara, aos 23. Kawabata Yasunari, que ganhou o Nobel em 1968, dizia que quem devia ter ganho era Mishima. Eu acho que Cores proibidas fala da relação deles. Um jovem dominado por um escritor velho.&lt;br /&gt;O sinal vermelho nos faz parar ao lado de um imenso outdoor onde Mishima, com o torso nu, empunha uma espada. Antes do sinal abrir, Nadour comenta com seriedade:&lt;br /&gt;- Eu queria estar lá.&lt;br /&gt;Enquanto a polícia do exército aguarda junto à porta, no pátio, os soldados tentam escalar as paredes, aumentando ainda mais o nervosismo. Vários  comentam a obsessão de Mishima pelo suicídio, assim como a relação que fazia entre sexo e morte. A história mais citada é o conto Patriotismo, sobre o suicídio de uma casal durante o ferver do incidente de 1936. &lt;br /&gt;- Ainda há tempo,&lt;br /&gt;o general grita disfarçando seu temor egoísta. Furo Koga, dos quatro acompanhantes, o espadachim mais bem preparado, sabe que é mentira. No entanto, entende que é preciso dar um fim à agonia de seu líder. Com firmeza, abre os dedos de Morita e pega a espada. Mal há tempo para Mishima piscar em agradecimento, sua cabeça rola sobre o tapete vermelho indo parar junto aos pés da escrivaninha. Envergonhado, Morita tenta rasgar o ventre mas o corte é raso demais. &lt;br /&gt;- Que importa?, &lt;br /&gt;uma vez mais, Furo escorre a lâmina através de carnes, nervos e ossos. Menos de um minuto depois, ainda lívido de furor, acompanhado de dois companheiros sobreviventes (Masayoshi Koga e Masahiro Ogawa), deixa a sala rumo à prisão. Em 27 de abril de 1972, são condenados a quatro anos de reclusão.&lt;br /&gt;Às 10 horas, Nadour estaciona o carro e vamos correndo sob chuva torrencial até o belo edifício. Meu companheiro me esquece, ansioso que está por entrar no auditório; eu, mais pudico, aproveito estar com minha mochila e vou ao banheiro trocar a roupa molhada.&lt;br /&gt;Uso uma luminária como cabide. Semi-nu, esvazio a bexiga antes de me vestir novamente. De hábito, estou de olhos fechados nas últimas gotas e não dou atenção ao som da porta se fechando. Somente ao me virar, encontro aquele japonês de porte elegante e olhar surpreso&lt;br /&gt;(- Você me fez lembrar alguém.)&lt;br /&gt;afundado dentro de um paletó mal cortado.&lt;br /&gt;- Mishima?&lt;br /&gt;- Não. Hijikata Tatsumi sensei.&lt;br /&gt;É ele, Furo Koga.&lt;br /&gt;Tóquio, 1959, total escuridão. Estão presentes integrantes da Associação de Dança Artística Japonesa, muitos curiosos e uma figura de destaque: o escritor, de 34 anos, Yukio Mishima. Ele não gosta da sombra que o cobre. É impossível saberem que está elegantemente vestido com uma camisa preta, de gola rolê e terno justo que destaca os músculos inchados nas sessões de musculação. Se não foi para ser visto,&lt;br /&gt;(- Tanto sua beleza perfeita quanto sua infelicidade.) &lt;br /&gt;para que veio? Mais do que assistir à uma peça de dança baseada em sua obra publicada em capítulos entre 1951 e 1953, Cores proibidas (Kinjiki), quer comparar seu corpo aos daqueles que vivem de exibir os seus&lt;br /&gt;- A vida humana é muito breve e eu viverei para sempre. &lt;br /&gt;No palco, os corpos movimenta-se lentos, pesados. O garoto de 16 anos, Yoshito Ono, prende uma galinha entre as coxas como se estivesse fazendo sexo. Os minutos passam, a galinha é estrangulada e o homem mais velho, 31 anos, Tatsumi Hijikata, avança sobre o garoto obrigando-o a submeter-se ao estupro. Muitos dos presentes abandonam o salão. 16 minutos se passaram, poucos aplausos, Mishima vai até o camarim&lt;br /&gt;(- Finalmente um sopro de vitalidade nas artes japonesas. A cada nova apresentação confeccionarei uma máscara e me cobrirei de incensos para me purificar apropriadamente.)&lt;br /&gt;e passa a freqüentar o estúdio do Ankoku Butoh (dança das trevas), como colaborador, como dançarino. É o grande mediador de conhecimentos desse movimento em que também participam como fundadores Kazuo Ono e Akira Kasai. &lt;br /&gt;- Pretendo morrer antes dos 50, deixando um belo corpo.&lt;br /&gt;Eu me visto sob os olhos de Furo. Tento ser rápido. Me incomoda aquele tantô (faca guardada em bainha de madeira) em sua cintura. &lt;br /&gt;- Sensei dizia que não havia contradição em seu modo de vida aparentemente ocidental e seu discurso. Ele dizia que os ocidentais constróem casas de dois andares com escadas. As escadas são o método e todos as usam. Assim foi edificada a civilização ocidental. Após a era Meiji, o Japão também usa o método, mas, antes, nós apenas construíamos os dois andares, cada um decidia como subir. Demorei a entender... &lt;br /&gt;Duzentos e quarenta pessoas, mais as que estão em pé, lotam o salão. Furo está ajoelhado sobre uma almofada fina, com todos os botões da camisa abertos. O paletó descansa cuidadosamente dobrado sobre a mesa. Metade da lâmina está enrolada em uma toalha branca.&lt;br /&gt;Uma garota começa a rir de uma gracinha feita pelo namorado. O silvo que corta o salão a obriga a sair. &lt;br /&gt;- Mishima sensei chegou ao 5.º dan de Kendô, e fez Iaido e Karatê, mas era nas lutas com a espada de bambu que se saia melhor. &lt;br /&gt;Furo não se move enquanto massageia os músculos abdominais&lt;br /&gt;(- Ele gostava de atuar em cenas de seppuku.) &lt;br /&gt;mostrando como deve ser amaciado o local onde irá penetrar o aço. &lt;br /&gt;(- Há mais de vinte mil ideogramas possíveis. Eu sempre uso um dicionário para garantir a correção de meu texto. Veja a grafia de rosa, como o ideograma se parece com uma rosa. O escritor sempre busca dar algum efeito a seus leitores. Em japonês, as palavras tem mais relação com a realidade.)&lt;br /&gt;Nadour faz o papel de segundo,&lt;br /&gt;(- A lâmina deve entrar abaixo das costelas flutuantes, do lado direito e correr diagonalmente até o lado oposto, quando irá subir dividindo o baço. No momento em que a agonia é maior, aquele que já está morto faz um sinal de que ainda guarda consciência.) &lt;br /&gt;aquele que deve acabar com o sofrimento do suicida. Sua seriedade é assustadora.&lt;br /&gt;- Eu fui convidado a entrar na Tate no Kai logo após um jantar na vila italiana de sensei. Sua esposa e seus dois filhos estavam em outro cômodo. Saímos de sua sala renascentista e fomos até o escritório. Ali ele me mostrou sua espada mais preciosa, e me perguntou se eu entendia o que significava yamato damashi, o espírito japonês. Eu disse que sim, que entendia. Então ele pediu que me ajoelhasse. Eu bebi demais aquela noite e achava tudo engraçado, pelo menos até que a lâmina tocou minha pele... &lt;br /&gt;Durante a 2a Guerra, Mishima foi magro e pálido ao exame militar. Vitimado por febre alta e um forte resfriado, acabou sendo dispensado sob suspeita de tuberculose. Fora do campo, teve um acesso de risos enquanto corria aliviado. Pela manhã, antes de se dirigir à morte, Yukio Mishima (neve, a cidade que observa a neve sobre o monte Fuji) entregou a seu editor o último livro da tetralogia O mar da fertilidade, romances tematizando a reencarnação. &lt;br /&gt;Em Paris, a chuva continuou durante toda a semana, e quando o sol voltou a brilhar, os cartazes de Mishima haviam sido retirados. Em seus lugares foram colocadas imagens de modelos. Estava para começar a nova temporada de desfiles de alta costura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115163681259623443?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115163681259623443/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115163681259623443' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115163681259623443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115163681259623443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/06/encontrando-yukio-mishima.html' title='Encontrando Yukio Mishima'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115160098206090560</id><published>2006-06-29T14:09:00.000-03:00</published><updated>2006-06-29T14:09:42.570-03:00</updated><title type='text'>E agora, Mané? 3</title><content type='html'>Gerson é uma pessoa de qualidades intrínsecas. Quer dizer, não tem qualidades. O que não limita sua capacidade de me fazer rir. Semana passada, após um desafogo emocional com uma jovem babá bicentenária, Gerson voltou para casa e anunciou à Vilma que a tinha traído. Abriu a geladeira e tomou duas cervejas long neck e foi para a sala e ficou assistindo ao Jornal da Noite. Vilma, com a cara apertada como um nó górdio, recostou-se à porta e parecia pensar nas mil conseqüências que adviriam de suas próximas palavras. Gerson havia chegado quatro horas mais tarde que o normal; bebia cerveja antes de dormir, o que a deixava louca; estava com os pés calçados jogados sobre a mesa de centro art-decô, o que simplesmente era o mesmo que chamá-la de a maior prostituta da Babilônia. Algo estava errado. E o que queria dizer traído?&lt;br /&gt;- Você está tramando alguma coisa. Pode ir falando.&lt;br /&gt;Gerson arrotou e mudou pra um programa de entrevistas.&lt;br /&gt;- Não me vem com traição e coisa e tal. Eu sei que é tudo mentira. O que foi que você aprontou?&lt;br /&gt;Largando a televisão e Sílvio Santos com a cara esticada, Gerson coçou os grãos e disse quase derrubando os quadros da parede.&lt;br /&gt;- Nunca mais tire meu travesseiro do meio das pernas!&lt;br /&gt;Vilma ouviu espantada e começou a rir. Antes de irem pra cama, fez com que Gerson tomasse um Viagra para celebrar as alegrias do casamento longevo.&lt;br /&gt;- E ficou nisso?&lt;br /&gt;- Cara, me diz Gerson palitando os dentes e tirando uma tonelada de picanha mal passada, tem dias que me odeio por ser tão esperto.&lt;br /&gt;Pergunto se bebemos mais uma cerveja ou partimos pro uísque.&lt;br /&gt;- Vamos ao digestivo de cavalheiros. Garçom, duas doses de Jack, caprichadas!&lt;br /&gt;Limpo a boca dos respingos de gordura e salada de brócolis (tenho pensado na saúde desde que Juvenal morreu de ataque cardíaco no quarto de motel ao lado).&lt;br /&gt;- Eu estou com a Vilma por conveniência. Depois de dez anos não dá pra simplesmente ir saindo, como se nada tivesse acontecido.&lt;br /&gt;- Ela gosta de você.&lt;br /&gt;- Quando ela te disse isso?&lt;br /&gt;- Quando?&lt;br /&gt;Olho para Gerson e vejo que sua pergunta é inocente. Mudo de assunto.&lt;br /&gt;- Ela ainda fala a noite?&lt;br /&gt;- Depois que foi ao médico, melhorou. Pelamordedeus! Depois daquela madrugada dos infernos eu tive que reclamar. Como alguém pode aceitar como natural ser acordado pela mulher ao lado gritando "égua, vai égua preta!", e repetindo esse discurso socrático a cem decibéis por vez.&lt;br /&gt;- Ela devia ir ao analista.&lt;br /&gt;- Eu tive que ir ao gastro. De tanto rir estourou uma íngua na minha barriga. Fui advertido que, se tivesse outro acesso de riso igual, podia até ficar aleijado.&lt;br /&gt;- Ainda bem que tudo se rsolveu.&lt;br /&gt;- Ainda bem.&lt;br /&gt;Erguemos um brinde e pedimos outra dose.&lt;br /&gt;- Merda, reclamo, esqueci a escova de dentes.&lt;br /&gt;- Sem problemas, quando fui vomitar liguei pros bombeiros e avisei que tem uma bomba escondida no subsolo. Eles vão, no mínimo, gastar a tarde procurando.&lt;br /&gt;Decidimos visitar algumas amigas após a digestão, em memório do Juvenal.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115160098206090560?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115160098206090560/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115160098206090560' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115160098206090560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115160098206090560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/06/e-agora-man-3.html' title='E agora, Mané? 3'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115159162075926294</id><published>2006-06-29T11:33:00.000-03:00</published><updated>2006-06-29T11:38:03.940-03:00</updated><title type='text'>Escalação da seleção brasileira</title><content type='html'>Ponha-se no meu lugar. Desde criança eu sofro. Nasci assim. Esta é a sina de todos que tempo por nome Parreira. Pra começar, é trepadeira. Pior para as mulheres, claro, mas, pros homens, não facilita. Sua irmã é uma uva. Motivo de brigas constantes, não fosse eu um tranquilo e pacato garoto do interior (covarde por natureza em se tratando de embates físicos, ou  vocês acham que escolhi a profissão de treinador por acaso?). Ih, azedou a uva no pé. Nem dá flor, só frutinha. E por aí vai. Como podem perceber, minha vida de criança não foi fácil. Uma época de provações. Algo como os quarenta dias de Jesus no deserto; Buda sob a árvore pipal; o caminho de Meca a Medina para Maomé; o espaço para a família Robinson; Robinson para o passivo do Sexta-feira (mais um que devia ser treinador).&lt;br /&gt;Mas, por condições da mãe Natureza, os anos se passaram e fui para a faculdade. Dela saí como professor de Educação Física (quem não sabe fazer, ensina). Um de meus primeiros empregos, graças a uma articulação de QI (quem indica), foi ser técnico na África. Com um triste Constelation da Pan Air, lá fui eu cruzar o Atlântico, com as pernas trêmulas de quem sempre manteve os pés no chão. Ao descer da aeronave barulhenta, encontrei um país miserável, com gente boa e clima escaldante. Me senti no Brasil, não fosse o excesso de negros (coisa que me acostumei sendo treinador de futebol, área na qual, como em boa parte dos esportes, as qualidades desse povo se mostram superiores). O que muito me incomodou enquanto ensinava os ganenses o beabá da bola foi ser preciso das explicações teóricas. Já que televisão não havia, era preciso ensinar por meio de desenhos e gesticulações. Nos primeiros meses, parecíamos mais um time de rúgbi sem a bola apropriada (coitados, como eu nem embaixada sei fazer, acharam que futebol se joga com as mãos). Foi preciso muito esforço de meu intérprete para que as idéias fossem postas em seus lugares (ainda hoje, como todos sabem, Gana tem tradição de bons goleiros, fato o que dou mérito a mim).&lt;br /&gt;Quando voltei ao Brasil, foi para ser auxiliar técnico da famigerada geração da copa de 70. Foi glorioso. Fomos, farreamos, e f.... No mais, foram partidas intensas (não sei se disse que em Gana aprendi coisas que deixaram as mexicanas doidas). Posso dizer que, a copa do México me deu, além do mérito da vitória, assaduras e descamação no escroto. &lt;br /&gt;Depois disso, minha vida foi uma roda-viva. Passei de time a time, sempre mantendo as boas relações tanto com João Havelange quanto com seus parentes. Onde quer que eu fosse, ou estivesse, enviava cartões postais, ligava, lembrava dos aniversários e, não raramente, conseguia modos de tornar o nome de meu mui amado guru brilhante. Admito que nem sempre fui um vencedor, mas sou conhecido pelo meu modo exigente e correto de me portar. Não sendo bom dos pés, sou excelente da cabeça. Tanto na estratégia como no planejamento de treino, acerquei-me de grandes talentos - gente boa e também próximo à grande família. Como nunca soube o que realmente é jogar, montei em meu mundo de Alice no país das maravilhas, um cenário que é o campo ideal, com os jogadores ideais e os resultados ideais (hoje, mudei. As exigências de minhas empresas de compra e venda de jogadores me impedem de ir para o ideal. Me tornei nietzcheano. Ás favas o super-homem. Façamos de meus meninos meninos de ouro). &lt;br /&gt;Neste momento, frente a uma xícara de café alemão. Olho para o campo molhado de névoa e me pergunto quem deve entrar, quem deve sair. Como Napoleão antes de uma grande batalha, não sei qual será o resultado, mas guardo em mim a velha Alice, forjada na real capacidade de saber que o mundo se faz antes na imaginação. Deste modo, me desfaço das preocupações, perguntas de jornalistas, pressões dos torcedores, e apenas sigo os conselhos de um mago Branco, escalando os homes de meu interesse. Agora, sorvendo este café aguado, mais do que nunca tenho certeza que os resultados vão ser os que devem ser, e independente do que for, eu sairei vencedor. Pois, se no campo minhas pernas não respondem, fora dele, meu bolso compra um coelho maluco, um chapeleiro louco, milhões de rainhas de copas e um futuro decente e milionário para meus netos.&lt;br /&gt;Rio por último e rio melhor. Quanto mais envelhecido, o vinho torna-se mais rico... até mesmo em sabores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115159162075926294?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115159162075926294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115159162075926294' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115159162075926294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115159162075926294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/06/escalao-da-seleo-brasileira.html' title='Escalação da seleção brasileira'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115135363509419680</id><published>2006-06-26T17:26:00.000-03:00</published><updated>2006-06-26T17:27:16.456-03:00</updated><title type='text'>quase</title><content type='html'>Mas não é essa sua verdadeira preocupação, o que faz sua testa enrugar. Fundo em sua mente, ele divaga por outros paragens, pelo passado não tão próximo, quando ainda era um adolescente inseguro de seus talentos e, buscando afirmação, agia feito um velho intelectual romântico - o que, afinal de contas, não mudou muito. Eram anos de aprendizado, ou talvez devesse dizer de vício, quando não sabia qual era o verdadeiro comportamento de um artista e, na busca sedenta, cometeu erros demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tatsumi segura o cigarro entre os dois últimos dedos da mão esquerda. Dá uma breve tragada enquanto olha para o único canto vazio da sala.&lt;br /&gt;- Se eu fosse um homem estudado, talvez pudesse criar uma teoria ao redor de minha dança mas, como li muito pouco, preciso que alguém inteligente o bastante que me assista e dê sua opinião. Para além de meu corpo, somente posso sonhar.&lt;br /&gt;Menos pelo pedido, mais pelo modo como foi colocado, Helena imediatamente aceita, e ainda se responsabiliza pela divulgação do evento na Universidade e arredores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É Verão em Curitiba. O sol estoura os miolos. Mikio, protegido pelo ar condicionado, acordou às dez da manhã, lavou-se e tomou café – apenas café. Vestindo um quimono confortável, sentou-se frente ao computador e só o abandonou às duas da tarde. Durante esse tempo, fumou muito, tomou vários comprimidos, bebeu razoavelmente e produziu pouco. Ultimamente tem sido assim. Apesar de nunca antes ter sofrido de crise criativa, Mikio não se exaspera, acredita que hora menos hora ela retornará. O que precisa é manter a rotina. &lt;br /&gt;Mas não hoje. &lt;br /&gt;Vestido com casual elegância, obstada pela sua péssima postura, Mikio desiste do almoço &lt;br /&gt;- Miguel, pega o automóvel e me leva até o centro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel é magro, mede um metro e oitenta e tem modos reservados. Está a cinco anos com Mikio servindo de mordomo, cozinheiro, motorista, pajem e, eventualmente, guarda-costas. Além de sua versatilidade, Mikio gosta de seus modos tranqüilos. Mesmo o trânsito agitado não o faz se exaltar. O que é ainda mais impressionante em um dia quente como hoje. Não fosse o ar condicionado, seria insuportável circular pelo centro. &lt;br /&gt;Uma revoada de pombos chama a atenção de Mikio e provoca um estranho aperto em seu peito. Não é saudade pois nunca se deu bem entre aves e agitações juvenis; é um incômodo que surge na forma de um jovem aluno, belo demais para ser esquecido. &lt;br /&gt;Mikio pede que Miguel estacione junto à entrada do prédio da universidade. Desce e se despede através da janela aberta.&lt;br /&gt;- Pode ir para casa, eu pego um táxi mais tarde.&lt;br /&gt;Alguns carros buzinam reclamando da interrupção do trânsito. Miguel não se incomoda.&lt;br /&gt;- Quer algo especial para o jantar?&lt;br /&gt;- O que tiver está bom.&lt;br /&gt;Miguel sai lentamente, segurando atrás de si uma longa fila de ansiosos motoristas. Mikio admira a petulância de seu empregado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desistindo de subir imediatamente as escadas, Mikio compra um saquinho de pipocas e senta em um dos bancos da praça. Não come, antes alimenta os pombos que se aglomeram aos seus pés. Logo são tantos que parecem ferver a calçada. Desesperados pela comida, batem asas em movimentos de elevação misturando poeira com o ronco característico de seus peito emplumados. Quando a pipoca acaba, assim como vieram, se afastam-se esquecidos de quem os tratou. &lt;br /&gt;Inspirado por uma lembrança antiga, cruza a perna direita sobre a esquerda e apóia o cotovelo esquerdo sobre o joelho. Acende um cigarro e recurva ainda mais as costas enquanto olha uma paisagem inexistente. São prédios sem janelas e mulheres sem olhos. Entre elas, um jovem elegante, conduzindo um grande dogue alemão. Sua beleza incendeia as construções ao redor.&lt;br /&gt;- Morrer jovem, deixar um belo cadáver.&lt;br /&gt; Mikio ri das palavras saídas involuntárias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helena arruma suas coisas dentro da bolsa: agenda, canetas, bloco de anotações, batom, esmalte, escova, chave do carro. Confere uma última vez se telefonou para todos de sua lista antes deixar a mesa. Ao fechar a porta de seu gabinete, lembra que deixou o relógio na gaveta; volta correndo e o coloca no pulso.&lt;br /&gt;Pelos corredores, eventualmente cumprimenta um colega, um aluno, um funcionário. Diminui o passo ao passar pela secretaria. Garante que não tem ninguém por perto antes de entrar no banheiro ao lado. Corre para um dos boxes e abaixa a saia e a calcinha. Rapidamente troca o absorvente tomado pelo sangue escuro. Antes de sair novamente para o mundo, ajeita o cabelo e a maquiagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma antiga companheira de classe, professora de História da Arte, aproxima-se do banco onde Mikio está. Ela se veste de preto, usufluindo o chic fácil que a cor, ou a falta dela, propicia. Sua pele morena clara, muito gordurosa, brilha ao sol. Seus passos são apressados e inseguros. Antes que Mikio possa se esconder, ela o vê e grita.&lt;br /&gt;“Mikio!”&lt;br /&gt;Mikio levanta e estende a mão em cumprimento à velha conhecida.&lt;br /&gt;“Como está, Helena?”&lt;br /&gt;Ela não se resigna à formalidade e puxa dois beijos, um em cada lado do rosto.&lt;br /&gt;“Adorei seu último livro. Estou doida para que você lance o próximo. Quando vai ser?”&lt;br /&gt;Mikio balança a cabeça em um trejeito dispersivo, de quem não tem uma resposta certa para dar. &lt;br /&gt;“Você tem alguma coisa para fazer hoje a noite, Mikio?”&lt;br /&gt;“Ainda não sei.”&lt;br /&gt;“Hoje vai acontecer uma performance na Boate Azul, quer ir?”&lt;br /&gt;“Não sei se vou ter tempo.”&lt;br /&gt;A pele de seu pescoço, desagradavelmente solta, causa asco a seus dedos.&lt;br /&gt;“Olha, eu preciso ir embora mas, toma aqui, pega estes dois ingressos. Tenho certeza que você vai gostar!”&lt;br /&gt;Helena aproxima-se para dar dois beijos de despedida mas Mikio levanta e não lhe dá tempo. Ela percebe a desfeita mas aceita - um artista tem direito a certas excentricidades. Após um breve aperto de mãos, ela segue seu caminho. &lt;br /&gt;Mikio olha os ingressos: “A ressurreição do Feto/ dança de vanguarda”. Jogaria fora caso Helena ainda não estivesse por perto. Mesmo durante a adolescência nunca acreditou na possibilidade de vanguardas. Guarda os papéis com displicência no bolso traseiro da calça. É quando ouve uma voz de adolescente:&lt;br /&gt;“Vai lá, velho, passa a carteira senão te furo.”&lt;br /&gt;A lâmina toca o meio de suas costas, exatamente sobre sua coluna. Todas suas preocupações desaparecem: velhice, passado, crise criativa, tudo perde valor frente à possibilidade concreta da morte. Mais que rápido, Mikio tira do bolso a carteira e a entrega sem olhar seu agressor. Com profissional eficiência, o menino a revira e a devolve sem o dinheiro. &lt;br /&gt;“Agora, velho, se manda sem se virar.”&lt;br /&gt;Mikio, sofrendo de taquicardia, afasta-se seguindo as indicações. Pára quando alcança um telefone público. Com pressa, sem jamais olhar na direção em que fugiu o assaltante, liga a cobrar e pede que Miguel venha buscá-lo. &lt;br /&gt;“Pelo menos ele deixou meus documentos”, Mikio se consola estranhando a sensação de leveza que percorre seu corpo e seu espírito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helena entra na Boate Azul e não encontra nenhum dos bailarinos. Ao perguntar se já foram embora, descobre que estão os três no banheiro e não querem ser interrompidos. Decepcionada, ela olha desorientada para o teto e vê os spots direcionados para o centro do palco circular. Pensa no vício do artista de ser eternamente o centro das atenções; no mínimo um nascisismo compulsivo.&lt;br /&gt;Virando o rosto para o espelho em uma coluna, Helena ajeita o penteado. Pára ao sentir uma pontada no pé. Fica surpresa ao ver uma galinha branca, muito gorda, ciscando sobre o carpete preto.&lt;br /&gt;“O que você está fazendo aqui, franguinha?”&lt;br /&gt;A galinha não responde; dá meia-volta e corre para o meio das cadeiras. Helena sai pensando no modelo que irá vestir mais à noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O chão do banheiro está inundado e as luzes apagadas. Com uma caneca de latão, um adolescente semi-nu, vestindo apenas cueca, joga água fria nas costas dos dois homens nus à sua frente. Enquanto os adultos respiram provocando sonidos que lembram arrotos prolongados, o jovem tenta acompanhá-los. &lt;br /&gt;Em uma das paredes cobertas de azulejos brancos reina um desenho de um enorme pênis. Feito com tinta vermelha serve como símbolo totêmico. Todos os que frequentam o banheiro sabem que aquele é o lado masculino, o lado oposto é feminino; se bem que, quando a boate fica lotada, ninguém liga para tais convenções. &lt;br /&gt;Kazuo tem o rosto colado em um dos lados do escroto, Tatsumi lambe o outro lado. As peles estão arrepiadas. Mesmo sob a escuridão se percebe a ereção que toma conta de Karol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mikio entra e se esparrama no banco do carro. Sua respiração normalizou faz algum tempo levando embora a agradável sensação que havia em seu corpo. Miguel, seu secretário, é quem dirige. Idade indefinível mas certamente com mais de 35. Magro, mede um metro e oitenta e tem modos reservados. Está a cinco anos com Mikio servindo de mordomo, cozinheiro, motorista, pajem e, eventualmente, confessor. Ele corta o trânsito agitado com sua costumeira segurança, jamais se exaltando com os deslizes de outros motoristas – características daqueles que não têm medo de acasos ou conseqüências. &lt;br /&gt;Mikio olha para além das janelas do automóvel, onde pessoas transpiram fartamente ao caminhar pelas calçadas. O calor já dura duas semanas e não dá mostras de querer partir. Não fosse o ar condicionado, seria insuportável circular pelo centro. Mas não são esses seus pensamentos, ele divaga por outros paragens, pelo passado não tão próximo, quando ainda era um adolescente inseguro de seus talentos e, buscando afirmação, agia feito um velho intelectual romântico - o que, afinal de contas, não mudou muito. De todo modo, isso tende a mudar pois Mikio não suporta mais tantas máscaras, tantos subterfúgios que o levam a se esconder de seus desejos proibidos; sente que precisa matar a literatura para renascer.&lt;br /&gt;Interrompendo seus pensamentos, Mikio pergunta a Miguel se ele já foi assaltado.&lt;br /&gt;“Uma vez tentaram mas não levaram nada.”&lt;br /&gt;“O que você fez?”&lt;br /&gt;“Eu reagi dando pontapés e socos.”&lt;br /&gt;“Você não teve medo de morrer?”&lt;br /&gt;“Nem pensei.”&lt;br /&gt;Mikio não se impressiona com a história. A dureza da infância pobre gera homens de espírito forte. Também não estranha a discrição de Miguel não querendo saber o que lhe aconteceu. &lt;br /&gt;“Miguel, desliga o ar condicionado, por favor.” Mikio pede antes de abrir as janelas e deixar o calor entrar.&lt;br /&gt;Na calçada, um grupo de fisiculturistas passa brincando de empurrar um ao outro. São fortes e saudáveis, todos com idades próximas à de Mikio. Chamam a atenção tanto pelos gritos quanto pela beleza de seus corpos. É justo que mulheres e homens os admirem, tanta vitalidade causa inveja. Para eles que vivem seus músculos, a idade representa nada.&lt;br /&gt;“Miguel, quantos anos você tem?”&lt;br /&gt;“Quarenta e dois.”&lt;br /&gt;“Você parece mais novo que eu.”&lt;br /&gt;“Eu aparento a idade que tenho.”&lt;br /&gt;Mikio ajeita-se e senta ereto. Olha para si mesmo e confirma uma vez mais a própria decadência. 35 anos que pesam como 50. Decide-se a tomar alguma providência enquanto gotas de suor escorrem de seu rosto para dentro da camisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A crítica costuma rotular Mikio como um gótico moderno. Muito mais pelas histórias circulares e herméticas do que pela técnica de construção. Alguns temas são recorrentes: homossexualismo e mortes violentas; climas sombrios tanto na linguagem quanto nas ambientações; personagens banalmente caricatos em suas vidas prosaicas mas que, ao se verem frente a dilemas existenciais, assumem posturas trágicas.&lt;br /&gt;Um crítico chegou a dizer que Mikio era o Heminguay da Escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helena está em seu apartamento de dois quartos. Foi seu pai quem comprou e registrou em seu nome. As paredes repletas de livros contam a história de seu doutorado. Estudou muito para chegar onde está e finalmente ser aceita para dar aulas na universidade. Sempre foi assim, jamais alcançou objetivos sem lutar. Feia de rosto e de corpo, inteligente mas nada excepcional, tinha tudo para ser nada. Entende-se sua maior amiga sempre ter sido Malena, a atual esposa de Tatsumi. Ter a seu lado alguém pior armada para a vida servia de consolo.&lt;br /&gt;Helena estica os braços acima da cabeça em um agradável espreguiçar enquanto espera que o chá esfrie. Ainda tem algum tempo para se preparar, por isso não precisa ter pressa. Levanta, vai até a estante e pega um velho álbum de fotos. Folheia até achar uma foto de sete anos passados onde estão presentes os professores e alguns funcionários despedindo-se do ano letivo. Alí está Mikio, com seu olhar distante e parecendo desconfortável entre tantos risos animados. &lt;br /&gt;Avançando algumas páginas, entre um gole e outro, Helena encontra outra foto menos antiga, dessa vez de uma reunião em um restaurante. Mikio está sorridente ao lado de Jaime, um de seus alunos. Essa imagem foi tirada uma semana antes do escândalo que levou Mikio a abandonar a universidade e assumir a profissão de escritor.&lt;br /&gt;“Foi uma boa escolha.” Helena pensa ao fechar o álbum. “O mundo precisa mais de escritores de talento do que de professores viados.”&lt;br /&gt;Helena ri de seu comentário mal-caráter. É bom saber que pode ser preconceituosa; sinal de que ainda não está no último estágio do desespero humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado na poltrona da sala, Mikio observa a fumaça de seu cigarro ocupar o espaço. Não há vão, objeto, móvel, planta, que não seja tocado pela nuvem que se desfaz. Uma perfeita metáfora de sua obra sem futuro: romances feitos sob medida para bastardos do mundo, sobreviventes sem identidade racial, emocional, social, que abrigam-se na segurança da fantasia e aceitam felizes suas palavras vazias, idéias vagas, história sem fio, seus roteiros falando de sua vitalidade que se esvai. Mikio suspira antes de dar mais uma tragada. Miguel surge na porta da cozinha.&lt;br /&gt;“O senhor precisa de alguma coisa?”&lt;br /&gt;“Nós vamos sair daqui a uma hora, depois que eu tomar banho.”&lt;br /&gt;A novidade surpreende Miguel. Os croutons da salada já estavam esfriando.&lt;br /&gt;“O senhor não vai querer jantar em casa?”&lt;br /&gt;“Hoje não.”&lt;br /&gt;Miguel vai até o banheiro e começa a esfregar o interior da banheira. Usando uma escova de cabo longo e um detergente especial, ele rapidamente termina a limpeza; logo  está enxaguando e enchendo-a com água à quarenta e seis graus. Toalhas novas e um roupão de banho também são postos à disposição.&lt;br /&gt;Antes de chamar Mikio, Miguel coloca no aparelho de som um CD de Chet Baker.&lt;br /&gt;“O senhor quer uma roupa especial?”&lt;br /&gt;“Nada muito elegante. Nós vamos a uma performance de dança.”&lt;br /&gt;Miguel fecha a porta do banheiro e vai até seu quarto. Separa um par de sapatos pretos, uma calça preta, cinto preto e camisa de mangas compridas feita de algodão azul muito claro; para completar, passa nos pulsos um perfume: Minotauro, e vai até o quarto do patrão arrumar suas roupas. Deixa sobre a grande cama de casal os sapatos marrons, calça de linho bege, cinto marrom, uma camisa pólo bicolor: branca e cinza, e uma blazer creme. Para contrastar com seu perfume, asperge sobre as peças uma suave loção grega de águas marinhas. Olha-se no espelho para ter certeza que não vai estar mais elegante que seu patrão. Acaba trocando sua camisa por outra, também azul, mas de mangas curtas.&lt;br /&gt;Em um copo alto, Miguel serve uma generosa dose de água tônica, gelo picado, limão e um terço de dose de gim seco. A mistura não é para deixar bêbado, mas para melhorar o hálito. Para si, Miguel prepara um chá forte de hortelã, sem açúcar.&lt;br /&gt;Ao ser chamado, Miguel leva a bebida em uma bandeja de vidro. Mikio, terminando de se vestir, pega o copo e bebe de um só gole. Após conferir no relógio – nove horas – decide esperar mais um pouco. Tira do bolso os ingressos e lê mais uma vez o título da peça: “A Ressurreição do Feto/ dança de vanguarda”.&lt;br /&gt;“Você gosta de dança, Miguel?”&lt;br /&gt;“Prefiro dançar do que ver outros dançando.”&lt;br /&gt;“Há quantos anos você está comigo?”&lt;br /&gt;“Cinco anos mês que vem.”&lt;br /&gt;“Tudo isso? Eu mudei muito desde que você chegou?”&lt;br /&gt;“Pouca coisa.”&lt;br /&gt;“Em que eu mudei?”&lt;br /&gt;“O senhor escrevia mais horas seguidas.”&lt;br /&gt;“E o que mais?”&lt;br /&gt;“Só isso.”&lt;br /&gt;“Só?”&lt;br /&gt;“Só.”&lt;br /&gt;Mikio olha com desconfiança. Para cortar o silêncio, vai em direção à porta e pensa como cinco anos passaram depressa. É o tempo de sua saída da universidade e de sua separação de Joana. Nunca mais teve notícias dela depois que ela partiu para a Europa. Se ela tivesse ido menos magoada talvez trocassem cartas, mas a indignação por ser traída foi demais. Talvez ela se sentisse melhor se soubesse que aquela foi a primeira e a única experiência homossexual de Mikio - nada mais que fruto de uma curiosidade de autor.&lt;br /&gt;“Para onde, senhor?”&lt;br /&gt;“Boate Azul, mas não precisa ter pressa, o show só começa às onze. Dá uma volta pela cidade até faltarem dez minutos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tatsumi, em trajes sumários – lenço branco enrolado sobre os genitais -, orienta os funcionários da casa.&lt;br /&gt;“Até o fim da performance a casa estará aberta apenas para os que tiverem ingressos especiais e “habitués”. Não se vende destilados, não quero confusão. Os rapazes e as meninas que quiserem podem ficar circulando mas não quero ver ninguém se engraçando. Hoje, fora quem está de uniforme, todos são espectadores.”&lt;br /&gt;Uma das moças responsáveis pelos shows de sexo explícito dá um passo à frente para saber se, apesar de haver menos duas horas de casa aberta, os casais que não se apresentarem receberão seus cachês.&lt;br /&gt;“Fica traquila, ao invés de um casal de cada vez, vamos fazer com dois casais. E se mesmo assim não der tempo, todos vão ser pagos.”&lt;br /&gt;Um dos rapazes pergunta:&lt;br /&gt;“Que tipo de espetáculo o senhor vai apresentar?”&lt;br /&gt;Tatsumi coça o peito depilado.&lt;br /&gt;“Lembram que perguntei a todos quem gostaria de aprender dança contemporânea e ninguém aceitou?” &lt;br /&gt;Uma das moças se justifica.&lt;br /&gt;“Durante o dia estamos cansados demais para qualquer aula. Nós precisamos também ter tempo para nos divertir.” &lt;br /&gt;O travesti responsável pela apresentação dos “strip-teases”, apontando para o meio de sua bunda, brinca.&lt;br /&gt;“E o que a gente faz aqui, querida?”&lt;br /&gt;Após as risadas, Tatsumi retoma a palavra.&lt;br /&gt;“Hoje vamos apresentar uma nova dança.”&lt;br /&gt;Um dos seguranças, intrigado, pergunta.&lt;br /&gt;“O que é dança contemporânea, patrão?”&lt;br /&gt;O travesti faz uma série de movimentos caricatos, imitando uma aula de jazz, enquanto responde.&lt;br /&gt;“E isso aqui, meu bem!”&lt;br /&gt;Todos riem, menos Tatsumi.&lt;br /&gt;“Dança contemporânea significa dança do nosso tempo. Mas, para mim, é algo mais. É dançar no nosso tempo, com nossos corpo, sem estar preso ao passado ou ao futuro. É uma dança em eterna transgressão, sempre moderna.”&lt;br /&gt;Ninguém entende o que Tatsumi quer dizer, mesmo assim  a reunião é encerrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar das ruas bem iluminadas pelos postes com lâmpadas de mercúrio, poucas pessoas andam a pé - não é seguro. A maioria circula em automóveis e aproveitam as paradas em semáforos ou preferenciais para se olharem com atenção. É uma procura constante, como se a qualquer momento algo muito especial pudesse acontecer. O grande amor ou quem sabe a grande trepada.&lt;br /&gt;Mikio pensa se fez bem em sair. Cogita se não teria sido melhor ficar em casa. Seu editor está cobrando a tempos um novo texto. Se não produzir algo depressa vai precisar arranjar alguma outra fonte de renda. Escritor, descasado, ex-professor universitário; apesar de seu recém lançado terceiro livro ter sido bem recebido pela crítica e pelo público, não significa garantia de comida na mesa. E de qualquer modo é patético estar à caminho de um local público temendo ser visto como um escritor pervertido fora de contexto. Mas, em seu íntimo sabe porque saiu: deseja encontrar alguém que o elogie, que minta descaradamente chamando-o de belo, não apenas talentoso; mesmo viciado em sua lógica romancesca, acreditaria em qualquer apupo que o livrasse da verdade de seu passado e de envelhecimento precoce. Quem sabe um bailarino ou bailarina, com seus corpos musculosos e bem torneados, não caia de amores por sua romântica decadência?&lt;br /&gt;Amor, o que mais move o mundo além da esperança de amor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No camarim, ajudando seus bailarinos a se prepararem, Tatsumi pensa. É sua primeira coreografia fora da didática aprendida; isso causa tempestades em suas certezas. Apesar dos anos de pesquisas ao redor do corpo, estudando códigos repletos de movimentos padrões, repetitivos, memórias de tradições corriqueiras, foi exibindo sua pele e seu sexo em shows noturnos na boate que encontrou a verdadeira libertação; foi se mirando no delírio dos espectadores diante do obsceno que entendeu, finalmente, que a vida que se esconde nas diversas formas estabelecidas não é verdadeira; que a única maneira de realmente existir no tempo presente é abandonar todas as fundamentações físicas, emocionais, morais, sociais, e deixar-se morrer; na morte constante está o momento em que todas as convenções contraditórias deixam de ser impecilhos para, definitivamente, alçar o homem à condição divina do ato/verbo. &lt;br /&gt;Amarrando os panos que servem de sunga a Karol, o adolescente de 15 anos filho de Kazuo, 52, Tatsumi nota que a barriga do menino está plana. &lt;br /&gt;“Karol, você bebeu água o bastante?”&lt;br /&gt;“Estou cheio mas continuo tomando sem parar. E antes de vir bebi com Kazuo duas garrafas de cerveja para garantir uma boa diurese.”&lt;br /&gt;“Você não está bêbado, está?”&lt;br /&gt;“Completamente sóbrio.” Karol dá uma breve risada.&lt;br /&gt;Kazuo termina de depilar seu rosto usando uma pasta especial distribuída sobre papel manteiga. Para garantir que nenhuma parte foi esquecida, pede a ajuda dos olhos de Tatsumi.&lt;br /&gt;“Como estou, Tatsumi?”&lt;br /&gt;“Não tinha uma pele mais branca para mascarar seu rosto?”&lt;br /&gt;“Só se me pintasse com tinta a óleo.”&lt;br /&gt;“E porque não fez isso?”&lt;br /&gt;“Depois de seca racharia.”&lt;br /&gt;“Hummm, tudo bem. Mas, da próxima vez, seria bom tentarmos a tinta. Todo efeito inusitado é bom.”&lt;br /&gt;Karol, terminando de amarrar os panos que servem de figurino, pergunta a seu pai:&lt;br /&gt;“Pai, e se eu errar?”&lt;br /&gt;Kazuo bate nas costas de seu filho:&lt;br /&gt;“Acreditar faz parte de nossa essência de artistas. Somente através da fé cega as brasas sob nossos pés transforma-se em um tapete de flores. E além disso, como é possível errar se não há nada determinado?”&lt;br /&gt;Karol sorri e se desculpa:&lt;br /&gt;“Acho que sou assim porque tenho só quinze anos. Quando eu tiver cincoenta, como o senhor, vou ser mais seguro no que faço.”&lt;br /&gt;“Quando você tiver cincoenta, fazendo o que fazemos, você vai ser um corpo se decompondo em praça pública.”&lt;br /&gt;Pai e filho riem juntos. &lt;br /&gt;Tatsumi, passando lama em seus longos cabelos, gosta da idéia sugerida por um corpo apodrecendo em praça pública. Todos os conceitos revelados como vazios alimentos de vermes, proteína para a mãe terra. Tatsumi concentra-se para guardar na memória a idéia.&lt;br /&gt;Quase prontos para o espetáculo, alguém bate na porta do camarim. É Helena, a professora universitária, amiga de Malena e responsável pelas fotos que deverão documentar o espetáculo. &lt;br /&gt;Tatsumi levanta de seu lugar, olha-se no espelho ainda uma vez antes de se desculpar. “Não posso cumprimentá-la como devia porque minha maquiagem sujaria seu belo vestido.”&lt;br /&gt;Helena, sem conseguir esconder seu espanto com os figurinos e maquiagens aberrantes, busca manter seu ar de ignorante entusiasmo.&lt;br /&gt;“Eu só vim aqui para dizer que a casa está lotada. Muitos professores, muitos bailarinos e coreógrafos estão ansiosos para ver o que vocês irão apresentar. Até vieram comigo dois críticos de dança.”&lt;br /&gt;Karol olha surpreso para seu pai. A boate lotada significa mais de duzentos e cincoenta pessoas. Uma multidão infindável para eles que não esperavam mais que dez espectadores.&lt;br /&gt;Helena, tomando a surpresa como elogio à sua capacidade em promover o evento, acrescenta.&lt;br /&gt;“O senhor Mikio, o escritor, afirmou no prefácio de seu último livro que o novo é a semente brotada no excremento. Precisa crescer, tornar-se velho, dar flores e frutos e só então pode ser apreciado. Por algum tempo achei que havia errado convidando-o, mas, vendo a maneira como o artistas estão vestidos, acho que acertei.”&lt;br /&gt;Com uma forte exclamação, Tatsumi mistura entusiasmo e receio com a presença de tão ilustre figura.&lt;br /&gt;“Mikio sensei veio? Ele é o grande autor de nosso tempo.”&lt;br /&gt;Karol bate na mesa de maquiagem derrubando um pote de demaquilante.&lt;br /&gt;“Tatsumi me emprestou os três livros dele: “A Casa da Sombra Enlutada”, “O Sorriso Desfeito” e o melhor deles “Cabos de Guarda-chuva”. Seu modo de tratar a estranheza de existir no mundo, a contradição entre o velho e o novo, o choque entre tradição e moderno, é tudo o que escuto quando ouço meu pai e Tatsumi conversando. Mesmo que eu não entenda perfeitamente tudo isso, eu admir sua forma de contar histórias.” &lt;br /&gt;Kazuo desvia o assunto.&lt;br /&gt;“Ele tem pensamentos poéticos muito profundos. Por vezes soa artificial, mas acho que é isso que mais me agrada. Já vivemos cercados de realidade demais, não acha?” &lt;br /&gt;Helena fica confusa e muda de assunto; explica como conseguiu trazer tão ilustre figura.&lt;br /&gt;“Mikio é um antigo amigo. Por algum tempo foi meu colega de aulas na universidade.” Helena não se cabe em seu contentamento como se o mérito de conhecer uma celebridade transmitisse por osmose qualidades a sua própria personalidade. &lt;br /&gt;Tatsumi voltou a sentar-se em sua cadeira. Um grande nervosismo tomou seu ser. Ele não queria que seu primeiro espetáculo tivesse tanta repercussão. Preferia antes apresentá-lo algumas vezes para afinar seus conceitos cênicos e ganhar postura de palco.&lt;br /&gt;“Helena, você poderia nos dar licença?” Tatsumi pede com gentileza extremada.&lt;br /&gt;“Claro, eu sei que vocês precisam se concentrar. Mas, antes de eu sair, só me diz o que vocês vão fazer com essa galinha?”&lt;br /&gt;Tatsumi, buscando não ser ríspido diante de sua ansiedade, pede mais uma vez. &lt;br /&gt;“Por favor, está quase na hora.” &lt;br /&gt;Helena sai e deixa os três bailarinos em silêncio. &lt;br /&gt;Karol pergunta ao espelho. &lt;br /&gt;“O que vai ser de nós amanhã?”&lt;br /&gt;Tatsumi abaixa a cabeça. Por quê é tão difícil a transição das palavras ao ato? Por quê seu ato precisa ser tão evolvido com as palavras? Olhando para o menino Tatsumi supõe a possibilidade de cancelar ou, pelo menos retirar as parte mais fortes do espetáculo. Pela primeira vez teme que o ultraje seja demasiado acabando com qualquer possibilidade futura no mundo da dança. Findar antes mesmo de ganha velocidade...&lt;br /&gt;Kazuo, sem saber quais mas lendo dúvidas nos rostos de seus companheiros, levanta, vai até seu filho e o beija na boca. É como se um relâmpago eclodisse cegando a todos. Só voltam a ter controle sobre a razão quando o espetáculo termina. Os presentes permanecem em silêncio; o cadáver da galinha está entre as muitas pernas e sangue que cercam o palco; Kazuo, nu, já se levantou e enxuga o suor de seu rosto tranqüilo como se acabasse de sair do banho; Karol treme de emoção, ele não esperava que os sentimentos de se apresentar em público fossem tão fortes; Tatsumi, com os olhos baixos, tira o barro de seus cabelos passando os dedos entre eles. &lt;br /&gt;Nesse miasma de tempo, a coreografia toda se repete nas mentes embasbacadas. A maioria tem dúvidas sobre o que foi mais chocante: a cena em que o menino simula sexo com a galinha com a cabeça decepada? Quando o homem nu sobe nas costas do outro e urra de prazer? Ou quando os dois homens urinam sobre o menino que, feito um bebê abandonado, chora a plenos pulmões também se mijando. &lt;br /&gt;Os críticos, horrorizados, partiram pouco depois do início da apresentação. Logo que Karol arrancou a cabeça da galinha e respingou sangue por todos  os lados. Helena se desculpa com o escritor. Ela, como a maioria dos presentes, permanece de olhos baixos, constrangida:&lt;br /&gt;“Eu não sabia que ia ser assim, senão...”&lt;br /&gt;Antes que ela termine de falar, Mikio grita: “Maravilhoso!”, e começa a bater fortes palmas. “Finalmente um sopro de verdadeira vida neste mundo repleto de ecos de inépcia e ignorância!”&lt;br /&gt;A principio Mikio está sozinho, mas quando os presentes percebem quem aplaude, muitos aderem ao seu entusiasmo. Apesar de praticamente metade começar a sair, o prestígio de Mikio dá valor ao espetáculo fazendo com que retornem hipócritas.&lt;br /&gt;Karol, Kazuo e Tatsumi escutam estupefactos as palmas e os gritos. Nada em seus sonhos os preparou para isso. Tudo o que sabiam era que profanavam áreas proibidas pelo julgamento dos homens comuns. Cada movimento, cada gesto consagrava a vitória do caos, da incongruência, da podridão, da morte, sobre a ordem imposta pela lógica. Toda a obra foi criada como uma gestação onde o feto cresceu predito como um profeta do apocalipse que devia nascer morto. &lt;br /&gt;Quando Mikio sobe no palco todos curvam-se em agradecimento.&lt;br /&gt;“Quem de vocês é o coreógrafo?” Mikio pergunta.&lt;br /&gt;“É o senhor Tatsumi.” Karol responde.&lt;br /&gt;“Vocês três são uma dádiva divina, mas o senhor, senhor Tatsumi, é praticamente um Deus. Que outro ser tem o poder de criar algo verdadeiramente novo? Hoje eu estava triste, desiludido com a degeneração das artes, principalmente a literatura; estava tão melancólico que não percebi que o mal de que me lamentava era justamente a renovação. O senhor, senhor Tatsumi, fez da decadência, do escândalo, da fealdade, algo pulsante, muito mais que qualquer obra minha ou trabalho realizado por artista vivo. Na verdade, só agora me dou conta que verdadeiramente o senhor, senhor Tatsumi, é o único artista vivo! Só o senhor souber ver que o inimigo da beleza é sua maior força, sua única possibilidade de sobrevivência é uma gloriosa morte. O senhor me deu esperanças!”&lt;br /&gt;Tatsumi curva-se em lágrimas. &lt;br /&gt;As palavras de Mikio são acompanhadas por todos os presentes. Isso não significa que o espetáculo tenha sido aceito como algo a ser louvado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parte 2&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o espetáculo, a Boate retoma sua vida normal. As dançarinas e dançarinos ocupam o palco com suas poses sensuais e suas caras e bocas conhecidas. Uma dupla mais animada imita o gesto de Karol fingindo um estrangular o pênis do outro. Logo estão excitados e começam a trocar carícias mais intensas. Não demora estão em pleno coito. &lt;br /&gt;A maioria dos que vieram, vieram apenas para assistir a apresentação e já partiram, os poucos que ficaram reúnem-se em uma mesa, longe da música, com a nudez promíscua mantida à distancia.&lt;br /&gt;“Senhor Mikio, é uma honra sua presença.” Tatsumi agradece uma vez mais. “Eu tenho certeza que se o senhor não intercedesse a nosso favor, seríamos considerados apenas mais um bando de loucos.”&lt;br /&gt;“Se aplaudi e me entusiasmei é porque vi mérito no que fizeram. Mas, se não for ofensa, gostaria de saber em que se baseou para montar um espetáculo tão instigante?”&lt;br /&gt;Antes que Tatsumi fale, Helena toma a frente e diz categórica.&lt;br /&gt;“As verdades do artista são repletas de porões escuros. Mas essa peça é, com certeza, um libelo contra a morte passiva.”&lt;br /&gt;Mikio olha com desagrado calando Helena. Ela se recolhe ao seu cigarro. Tatsumi passa os dedos entre os fios de seus cabelos enquanto fala pausadamente.&lt;br /&gt;“Se eu fosse um homem estudado, talvez pudesse criar uma teoria ao redor de minha dança mas, como li muito pouco, preciso que alguém inteligente o bastante que me assista e dê sua opinião. Para além de meu corpo, somente posso sonhar.”&lt;br /&gt;Percebendo não adiantar insistir, Mikio mudou de interlocutores. &lt;br /&gt;“E vocês, porque aceitaram apresentar-se.” Mikio se dirige à Kazuo e Karol. “Imagino que não deva ter sido fácil.”&lt;br /&gt;Kazuo é quem responde. &lt;br /&gt;“Estar em constante gestação é o modo de ser do artista.”&lt;br /&gt;Mikio vira-se para Karol que, após uma olhadela para seu pai e para Tatsumi, dá sua versão.&lt;br /&gt;“Tatsumi me disse que sou livre porque sou ignorante das profundezas da arte. E eu acho que deve ser assim mesmo. Kazuo sempre abre minhas mãos dizendo que dedos recurvados aprisionam o movimento; Tatsumi também repete para me dobrar inteiro para que nada escape; aberto e fechado em conflito... demorei para entender que de todo jeito é certo, de todo jeito funciona. O senhor não concorda?”&lt;br /&gt;Mikio é pego de surpresa. Seu sorriso reflete sua ignorância com relação aos conceitos de movimento. Para ganhar um pouco de tempo antes de responder, acende um cigarro e traga profundamente; continuando despreparado, toma um longo gole de vinho. Tatsumi intervém. &lt;br /&gt;“Karol, que falta de respeito! O senhor Mikio não tem obrigação de apreciar técnicas corporais.”&lt;br /&gt;Mikio, sorrindo, levanta-se.&lt;br /&gt;“Não, Karol está certo; eu é que provo minha ignorância sobre os mistérios do corpo não sabendo o que responder. É uma falha minha que deve ser consertada com urgência. De todo modo é tarde e preciso descansar. Amanhã acordo cedo para trabalhar; mas gostaria de continuar nossa conversa outro dia, se não for incômodo.” Olha nos olhos de Tatsumi restringindo um convite que deveria se dirigir a todos. “Talvez amanhã, no final da tarde.”&lt;br /&gt;“No final da tarde? Infelizmente não posso. Minha esposa irá ao médico e eu devo acompanhá-la. Quem sabe depois de amanhã?”&lt;br /&gt;Mikio fica decepcionado ao descobrir que Tatsumi é casado, mas como não seria educado voltar atrás, marca o encontro mesmo assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sozinhos no automóvel, Mikio pergunta a Miguel o que achou do espetáculo.&lt;br /&gt;“Podia ser menos nojento, mas se fosse, talvez eu não tivesse gostado.”&lt;br /&gt;“Você achou os bailarinos bonitos?”&lt;br /&gt;“Pessoas que têm a coragem de fazer em público o que eles fizeram, não precisam da beleza para chamar a atenção.”&lt;br /&gt;Mikio concorda enquanto acende o último cigarro da noite. Talvez seja interessante o encontro com o coreógrafo de cabelos compridos. Ele, apesar de não serrealmente gracioso ou belo, tem olhos profundos; o que é bem mais do que a maioria possui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É quase três da manhã quando Kazuo e Karol entram em sua pobre casa. A esposa de Kazuo está dormindo no único quarto da casa. Seu corpo envelhecido e franzino  acomoda-se entre os  lençóis guardando um dos lados para Kazuo. Sua  respiração é levemente ofegante, fruto de uma recente gripe. Ela acostumou-se com os horários do marido e do filho; eles são artistas, mais que dinheiro, precisam do desregramento para viver. Ela, no papel de mãe e esposa, apenas aceita. &lt;br /&gt;Kazuo e Karol conversam com a porta da cozinha fechada. &lt;br /&gt;“O que você achou do escritor?” Karol pergunta ao pai que esquenta no fogão um pouco de chá.&lt;br /&gt;“Olha demais para nossos corpos, como se quisesse roubá-los.”&lt;br /&gt;Karol sente simpatia pela figura do escritor. Nele existe algo que ele suspeita ser complementar. Aa idéia da mnte intelectual completando o corpo do bailarino.&lt;br /&gt;“Ele tem só trinta e cinco anos. Está muito acabado, mas eu entendo. Escritores vivem eternamente na sombra de si mesmos. Não existe profissão mais cheia de mistério e desconforto. Me pareceu a função ideal para o senhor Mikio. Ele tem ares de quem seria príncipe no inferno.”&lt;br /&gt;Kazuo ajeita a toalha antes de colocar as xícaras e os pires. Chacoalha o pote de açúcar e verifica que tem muito pouco. Devolve à estante. Olha atrás das latas de mantimentos e as sente vazias. Lembra que o mês venceu e ainda não providenciou as compras necessárias. O único alimento que encontra é um pacote de bolachas, uma caneca de arroz, um pequeno tablete de caldo de carne. Ainda bem que sua horta está pronta para a primeira colheita, caso contrário passariam fome. Por um momento pensa em pedir ajuda a Tatsumi, mas a pergunta de Karol o salva da realidade.&lt;br /&gt;“Pai, o que o senhor sentiu enquanto se apresentava?”&lt;br /&gt;Um sorriso sereno aflora no rosto de Kazuo. As dobras preocupadas desaparecem dando vez ao artista sonhador.&lt;br /&gt;“Vivi plenamente mais alguns minutos. Se bem que, cada vez mais, acho que vivo a dança.” Kazuo pensa um pouco e se corrige. “Enquanto minhas células morrem outras nascem, mas meu envelhecimento é a prova de que a vida está sendo derrotada. O certo é que morro a dança... em todos os sentidos.”&lt;br /&gt;Para Karol o conceito de vida e morte, dentro e fora dos palcos ainda é algo distante. É adolescente e pleno de vontades; seu grande desejo é que existam mil facetas no viver. Se as palavras ainda não o corromperam, também não foram capazes de liberta-lo.&lt;br /&gt;Enquanto Kazuo senta em uma das cadeiras, Karol insiste no assunto. Excitado demais, não está disposto a dormir tão cedo.&lt;br /&gt;“Em sua primeira apresentação o senhor se emocionou?”&lt;br /&gt;Kazuo entende onde seu filho quer chegar com a conversa. Servindo-se de chá, prova o calor da bebida entre os dedos antes de responder.&lt;br /&gt;“Comecei a dançar velho, com o dobro da sua idade. Não que eu ache que isso tenha sido uma infelicidade. As coisas acontecem quando é certo que aconteçam. A primeira vez que olhei o público de frente tinha trinta e dois anos. Era novo demais para não começar, mas velho demais para me deslumbrar.” Kazuo serve mais chá nas duas canecas de latão. “Nós somos feitos de barro, somos mutáveis podendo ser argila, podendo ser louça, podendo ser terra.”&lt;br /&gt;Karol agradece aos céus antes de beber o primeiro gole, logo depois diz sem esconder o embaraço.&lt;br /&gt;“Gostei da sensação de ser aplaudido. Me senti alguém de valor.”&lt;br /&gt;“É bom que você tenha aproveitado o momento. Só espero que, da mesma maneira, você saiba aproveitar todos os outros momentos que comporão sua vida. Parecendo bons, parecendo ruins.”&lt;br /&gt;“O chá está quente; está bom.”&lt;br /&gt;Kazuo sorri feliz com o esforço de Karol em parecer maduro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helena não consegue dormir. Apesar de ter tomado dois comprimidos calmantes, a frustração por não entender o que se passou durante a apresentação na Boate Azul a corrói. Aquelas cenas, aqueles movimentos tortos sem linhas definidas, os urros, a sexualidade agressiva e animalesca, tudo lhe pareceu feio e deselegante. Como pode aquilo ser arte? &lt;br /&gt;Olhando para as paredes iluminadas pela luz do abajur, reconhece as figuras nos cartazes enquadrados: James Dean, Guernica, Miró, Bresson, Limite; representantes da beleza que sempre acreditou ser o objetivo da vida na arte.&lt;br /&gt;Helena desiste de dormir, levanta e vai até seu laboratório fotográfico. Sob a luz vermelha, filme a filme, revela as cenas estáticas que retratam o espetáculo. A cada imagem que surge menos beleza vê.&lt;br /&gt;“É horrível, exatamente o contrário de tudo o que é belo... exatamente o contrário! Parecem fantasmas sem vida...”&lt;br /&gt;De repente, naquele ambiente apertado, Helena entende o que se passou. Enquanto seca as fotografias, alegra-se ao ler a revolta contra a carne, o desfalecer do corpos, a destruição do instrumento da dança. Exatamente como os pintores de vanguarda duvidando do sustentáculo de suas obras, aqueles bailarinos punham em questão o que gera a vida, onde está a vida. Aquelas caretas, estupros, nudez irregular, dejetos, e principalmente a morte, nada mais eram do que a negação da beleza da dança instituída. A aparente falta de coreografia na execução de conceitos flutuantes é a libertação do corpo de sequências pré-determinadas, prisioneiras do passado. Ela exclama sozinha.&lt;br /&gt;“Tatsumi e seu grupo são revolucionários!”&lt;br /&gt;Sem tempo para descanso, Helena vai até o computador redigir um texto explicativo aos idiotas que não conseguem pressentir o novo, o inusitado, a verdadeira criação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto parece saído de uma revista de decoração; secamente preenchido por móveis de linhas retas e tecidos em vários matizes de cinza. Sem se importar com os tique e taques do relógio sobre a cômoda de cabeceira, Tatsumi dorme abraçado ao corpo nu de Malena, sua esposa. Ela tem as costas quentes que aquecem sua alma. Pouco se falam, quase não se vêem; as poucas horas de aconchego pele à pele, todos os dias, é o que reafirma o relacionamento; o sexo é raro e pouco intenso. &lt;br /&gt;Tatsumi sonha com o passado, com a noite que entrou pela primeira vez em uma escola de dança e perguntou o que era necessário para ser aceito.&lt;br /&gt;“O dinheiro da matrícula.” A secretária gorda respondeu sem esconder o riso pela presença do jovem maltrapilho.&lt;br /&gt;“Então eu começo hoje mesmo.”&lt;br /&gt;“Tudo bem. Você quer fazer ballet clássico, dança moderna, dança contemporânea ou flamenco?”&lt;br /&gt;“Tenho vinte e um anos, preciso me apressar se quiser alcançar os que saíram na minha frente. Quero assistir aulas de dança moderna, depois vou para a dança contemporânea.”&lt;br /&gt;“Muito bem, pelo menos não vai precisar de sapatilhas.”&lt;br /&gt;Após encher de rabiscos uma ficha de inscrição e entregar o pagamento do primeiro mês de aulas, Tatsumi pode entrar na grande sala feericamente iluminada. Haviam poucos homens, muitas mulheres e diversos rapazes cheios de risos afeminados. &lt;br /&gt;Tomando um dos lugares mais à frente, sem se importar com os risos, Tatsumi pôs-se a imitar os gestos da professora. Que lhe importava estar usando calça de tergal larga, camiseta de algodão e unhas mal cortadas, tudo o que sabia era que tinha tanta capacidade quanto qualquer um dos presentes, e provavelmente mais pois dentro de si tinha a nítida imagem do que deveria ser uma verdadeira dança. E isso se fez claro quando, anos depois, após desaprender os passos que naquele dia aprendia, mostrou-se ao público desavisado.  &lt;br /&gt;Mas, nesse sonho, sua inconsciência vaga por diversos tempos passados, para uma casa velha, com as paredes descascando, o  piso solto, sofás rasgados e almofadas mofadas. Frente à Tv ligada, Tatsumi imita jocosamente os passos de Giselle reclamando para si uma verdade que a mais ninguém ali presente interessa.&lt;br /&gt;“Buscar as alturas? Isso é porcaria sentimental. Quem realmente caminha quer a segurança da terra, ainda mais quando a tempestade vem e transforma a terra em lama.”&lt;br /&gt;Jun, cortando as unhas dos pés esquálidos, retruca com sua voz fraca e afeminada.&lt;br /&gt;“Eu prefiro voar para não pisar na lama.”&lt;br /&gt;Tatsumi levanta e finge um salto. Cai como se atingido por um tiro. No chão, com o rosto esfregando no tapete velho, diz poético:&lt;br /&gt;“Andorinhas no ovo sonham que estão voando; homens caminham e sofrem com a gravidade; seus corpos curvam, suas pernas arcam, seu cérebro é a sola de seus pés.”&lt;br /&gt;Foi Franck, um estudante de pintura e pequeno traficante, quem começou a história das apostas e, descuidadamente, deu a desculpa para Tatsumi iniciar-se na dança em palcos.&lt;br /&gt;“Então porque você não larga mão de querer ser poeta e mostra o que é dança?” O desafio veio em tom de chacota.&lt;br /&gt;“Eu sou um poeta, o que já é muito! Mas, se eu quisesse dançar, seria mais verdadeiro que essa gente plastificada.”&lt;br /&gt;“Aposto que não.” Jun entra na brincadeira.&lt;br /&gt;Tastumi, sério, pára de pular e bate no peito.&lt;br /&gt;“Então, está apostado. Se dentro de quinze anos eu não dançar uma dança mais real, nunca mais discordo de suas idéias.”&lt;br /&gt;“Quinze anos? É muito tempo!” Franck ergueu um brinde ao tempo.&lt;br /&gt;“Para quem vai viver eternamente por ter revelado ao mundo o novo, é menos que um segundo.” Tatsumi salta sobre o sofá e cai rolando. Quando pára, olha para seus amigos e diz insinuando profundidade. “Toda linguagem é mentirosa, somente o momento presente se realizando reconduz o homem ao êxtase da criação. Isadora Duncan foi uma verdadeira dançarina, assim como Rimbaud foi um verdadeiro poeta. Nesta vida, o que vale é a verdade de nossos sentidos, não importa a arte!”&lt;br /&gt;Desde o princípio o feto estava lá, mas Tatsumi ainda precisou passar por muitas velhas salas de danças até descobrir o espírito em eterno movimento e finalmente abandonar ídolos de além-mar.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Quando o relógio toca, a pequena mão cai depressa sobre ele. O sorriso nos lábios adormecidos de Tatsumi revelam a Malena que o espetáculo foi um sucesso. Ela pensa enquanto veste uma camiseta: “O que vai ser do futuro?”&lt;br /&gt;Com cuidado, sobe em sua cadeira de rodas e vai até o banheiro. Logo sua barriga vai estar tão grande que serão preciso duas empregadas para tirá-la da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às nove da manhã Mikio está de pé, pronto para sair. Em uma das mãos tem o endereço de uma academia de musculação localizada a três quadras de sua casa, na outra carrega uma bolsa pequena contendo um agasalho, camiseta e tênis. Miguel está ao seu lado pronto para leva-lo.&lt;br /&gt;Antes de mais nada Mikio é conduzido à uma sala pequena onde é superficialmente analisado. Tendo em mãos o atestado médico, volta à recepção e encontra pela primeira vez seu orientador. Um rapaz de pouco mais de vinte anos, vestido com uma bermuda ciclista, camiseta colada no corpo e tênis de maratonista; tudo para evidenciar os músculos alongados e volumosos.&lt;br /&gt;“Muito prazer. Meu nome é Ralph e vou cuidar de você. Mas, para que seu trabalho renda, primeiro preciso saber o que você quer aqui.”&lt;br /&gt;A maneira como Ralph apalpa os braços, barriga e pernas de Mikio o incomodam. Em parte pela liberdade tomada, em parte pelas cócegas na flacidez.&lt;br /&gt;“Desculpe, não entendi.”&lt;br /&gt;“Você quer emagrecer, ficar forte, ficar saudável, ficar bonito? O quê?”&lt;br /&gt;“Acho que tudo isso.”&lt;br /&gt;“É assim que eu gosto. Então, primeiro de tudo, vamos fazer uma avaliação para ver quanto você aguenta carregar. Depois, enquanto você escolhe uma roupa mais adequada para se exercitar, eu monto seu programa de treinamento.”&lt;br /&gt;Mikio olha para seu conjunto amarelo ovo e verde limão.&lt;br /&gt;“O que tem minha roupa?”&lt;br /&gt;“Hummm, deixa eu ver. Agasalho de fibra sintética, tênis de sola dura, meia combinando com a faixa na cabeça?... acho melhor você gastar um pouquinho para ficar na moda. Daqui a três meses, quando você estiver forte e bonitão, vai ver que valeu.”&lt;br /&gt;“Eu começo hoje?”&lt;br /&gt;“Já começou!” &lt;br /&gt;Após um aquecimento de dez minutos, Mikio está esfalfelando-se sob uma barra com trinta quilos de manilhas. Sente fortes dores nos músculos do peito. O Riso sardônico de Ralph não o ajuda a fazer força.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel passa cuidadosamente o aspirados por todos os cantos da casa. Nos vãos onde o aparelho não alcança, usa um pano úmido para extrair o pó. Em menos de vinte minutos termina e vai para o banho. Sentado em uma banqueta baixa, deixa que a água fria bata em seu ombro. Pensa no que irá preparar para o almoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Karol não dormiu direito. Tudo por conta de esperar o jornal da manhã; mas não havia crítica alguma ao espetáculo. Foi sua mãe quem o lembrou que o show terminou tarde e, por isso, precisaria esperar mais um dia.&lt;br /&gt;“Não sei se agüento, mãe.”&lt;br /&gt;“Claro que agüenta, filho. A vida é feita de esperas. O que não quer dizer que você precisa esperar mais para tomar seu café.”&lt;br /&gt;“Onde está Kazuo?”&lt;br /&gt;“Seu pai saiu cedo. Começaram hoje as aulas na escola.”&lt;br /&gt;“Não dá para entender. Todos dizem que Kazuo é um bailarino muito talentoso mas, mesmo assim, ele precisa das aulas de educação física para viver.”&lt;br /&gt;“Para vivermos. Se não fosse o emprego na escola nós estaríamos passando fome.”&lt;br /&gt;Karol olha o que tem sobre a mesa: pão caseiro, margarina e ovos mexidos, apesar de pouco, emocionado, agradece mentalmente. &lt;br /&gt;“Nossa vida vai mudar. Se as críticas forem positivas, eu e papai seremos contratados para dançarmos em muitos teatros importantes, ganhando ótimos cachês.”&lt;br /&gt;“Espero que sim.”&lt;br /&gt;Ela serve chá para ela e para Karol antes de sentar-se. Já é tarde para tomar o café da manhã mas, para pessoas pobres, é bom atrasar-se pois elimina o almoço.&lt;br /&gt;“Mãe, porque a senhora nunca vai assistir os espetáculos de Kazuo?”&lt;br /&gt;“Eu fui duas vezes. Não gostei nem na primeira, nem na segunda.”&lt;br /&gt;“Você não gostou de nada?”&lt;br /&gt;“Antes de conhecer Tatsumi seu pai dançava como uma mulher, depois, ele não imitava mais, ficou mais estranho pois ele havia se transformado em uma mulher.” E para justificar sua opinião, ela continuou. “Eu não sou estudada. Mal sei ler. O que faria assistindo a essas trabalhos estranhos em que seu pai se envolve?”&lt;br /&gt;“Seria bom para a senhora. Nossa dança trata de sentimentos, não de racionalidades.”&lt;br /&gt;“Está vendo? Não entendi nada do que você disse.”&lt;br /&gt;Karol sabe que sua mãe não gosta de peças modernas, o mais que faz é assistir montagens de textos tradicionais, de preferência comédias românticas. Rir é seu principal passatempo.&lt;br /&gt;“Mãe, quando nós tivermos dinheiro de sobra, qual vai ser a primeira coisa que você vai comprar?”&lt;br /&gt;“Mais um bujão de gás. É horrível precisar carregar esse peso todo nas costas toda vez que acaba. E sempre acaba quando estou cozinhando e não posso esperar você ou seu pai chegarem para fazer o serviço pesado.”&lt;br /&gt;“É um desejo de pobre.”&lt;br /&gt;“Nós somos pobres.”&lt;br /&gt;Karol sorri apesar de sua mãe manter-se séria. Ele sabe que esse é seu tipo de humor, e com tantos anos de convívio, aprendeu a apreciá-lo. &lt;br /&gt;“Tem mais pão, mãe?”&lt;br /&gt;“Pra você não. O que ficou no saco é para seu pai comer mais tarde.”&lt;br /&gt;“Ainda tenho fome.”&lt;br /&gt;“Vai dar uma volta que passa.”&lt;br /&gt;Ela bebe um gole de chá sem açúcar, sinal de que o dinheiro do mês chegou ao fim. Seu peito sofre um aperto por obrigar seu menino a passar por tantas privações. Karol não reclama, acostumado que está, mas isso não alivia em nada - pelo contrário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a campainha toca, Miguel baixa o fogo do cozido e vai atender. Não é normal visitas nesse horário, a não ser que o patrão tenha sido mais uma vez assaltado. Ao abrir a porta, um homem baixo, com bigode farto pergunta:&lt;br /&gt;“Você é o Miguel?”&lt;br /&gt;“Sou eu.”&lt;br /&gt;“Seu patrão está chamando no táxi.”&lt;br /&gt; Miguel inicia o passo que é interrompido pelo motorista.&lt;br /&gt;“Ele não tem dinheiro, você paga a corrida?”&lt;br /&gt;Certo de que Mikio foi assaltado, revirando nos bolsos, Miguel nada encontra. Corre até seu quarto e pega o necessário. Entrega ao motorista e vai ver o que aconteceu.&lt;br /&gt;“O senhor está bem?”&lt;br /&gt;Mikio dá uma risada e estende a mão.&lt;br /&gt;“Miguel, me ajuda que eu não estou conseguindo andar. Acho que fiz força demais na academia.”&lt;br /&gt;Miguel, aliviado, estende a mão para ajudá-lo enquanto o motorista olha a certa distância achando cômico aquele homem todo doído. &lt;br /&gt;Ao tentar se apoiar nas pernas, Mikio quase vai ao chão. É a força de Miguel que impede.&lt;br /&gt;“Você vai ter que levar ele no colo. Eu também fico assim quando jogo futebol. É a idade.”&lt;br /&gt;Seguindo o conselho do motorista, Miguel, sem cerimônias, levanta Mikio e o leva para dento de casa. &lt;br /&gt;“Onde o senhor quer ficar?”&lt;br /&gt;“Me leva para o computador. Acho que vou começar o meu novo livro contando como se sente um homem saudável ao tornar-se inválido.”&lt;br /&gt;“O senhor não está inválido.”&lt;br /&gt;“Ainda bem que não, mas se estivesse, acho que sensação seria parecida. De todo modo, sou quase um inválido corporal e um completo paraplégico emocional.”&lt;br /&gt;O taxista, após os costumeiros agradecimentos, encosta a porta da sala e vai embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Karol caminha pelas vielas que levam de sua casa à praça do bairro, pensa na imensa satisfação que irá sentir podendo viver de apresentações e viagens. Tendo nascido pobre acostumou-se a privações e não tem grandes necessidades. Mesmo que a arte lhe renda pouco, com o bastante para comer, beber e morar já está satisfeito. Ele não é como o senhor Tatsumi que, apesar de suas palavras falarem muito da morte e de seu passado de carestia, gosta do luxo e da elegância fabricada. Não que desgoste dele, pelo contrário, tem profunda admiração pela sua criatividade incontida em palavras. Foi Tatsumi quem estimulou-o a ler; e foi a leitura de muitos livros que avisou-o das dificuldades da profissão que escolheu. &lt;br /&gt;São poucos os artistas que conseguiram fazer fortuna através da arte; e mesmo seu maior ídolo: Rimbaud, antes foi poeta, e mais tarde, quando quis enriquecer, abandonou seu talento e partiu para as costas da África para ser mais um trabalhador sacrificado. Karol ri da ironia. Rimbaud sofreu e morreu na miséria apesar de ter deixado a poesia renegada. Kazuo está certo, deve-se viver como a lagarta no casulo, sofrendo a fome e a escuridão pois apenas a sensação viva da morte transforma o corpo e o espírito.&lt;br /&gt;Ao chegar à praça, um grupo de adolescentes desempregados joga futebol. Karol é convidado a ocupar o gol. Ele tira a camisa, a calça e o sapato, ficando apenas de cuecas antes de se posicionar sob as traves.&lt;br /&gt;Um dos meninos pergunta a outro:&lt;br /&gt;“Ele é louco? Ficou pelado pra jogar!”&lt;br /&gt;“Karol não quer sujar e estragar suas roupas. Ele e seu pai são artistas e gastam o dinheiro montando seus espetáculos. Não sobra muito para gastar com vestimentas.”&lt;br /&gt;“Isso é estupidez.”&lt;br /&gt;“Pode ser, mas veja como ele sorri no meio da miséria em que todos nós vivemos. Apesar de toda a privação ele está sempre alegre, sonhando. Eu queria ter talento para ser assim estúpido.”&lt;br /&gt;Com uma ponta de inveja, o menino interrompe a conversa e sai correndo na direção do meio do campo improvisado.&lt;br /&gt;“Deixa ele, vamos jogar bola.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao terminar sua aula, Kazuo chama as crianças – meninos de dez anos – e pede que dêem suas opiniões. Desacostumados com tamanha liberdade, não respondem. Kazuo insiste:&lt;br /&gt;“O silêncio significa que não gostaram de minha aula?”&lt;br /&gt;Eles se olham. Um dos meninos ergue o braço e fala pelos demais.&lt;br /&gt;“Não é isso, professor, mas é estranho. Os outros professores pedem pra a gente fazer coisas que a gente está acostumado: pular o banco, por exemplo; nenhum deles nunca falou pra gente respirar como uma flor brotando no galho.”&lt;br /&gt;“Vocês não sabiam que as flores respiram? Ou será que nunca viram uma flor em um galho?”&lt;br /&gt;Outro menino responde.&lt;br /&gt;“Nós sabemos o que é uma flor, e sabemos que elas também respiram. Nós já temos dez anos!”&lt;br /&gt;“Oh, claro, desculpem. Mas me digam, se eu pedisse para vocês pularem um banco, ficariam felizes?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“Porquê?”&lt;br /&gt;“Ia ser normal pular um banco.”&lt;br /&gt;“Então, respirar como uma flor que brota em seu galho, por não ser normal, os torna também infelizes, ou apáticos?”&lt;br /&gt;“Não, é até legal, mas é que é diferente.”&lt;br /&gt;“Quantos de vocês não conseguiram imaginar seus corpos respirando como uma flor?” Ninguém se manifesta. “Pois então, qual foi o problema?”&lt;br /&gt;Vários gritam juntos.&lt;br /&gt;“Nós não somos flores!”&lt;br /&gt;Kazuo quase deixa escapar uma gargalhada. Respira pausadamente para não constranger os meninos.&lt;br /&gt;“Meus pequenos homens, vocês estão vivos igual à qualquer flor. Imaginar é um dom dos que vivem, quem vai dizer que nós não somos uma flor imaginando ser gente tentando respirar como uma flor brotando?”&lt;br /&gt;As crianças começam a rir e Kazuo, atrasado para sair e pegar sua condução para casa, despede-se e os dispensa. Ao mesmo tempo que acha triste ver crianças preocupadas com masculinidades precoces, emociona-se com suas capacidades de entender o que diz. Se os adultos conservassem tanta inteligência, que belo jardim teríamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tatsumi acorda com barulhos estranhos na cozinha. Fica intrigado pois deveria estar sozinho em casa. Malena nunca volta cedo, a não ser que tenha passado mal. Será que aconteceu algo com seu filho? &lt;br /&gt;Nu, Tatsumi levanta e vai ver quem é. &lt;br /&gt;Fora do quarto, onde as cortinas estão fechadas, a luz solar rebrilha. Cada cômodo, cada móvel, está cheio de sol. O cheiro de café se espalha. Ao abrir a porta da cozinha, Tatsumi encontra o gato vira-latas saindo detrás da pia com um rato na boca.&lt;br /&gt;“Oh, desculpe, irmão gato, não sabia que estava matando.” E dá meia volta rumo ao banheiro. Liga o chuveiro mas, antes de se molhar, volta para a cozinha e vê o gato sob o beiral da lavanderia, ainda com sua refeição agonizante. “Esqueci de me desculpar com você também, irmão rato. Desculpe-me por interferir em sua morte.”&lt;br /&gt;O gato não liga, muito menos o rato. Em um piscar de olhos eles desaparecem entre o tanque e a máquina de lavar roupas. Tatsumi volta para seu banho.&lt;br /&gt;Enquanto lava os cabelos e tira os restos de lama que ainda restaram nos fios, Tatsumi movimenta vagarosamente seu corpo para aproveitar a sensação da água que escorre. Cada vão, cada ponto é alcançado sem pudor ou impedimento. A água é a amante perfeita. Ela investiga, toca, limpa e dá prazer sem pedir nada em troca, apenas que a deixem escorrer livre.&lt;br /&gt;Em homenagem à agradável sensação, Tatsumi canta uma canção antiga que fala do amor de um homem pela sua vaca. É a história de um fazendeiro que, após ser abandonado pela esposa, conta a todos que não se sente sozinho pois sua vaca lhe faz companhia. E quando a mulher retorna pedindo desculpas, o fazendeiro não aceita e mostra a vaca pastando na sala junto com um bezerro, seu filho adotivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Helena chega meio-dia em ponto para o almoço. Debaixo do braço traz as fotos e o artigo que será publicado no jornal do dia seguinte. Ela está ansiosa para saber a opinião de Mikio, e mais ainda para contar o que achou do espetáculo. Ela sente orgulho do que acredita ser seu ponto de vista original. &lt;br /&gt;Miguel é quem atende e a conduz até a sala.  &lt;br /&gt;Mikio, com traje completo, sentado em seu lugar junto à mesa, sorri ao vê-la. &lt;br /&gt;“Desculpe eu não levantar, Helena, mas estou com o corpo dolorido porque abusei nos exercícios.”&lt;br /&gt;Com o salto de seus sapatos fazendo barulho – toc, toc, toc - Helena se deixa levar até junto à mesa.&lt;br /&gt;“Você faz ginástica?”&lt;br /&gt;Miguel puxa uma cadeira enquanto Mikio responde.&lt;br /&gt;“Na verdade, comecei hoje.”&lt;br /&gt;Helena quase tropeça no tablado antes de sentar.&lt;br /&gt;“Foi o médico quem recomendou?”&lt;br /&gt;“Não, foi meu bom gosto. Ao me olhar no espelho vi que seu eu detestaria estar ao meu lado em uma ocasião festiva, quem diria pretendentes ao amor.”&lt;br /&gt;Helena enrubesce. Ela não sabe que Mikio a provoca para justificar o escândalo passado. Ela disfarça sua vergonha bebendo um gole de vinho.&lt;br /&gt;“Eu trouxe as fotos do espetáculo de ontem. Ficaram maravilhosas, quer ver?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;Helena corta o sorriso.&lt;br /&gt;“Não? Por quê?”&lt;br /&gt;Mikio toma de uma só vez sua dose e estende a taça para ser enchida novamente.&lt;br /&gt;“Aquele foi um momento sublime que nenhuma imagem estática poderá repetir. Eu posso até ver suas fotos, não para saber o que foi o espetáculo, mas para apreciar seu trabalho.”&lt;br /&gt;Helena, decepcionada, passa o álbum para que Mikio o folheie. Controlando-se para não falar do passado distante, volta-se aos assuntos próoximos.&lt;br /&gt;“Sabe, Mikio, eu escrevi um artigo para o jornal de amanhã. Eu tive uma idéia a respeito do trabalho de ontem e talvez você pudesse dar um outro ponto de vista.”&lt;br /&gt;Sem olhar para Helena, Mikio se delicia com as fotos enevoadas. Elas realmente dizem algo do trabalho. A nudez, as deformações, os olhos revirados anunciando a possessão divina. Mikio não pára de beber.&lt;br /&gt;“É poesia tão profunda quanto o inferno.”&lt;br /&gt;Helena fica emocionada. É assim, desde sempre, que ela imaginou que deveria ser uma conversa entre artistas – cheia de imagens poderosas e desvios poéticos. Mikio é um verdadeiro artista. Ela aceita mais vinho.&lt;br /&gt;“Foi o que eu achei. Você não se importa se eu usar suas palavras como epígrafe, se importa?”&lt;br /&gt;Deixando o álbum de lado para comer a salada, Mikio diz não ter problema. E pede licença para ler o artigo depois da refeição.&lt;br /&gt;“Miguel, mais uma garrafa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como todos os meninos foram para suas casas almoçar, Karol acabou ficando sozinho. No canto da praça, sentado sob um pinheiro antigo e maltratado, improvisa o que poderia ser uma futura dança. &lt;br /&gt;Karol têm nas mãos um exército, dedo sim, dedo não, amigos e inimigos se interpõem. Inicialmente acontece um rodeio, tensão que antecipa a batalha. Os dedões, elite por natureza, tentam saídas negociadas mas não há mais tempo. Quando o indicador se torce sobre a palma da mão, a luta tem início. São movimentos duros, outros sinuosos, sempre tentando envolver o inimigo ao mesmo tempo que buscam reunir-se aos parceiros. Os dedões, sem opção, escolhem seus lados pagando o preço de serem os principais opositores. Não demora o ímpeto contagia os metacarpos e carpos, e os punhos e antebraços também torcem e retorcem-se. &lt;br /&gt;“Está com dor nas mãos?”&lt;br /&gt;A foz feminina abre os olhos de Karol. Apesar da sombra, a luz o cega. Só aos poucos discerne a imagem da bela e desconhecida jovem à sua frente.&lt;br /&gt;“Estou improvisando.”&lt;br /&gt;“Improvisando o quê?”&lt;br /&gt;“Dança.”&lt;br /&gt;“Dança?”&lt;br /&gt;“Eu sou um bailarino. Preciso fazer pesquisa de movimento ao mesmo tempo que mantenho minhas articulações vivas. É através de meu corpo que meu espírito se revela.”&lt;br /&gt;“Você usa sapatilhas?”&lt;br /&gt;“Não, nós dançamos descalços.”&lt;br /&gt;“Então não é dança de verdade.”&lt;br /&gt;Irritado com a atitude impertinente da menina, Karol levanta-se para olhá-la de frente. É realmente muito bonita.&lt;br /&gt;“O que você entende de dança?”&lt;br /&gt;“Já fui ao teatro ver vários ballets. Sei que dança de verdade se usa sapatilhas. Minha mãe queria que eu também dançasse mas o médico proibiu porque tenho tornozelos frágeis.”&lt;br /&gt;Karol fica surpreso com a ignorância da garota.&lt;br /&gt;“A dança que eu danço você pode dançar sem problemas. Ela independe de se ter força ou fraqueza.”&lt;br /&gt;“Como chama?”&lt;br /&gt;“Como chama o quê?”&lt;br /&gt;“A sua dança.”&lt;br /&gt;Karol nunca pensou que a dança que seu pai e Tatsumi faziam devia ter um nome. &lt;br /&gt;“Abre os jornais amanhã que você vai saber.”&lt;br /&gt;E para evitar maiores embaraços, Karol calça os sapatos e caminha para fora da praça. Quando está do outro lado da rua escuta a menina falando aos berros.&lt;br /&gt;“Eu vou ler o jornal de amanhã e depois a gente conversa. Meu nome é Beatriz! E o seu?”&lt;br /&gt;“Karol!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É impressionante como é delicada a carne da galinha quando jovem.”&lt;br /&gt;A esposa de Kazuo sorri da maneira como seu marido fala dos ovos mexidos. &lt;br /&gt;“Kazuo, o que seria de nossa miséria se não fossem seus sonhos.”&lt;br /&gt;De boca cheia, Kazuo roda o garfo ao redor do prato como se ele estivesse em uma corrida.&lt;br /&gt;“Eu não sonho. Nossa pequena pobreza é que é uma miséria épica!”&lt;br /&gt;Ela interrompe sua costura.&lt;br /&gt;“Como assim?”&lt;br /&gt;“Ah, minha querida esposa, quando nossos olhos só enxergam o que é mostrado aos nossos olhos, tudo o que podemos ver é o brilho do sol refletido na casca; mas, se aprendemos a ver além, muito além da casca, aprendemos a ver o sol de cada coisa.”&lt;br /&gt;Ela balança a cabeça, não de contrariedade, mas maravilhada. Esconde as lágrimas para não ser chamada de emotiva.&lt;br /&gt;“Karol disse que o espetáculo de ontem foi um sucesso.”&lt;br /&gt;“Quem sabe?”&lt;br /&gt;“Será que finalmente vocês vão ganhar algum dinheiro?”&lt;br /&gt;“Acho que não, pelo menos espero que não.”&lt;br /&gt;Mais uma vez ela pára de costurar e diz indignada.&lt;br /&gt;“É problema ganhar dinheiro?” &lt;br /&gt;Limpando o prato com um miolo de pão, Kazuo fala de boca cheia.&lt;br /&gt;“Karol está prestes a virar um homem, mas ele ainda não sabe disso. Do mesmo jeito, Karol está prestes a se tornar um bailarino, mas ele ainda não sabe. Nos dois casos seria bom que a ignorância fosse eterna. Ganhar dinheiro ou fama arruinaria tudo.”&lt;br /&gt;“Não me casei com você pelo dinheiro, mas não vou mentir, de vez em quando sonho com uma casa maior, comida farta na mesa, roupas bonitas; e acho que Karol também tem o direito de ter tudo isso. O amor, às vezes, não é o bastante.”&lt;br /&gt;“Não é uma pena?”&lt;br /&gt;Ela fica irritada com a calma de seu marido mas não consegue mantê-la por muito tempo. É impossível sustentar um sentimento negativo por quem se alimenta de suavidade e gentileza. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Karol entra, Kazuo está lavando os pratos e sua mãe termina de alinhavar o vestido de uma cliente.&lt;br /&gt;Karol pega o pano de pratos e começa a enxugar a louça.&lt;br /&gt;“Pai, como se chama a nossa dança?”&lt;br /&gt;“Nome? Ela foi para algum lugar para que você precise chamá-la?”&lt;br /&gt;“Não, pai, é sério. Uma menina me perguntou hoje como se chama a nossa dança. E eu não soube responder.”&lt;br /&gt;“Como eu vou saber o nome de sua dança se ela é sua, existe dentro de você. A minha dança eu posso nomear mas, a sua, seria fascismo se eu o fizesse.”&lt;br /&gt;“Certo, pai, então como se chama a sua dança?”&lt;br /&gt;“Pressa.”&lt;br /&gt;“Pressa?”&lt;br /&gt;“É, pressa. Você termina de lavar que eu preciso ir ao banheiro.”&lt;br /&gt;Kazuo sai correndo. Karol olha para sua mãe que gargalha solta.&lt;br /&gt;“Não dá para conversar com papai.”&lt;br /&gt;“Eu sei bem disso, filho. Sei muito bem.”&lt;br /&gt;“Nem quando é preciso ele responde diretamente o que pergunto.”&lt;br /&gt;“Esse  é meu marido, seu pai; quem nós amamos e queremos que assim permaneça.” Dando o último ponto, ela pede a Karol. “Filho, você pode entregar este vestido para mim.”&lt;br /&gt;“Agora?”&lt;br /&gt;“Seria bom pois ela ficou de pagar.”&lt;br /&gt;“Deixa eu terminar de limpar a pia que já vou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel tira a louça e serve a sobremesa: sorvete de mascarpone sobre rocambole. O prato, como toda a refeição, vem cuidadosamente decorado. Helena olha com admiração.&lt;br /&gt;“Quantos empregados você tem, Mikio?”&lt;br /&gt;“Apenas Miguel, meu secretário.”&lt;br /&gt;“E onde ele comprou toda esta comida fantástica?”&lt;br /&gt;“Ele mesmo fez.”&lt;br /&gt;“Não brinca!”&lt;br /&gt;“Todos os anos eu pago a Miguel cursos de culinário. É um investimento caro que até hoje eu imaginava compensador, mas agora, pensando bem, estou vendo que vai acabar me matando. Tudo o que comemos deve engordar muito.”&lt;br /&gt;“Ah, mas estava uma delícia; e este sorvete...Hummm!”&lt;br /&gt;Deixando a sobremesa de lado, Mikio puxa o artigo de Helena para a frente de seus olhos. Desde o primeiro parágrafo não gosta do estilo. O rebuscado não tem uma função e as imagens são muito pobres; ainda bem que o texto será ilustrado com fotografias; também será bom suas palavras servirem de epígrafe. Seria uma pena aqueles artistas serem tão maltratados pelo verbo.&lt;br /&gt;“E então?” Helena pergunta ansiosa.&lt;br /&gt;“Está bom. Concordo com o conceito. Você poderia aprofundá-lo mas o espaço é pouco, eu sei. De qualquer modo será bom para os artistas. Você conhece Tatsumi a muito tempo?”&lt;br /&gt;“Um ano, talvez. Eu fui ao casamento dele com Malena.”&lt;br /&gt;“Ah, esse é o nome da esposa, Malena?”&lt;br /&gt;“É uma grande amiga minha dos tempos de criança. Eu costumava empurrar sua cadeira de rodas pelos corredores da escola.”&lt;br /&gt;Mikio fica surpreso: “Ela é aleijada?”, mas imediatamente se arrepende de seus modos grosseiros. “O que ela tem?”&lt;br /&gt;“Paralisia infantil. Mas seu espírito alegre compensa tudo. E seu pai é um homem rico, dono de diversos restaurantes. Ele não deixa que falte nada a ela. Ele é o dono da Boate Azul que Tatsumi gerencia.”&lt;br /&gt;“Como eles se conheceram?”&lt;br /&gt;“Não foi nada romântico. Tatsumi era empregado da boate, fazia shows simulando sexo com as dançarinas e vivia muito mal em uma república de artistas. Foi quando o patrão perguntou se não queria ficar rico casando com sua filha. Tatsumi concordou na hora, mesmo não conhecendo Malena. Por sorte eles se deram bem.”&lt;br /&gt;“Quer dizer que eles não se amam?”&lt;br /&gt;“Não sei... talvez sim, talvez não. De qualquer modo é um negócio como a maioria dos casamentos.”&lt;br /&gt;Sabendo o que desejava, mas dolorido demais para levantar e dar a entender que a conversa durou o bastante, Mikio usa outra estratégia.&lt;br /&gt;“Helena, estou gostando muito de nossa conversa mas eu preciso voltar ao meu trabalho.”&lt;br /&gt;“Está trabalhando em um novo livro?”&lt;br /&gt;“Estou.”&lt;br /&gt;“E posso saber do que se trata?”&lt;br /&gt;“Ainda não, mas quando estiver pronto eu te envio uma cópia.”&lt;br /&gt;“Nossa, seria uma honra. Autografado, claro.”&lt;br /&gt;“Claro. Miguel vai te acompanhar até a saída.”&lt;br /&gt;“Espero podermos conversar com mais freqüência. Vamos dar um jeito de não repetir essa separação de anos.”&lt;br /&gt;“Até breve.”&lt;br /&gt;Miguel conduz Helena até a saída e logo retorna para saber se Mikio precisa de mais alguma coisa.&lt;br /&gt;“Me leva até o computador, vou escrever mais um pouco para ver se tiro da cabeça o som dessa voz irritante. Depois que você terminar de limpar tudo, venha fazer massagens em meus ombros. Estou destruído.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguindo o endereço anotado em um cartão, Karol vai andando pelas ruas tortas até sair de seu bairro e entrar no bairro vizinho. A diferença é imediata. Ao invés de sujeira e construções amontoadas, limpeza e casas espaçosas cercadas por altas grades e grandes jardins. O único ponto comum entre as duas regiões são os morros pois, mesmo o céu e o ar, ali, parecem mais claros e frescos.&lt;br /&gt;Não é difícil achar o endereço. As ruas são bem sinalizadas e os números nos muros grandes e destacados. Tocada a campainha, rapidamente uma empregada o atende e pega o embrulho. Como ela vai rapidamente fechando a porta, Karol avisa:&lt;br /&gt;“A senhora que encomendou o vestido ficou de pagar.”&lt;br /&gt;“Pagamento? Bom, a madame está terminando de arrumar o cabelo. Vem, entra aqui e espera na varanda.”&lt;br /&gt;Seguindo atrás da mocinha, pouco mais velha que ele, Karol acha graça do vestido preto com detalhes brancos. Parece um figurino estilizado que Tatsumi uma vez sugeriu que usasse numa coreografia baseada em “As Criadas”, de Jean Genet. As pernas da moça, de tão finas e tortas, também provocam risadas.&lt;br /&gt;“Olha, espera aqui que eu já volto.”&lt;br /&gt;“Se não for muito incômodo gostaria de um copo de água.”&lt;br /&gt;“Água? Bom, então vem comigo até a cozinha.”&lt;br /&gt;O quintal da casa é muito bem cuidado. A grama é aparada rente e às árvores podadas como se não fossem árvores. Vistas de longe podem ser confundidas com plástico modelado na forma de bichos. Tanto cuidado em produzir um ambiente perfeito, artificial, incomoda Karol. Se pudesse iria descalço pela grama, e não pisando na calçada de granito branco.&lt;br /&gt;Bebida a água, Karol agradece e diz que volta sozinho para a varanda; mas um pequeno pé de carrapicho crescendo no centro do jardim o tira do caminho. Logo ele está deitado observando-a com os olhos quase colados em suas folhas.&lt;br /&gt;“O que um bailarino descalço está fazendo aqui?”&lt;br /&gt;Karol surpreende-se ao ver Beatriz em pé, ao seu lado. Rapidamente ele se levanta e pede desculpas.&lt;br /&gt;“Vim entregar uma encomenda. Por favor, não diga a sua patroa que eu pisei na grama. Eu até tirei os sapatos para não estragar a grama.”&lt;br /&gt;Beatriz sorri da confusão.&lt;br /&gt;“Não se preocupe, não conto nada.”&lt;br /&gt;“Não costumo fazer o que fiz mas não resisti vendo um pé de carrapicho aqui no meio. Até parece um milagre que ele tenha escapado, não acha?”&lt;br /&gt;“É verdade, mas não dura muito.” Beatriz se abaixa para arrancá-lo quando é segura por Karol.&lt;br /&gt;“Não faz isso, deixa ele viver.”&lt;br /&gt;“É uma praga.”&lt;br /&gt;“O que ele pode fazer sozinho?”&lt;br /&gt;Beatriz sorri compadecida.&lt;br /&gt;“Você é engraçado. Vem, vamos sentar na varanda que está quente.”&lt;br /&gt;Karol só fica sabendo que Beatriz é filha da dona da casa quando a empregada vem lhe entregar o dinheiro. &lt;br /&gt;“Patroinha, ainda bem que você voltou. Estava todo mundo preocupado. Olha só o jeito que está vestida, parece uma menina de rua! Vamos, madame está chamando para que você tome banho. O cabeleireiro está esperando para te ajeitar para a festa.”&lt;br /&gt;“Pede pra ele esperar que eu já vou.” Beatriz faz sinal para que a empregada saia.&lt;br /&gt;Karol levanta.&lt;br /&gt;“Pode ir atender sua mãe, eu preciso ir.”&lt;br /&gt;“Tão cedo?”&lt;br /&gt;“Minha mãe está esperando o dinheiro.”&lt;br /&gt;“Que pena. Eu achei que, já que você não quer falar o nome, você poderia me mostrar sua dança.”&lt;br /&gt;“Outro dia.”&lt;br /&gt;“O que você vai fazer mais tarde?”&lt;br /&gt;“Vou ensaiar com meu pai.”&lt;br /&gt;“Onde?”&lt;br /&gt;“No cemitério jardim, junto ao plátano gigante.”&lt;br /&gt;“No cemitério?”&lt;br /&gt;A empregada espera Karol sair para acompanhar Beatriz até o interior da casa. A jovem patroa bronqueia por não ter sido deixado a sós com a visita.&lt;br /&gt;“Não sei porque a senhorita gosta tanto de pessoas pobres. Tem tanto rapaz bonito e rico querendo sair com você.”&lt;br /&gt;“Falta verdade. Quando eu olho para alguém eu gosto de ver a vida passando dentro da cabeça.”&lt;br /&gt;“Sua mãe vai ficar muito brava.”&lt;br /&gt;“Se você não contar, não acontece nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após uma série de duas mil abdominais, observado pelo gato, Tatsumi se enxuga com uma toalha e vai até a janela. Do alto de seu apartamento ele vê toda a cidade. Os telhados cinzas e marrons não o emocionam como já fizeram um dia. Apenas uma casa, que só pode ser vista do alto pois foi engolida pelos edifícios, faz com que trema.&lt;br /&gt;Feita em estilo antigo, duas águas, resiste nos fundo de um prédio comercial como um oásis no deserto. Com poucas árvores no quintal, tem uma pequena extensão de terra exposta. Quando chove, a lama aflora com fartura e crianças brincam como se vivessem em outro tempo. Pulam, rolam, atiram-se extasiadas.  Somente param quando algum adulto as interrompe. É uma cena do passado distante.&lt;br /&gt;Enxugando uma lágrima, Tatsumi vai até a cozinha. Tira da geladeira diversas embalagens de carne pré-cozida e, dos armários, pacotes e mais pacotes de macarrão, caldo de carne, açúcar e biscoitos. Guarda tudo dentro de duas sacolas. Meia-hora depois está tocando a campainha de um endereço que fazia tempos não visitava.  Enquanto espera ser atendido, observa como tudo parece mais velho, acabado, sem charme.  &lt;br /&gt;Um rapaz careca, cheio de tatuagens o atende. Não é um conhecido. Tatsumi pergunta.&lt;br /&gt;“Aqui ainda é a Casa do Louco de Amor?”&lt;br /&gt;“É, mas agora a gente prefere só Casa do Louco. Está procurando alguém?”&lt;br /&gt;“Jun e Franck ainda moram aqui?”&lt;br /&gt;“Jun morreu de pneumonia semana passada. Franck está no hospital, muito mal.”&lt;br /&gt;“Pneumonia?”&lt;br /&gt;“Foi o que me disseram. Eu não sou amigo deles – não gosto de viados -, mas acho que foi AIDS.”&lt;br /&gt;“AIDS? Desde quando?”&lt;br /&gt;“Eles gostam de se injetar.”&lt;br /&gt;“Jun usando drogas na veia? Ele nem gostava de tomar aspirinas. Franck tudo bem, mas Jun?”&lt;br /&gt;“Eu sei lá. Sei que eram namorados e viviam pelos cantos catando agulhas. Jun parecia uma pessoa triste.”&lt;br /&gt;“O coração dele estava em pedaços.”&lt;br /&gt;“Não, foi pneumonia!”&lt;br /&gt;Tatsumi, perturbado com a notícia, procura um lugar para sentar, mas o banco que existia na varanda foi retirado. Sem mais o que fazer, se despede.&lt;br /&gt;“Bom, muito obrigado pela atenção.”&lt;br /&gt;“Não tem de que. Essa sacola, se quiser deixar para alguém, eu entrego.”&lt;br /&gt;“Come você mesmo.”&lt;br /&gt;“Obrigado. Apareça sempre.”&lt;br /&gt;Tatsumi entra no carro e vê a porta do sobrado em que viveu por dois anos se fechar. Sente culpa. Caso não tivesse abandonado Jun ele ainda estaria vivo.&lt;br /&gt;“Idiota, tantos namorados bons e fica justo com o Franck, o pior lixo da terra?”&lt;br /&gt;Tatsumi soca o volante e se pôe a chorar. Há pouco mais de um ano, nesse mesmo local, com a lua cheia sobre o automóvel, era Jun que se desmanchava em lágrimas.&lt;br /&gt;‘Tat, não faz isso. Você tem talento, não precisa se vender.”&lt;br /&gt;Tatsumi, controlando suas emoções, evita olhar para seu companheiro.&lt;br /&gt;“Jun, eu preciso, é minha única chance de mudar. Eu acredito em mim mas também sei que o que faço jamais vai se reconhecido. Daqui a alguns anos eu vou estar velho e ninguém vai me querer, muito menos lembrar de mim.”&lt;br /&gt;“Ela é aleijada, Tat, aleijada!”&lt;br /&gt;“Ela é uma boa moça. Tem seus problemas mas é uma boa moça.”&lt;br /&gt;Jun agarra o braço de Tatsumi e ameaça.&lt;br /&gt;“Eu vou contar pra ela sobre nós!”&lt;br /&gt;Tatsumi se mantém impassível.&lt;br /&gt;“Ela já sabe. A primeira coisa que fiz foi falar de meu passado.”&lt;br /&gt;“E ela concordou em se casar com você mesmo assim?”&lt;br /&gt;“Concordou...”&lt;br /&gt;“É tão louca quanto você! Dois aleijões!”&lt;br /&gt;“Se em dois anos ela não estiver grávida, a gente se separa.”&lt;br /&gt;“Dois anos? É tempo demais. Eu vou estar morto até lá.”&lt;br /&gt;Tatsumi vira o rosto para acompanhar os carros que passam. &lt;br /&gt;“Não fala besteira. Daqui a uma semana você já está de namorado novo.”&lt;br /&gt;“Eu te amo.”&lt;br /&gt;Tatsumi olha para o corpo encolhido, molhado de lágrimas que um dia foi seu amante e sente desprezo por tamanha falta de orgulho. Isso o ajuda a mentir.&lt;br /&gt;“Eu não te amo. Desce que eu preciso ir. Malena me espera.”&lt;br /&gt;Jun implora.&lt;br /&gt;“Não me deixa, por favor. Não me deixa...”&lt;br /&gt;Tatsumi desce do carro, dá a volta e abre a porta do passageiro. Depois que respira fundo, agarra Jun pela gola e o arranca de seu lugar. Como quem larga um saco vazio, deixa que ele caia na calçada.&lt;br /&gt;“Estou indo embora. Em nome do que fomos um dia, nunca mais me procure.”&lt;br /&gt;Foi a última vez que viu Jun. &lt;br /&gt;Tatsumi fala sozinho.&lt;br /&gt;“Preciso me despedir.”&lt;br /&gt;Indo bater novamente na porta de sua antiga república, o jovem careca e tatuado mais uma vez atende, dessa vez com a boca cheia. Tatsumi pergunta:&lt;br /&gt;“Onde foi que enterraram Jun?”&lt;br /&gt;“No cemitério jardim, aquele sem tumbas.”&lt;br /&gt;“Obrigado.”&lt;br /&gt;Tatsumi sai acelerando o  automóvel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o cemitério é gramado, só uma parte é lisa, pisoteada: onde o grande plátano projeta sua sombra. E é ali, junto às belas raízes expostas que Kazuo senta para conversar e instruir seu filho.&lt;br /&gt;“Existem mortos demais, muito mais que vivos. É certo que vivemos em um mundo de espíritos. Ao pisar sobre eles tome cuidado para não ferir ou ser ferido.”&lt;br /&gt;Sem se levantar, Karol começa repetir os gestos que treinou na praça horas antes. Um a um, os mais interessantes, vai realizando em um seqüência que acredita ser lógica.&lt;br /&gt;“O que você está fazendo?” Kazuo interrompe Karol segurando suas mãos. “está possuído pelo demônio?”&lt;br /&gt;“Estou lembrando o que fiz antes.”&lt;br /&gt;“Deixe que o mundo mova teu corpo, não esse espírito maligno que te atenta.”&lt;br /&gt;“Mas, pai, os mortos também são passado.”&lt;br /&gt;“A minha morte é constante. Desde que nasci estou pronto para morrer. Então porque não reverenciar meus amigos de jornada?”&lt;br /&gt;“Eu não penso na morte.”&lt;br /&gt;“Claro que não, você é jovem, mas quando tiver a minha idade vai pensar, e mais, se você tiver sorte, ela vai se sua amiga. Agora, viva e se mova; e se conseguir, respire.”&lt;br /&gt;Karol olha para seu pai e atenta para as rugas e os longos cabelos brancos que cada dia estão mais fartos. Pensa que um dia seu pai irá morrer, e essa tristeza o faz dançar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mikio termina a página e, pela primeira vez em semanas, está satisfeito com um primeiro capítulo. É impressionante a quantidade de vezes que abandonou histórias promissoras por não ver em nenhuma delas alguma verdade. Não que esta seja perfeita, não, mas ela tem algo mais; e está relacionado com a apresentação de ontem. A coragem daqueles dois homens foi tremenda ao se disporem a tamanha degradação; e o menino?, aquele rapazote entregou-se de corpo e alma a tudo o que fazia como uma divindade que nasce pronta para enfrentar seu destino. Se eles puderam atravessar a sociedade com suas danças, porque Mikio não podia enfrentá-la com sua história?&lt;br /&gt;“Miguel! Uma garrafa de champanhe pois temos muito o que comemorar!”&lt;br /&gt;Enquanto a impressora termina a última das quinze páginas que compõem a introdução do que será o novo livro de Mikio, a garrafa é devidamente gelada em um balde de gelo.&lt;br /&gt;“O senhor está melhor?” Miguel pergunta arrumando as taças sobre uma pequena mesa lotada de livros.&lt;br /&gt;“Não muito, mas pelo menos minha cabeça está forte. Acho que amanhã vou poder enfrentar mais uma sessão de musculação.”&lt;br /&gt;Miguel não mostra, mas acha tolo o comportamento do patrão.&lt;br /&gt;“O senhor quer abrir a garrafa?”&lt;br /&gt;“Não, abre você. Só toma cuidado para não desperdiçar o gás.”&lt;br /&gt;Miguel tira cuidadosamente a rolha e serve o líquido pálido e espumante.&lt;br /&gt;“Um brinde!” Mikio ergue sua taça. &lt;br /&gt;“Um brinde.” Miguel toca sua taça na do patrão.&lt;br /&gt;“Não vai perguntar a que brindamos?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“Então está bem.”&lt;br /&gt;Terminam de beber. Miguel retira todo o material e Mikio volta ao trabalho. Está inspirado, sente que pode escrever até o final da tarde e, quem sabe, aprofundar-se na noite. Sente-se corajosamente rejuvenescido e disposto a continuar a narrar o que o levou a tornar-se um ser miserável e, mais que isso, a desejar superar-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaime surgiu como a gaivota que, velha e cansada, deixa-se afogar no mar. Desde o primeiro dia que o viu, com sua beleza trágica e suas vestes juvenis, sentiu tanta paixão que era insuportável olhar para o rosto de sua esposa. &lt;br /&gt;De noite, em casa, dividindo a mesa de jantar, mal tocou a comida e se retirou. Ela quis saber o que se passava, ele não respondeu. Trancado em seu escritório passou a madrugada tocando no vazio a imagem de seu amor. &lt;br /&gt;Entre livros lidos, páginas em branco, sonhou de olhos abertos com um passado e um futuro dourados. Caminhando estático feito um fantasma arrependido de sua morte, julgou-se o mais infeliz dos homens. Como podia ser que seu presente fosse a certeza de ter demorado demais para encontrar a felicidade – e a dúvida de não saber se ela o estava esperando. &lt;br /&gt;Nunca seu amanhecer penalizou tanto um homem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kazuo interrompe o ensaio ao reconhecer o homem parado a uma centena de metros. Apontando-o com o indicador, pergunta a Karol se não é Tatsumi.&lt;br /&gt;“Ele parece uma sombra...”&lt;br /&gt;Karol corre na frente e Kazuo segue alguns metros atrás, observando. A imagem de seu menino correndo com os cabelos esvoaçando fazem-no sentir-se feliz. Mas, o que realmente lhe traz satisfação é ver como ele busca seu próprio caminho. Seria terrível se  fosse apenas um imitador, um desses robôs humanos presos a movimentos padronizados e posturas inflexíveis. Vê-lo livre é confirmar que nascemos pássaros, só nos aprisionamos na jaula do ego por conta de nossa própria estupidez e desorientação. Karol jamais foi uma estátua, Karol jamais foi Kazuo.&lt;br /&gt;Tatsumi, em pé, de cabeça baixa a observar uma placa estendida no chão, não ouve Karol chamá-lo. Sua tristeza é tamanha que poderia atirar-se na frente de algum automóvel que por ali passasse, mas é claro que dentro do cemitério não existem automóveis.&lt;br /&gt;“Tatsumi?” Karol toca seu braço.&lt;br /&gt;Ele é uma árvore anciã retorcida pela seca de mil anos.&lt;br /&gt;“Não me toque, eu sou um monstro!”&lt;br /&gt;Tão embrenhado na arte que desconhece as fronteiras, Karol pergunta:&lt;br /&gt;“É uma nova peça?”&lt;br /&gt;Caindo de joelho, Tatsumi cobre o rosto com as mãos e se põe a soluçar um choro compulsivo. Kazuo chega.&lt;br /&gt;“O que Tatsumi tem?” Kazuo pergunta.&lt;br /&gt;“Disse que era um monstro e começou a chorar.”&lt;br /&gt;“Então ele sabe a verdade de todos nós?” Kazuo agacha e se abraça ao amigo. &lt;br /&gt;Sob o vigilância atenta de Karol, Tatsumi aperta os braços ao redor de Kazuo. Seus dedos embranquecem tamanha a pressão. Parece querer atravessar a carne até se encontrar no peito do amigo.&lt;br /&gt;“Kazuo, eu me enganei achando que minha alma era muda. Você não; você jamais foi medíocre ao ponto de duvidar de si mesmo. Sabia que o maior engloba o menor; e o menor busca a ditadura por ser mais fraco e egoísta. Eu demorei a vida inteira para entender que a verdade está na morte; você sabia disso desde que te conheci.” &lt;br /&gt;Kazuo estende a mão a seu filho. “Karol, dance e nos acompanhe. Não é justo que em um momento tão solene você seja apenas espectador.”&lt;br /&gt;No meio daquele gramado exato, dois homens permanecem abraçados enquanto um garoto movimenta-se ao redor. &lt;br /&gt;“Eu matei o meu amor, Kazuo. Eu matei meu amor aos poucos...”&lt;br /&gt;Kazuo beija o rosto de Tatsumi e deita sobre a placa com o nome de Jun. Logo estão os dois estendidos sobre a indicação do túmulo.&lt;br /&gt;Ao longe, Beatriz observa intrigada aquela estranha cerimônia. Não se parece com nada que tenha visto e, mesmo assim, é familiar. Sente vontade de se aproximar mas, como se sua presença quebrasse o encanto, espera ser chamada. Seu belo penteado vai se desfazendo aos poucos sob a ação do vento e do pó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No hospital, após o exame, Malena conversa com o jovem médico.&lt;br /&gt;“Pode falar a verdade, doutor. A vida inteira eu vivi em uma cadeira de rodas. Eu estou acostumada com o sofrimento.”&lt;br /&gt;O jovem médico abre o envelope e coloca alguns gráficos sobre a mesa. &lt;br /&gt;“Dona Malena, a notícia que eu tenho não é das melhores, mas não é para se desesperar. Infelizmente teremos que fazer um aborto.”&lt;br /&gt;Malena segura com firmeza os apoios laterais de sua cadeira de rodas.&lt;br /&gt;“Meu bebê está morto?”&lt;br /&gt;“Não, não está.”&lt;br /&gt;“Então, o que acontece? Por que você quer matá-lo?”&lt;br /&gt;“Eu não quero matar ninguém, mas o fato é que se ele continuar dentro da senhora, um de vocês está condenado; ou pior, talvez os dois.”&lt;br /&gt;“Quer dizer que ele pode me matar?”&lt;br /&gt;“É preciso abortar para que a senhora fique bem.”&lt;br /&gt;“E eu vou poder ter outro filho?”&lt;br /&gt;“Infelizmente não.”&lt;br /&gt;Malena pára de respirar por um momento. Quando volta a fazê-lo é para tomar fôlego.&lt;br /&gt;“Preciso conversar com meu marido.”&lt;br /&gt;“Eu devo avisar que quanto mais esperarmos, mais difícil vai ser.”&lt;br /&gt;“Posso levar a fita da ultrasonografia?”&lt;br /&gt;“Aqui está.”&lt;br /&gt;O jovem médico levanta e empurra a cadeira de rodas até o corredor. De lá, uma enfermeira conduz Malena para fora do prédio, onde um automóvel a espera. A luminosidade do dia contrasta com as trevas ao redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o sol ardendo sobre sua cabeça, Karol licença a seu pai para sair e beber um pouco de água. Ele, fortemente abraçado a Tatsumi, não responde. Karol se retira.&lt;br /&gt;O único lugar com uma torneira é na portaria. Pisando os pedregulhos que delimitam um caminho, Karol sente seus pés sofrendo cada pedra pisada. A sola de seus sapatos está fina e a qualquer momento irá furar. Precisa colocar uma sola nova.&lt;br /&gt;“Karol!” É Beatriz quem chama e acena poucos metros a frente.&lt;br /&gt;Karol chega mais perto sentindo uma felicidade inesperada por ver Beatriz e ouvir sua voz.&lt;br /&gt;“Você agora parece uma menina rica, antes parecia tão pobre quanto eu.”&lt;br /&gt;“Você não gosta?”&lt;br /&gt;“De todos os modos é tão linda que me confundo.”&lt;br /&gt;Beatriz treme desejando beijar Karol.&lt;br /&gt;“Eu vi vocês no meio das covas. O que estava acontecendo?”&lt;br /&gt;“Dançávamos.”&lt;br /&gt;“Parecia tão misterioso.”&lt;br /&gt;Karol dá um beijo no rosto de Beatriz.&lt;br /&gt;“Estou com sede. Vem comigo até a torneira.”&lt;br /&gt;Com a água abundante, Karol molha sua cabeça e lava o rosto suado. O frescor penetra seus poros reavivando seus sentidos. Com as mãos em concha, bebe alguns goles. Beatriz olha embevecida.&lt;br /&gt;“Você estuda onde, Karol?”&lt;br /&gt;“Este ano não sigo outros caminhos.”&lt;br /&gt;“Você parou de estudar?”&lt;br /&gt;Karol senta na calçada e pede que Beatriz fique a seu lado. &lt;br /&gt;“Tatsumi está com meu pai”, aponta os dois homens abraçados sob o sol, “ele me disse uma vez que tudo é dança. E uma vez eu li um filósofo que dizia que o Deus que não dança não é bom. Papai sempre repete que a dança é o universo respirando.”&lt;br /&gt;“É muito confuso.”&lt;br /&gt;“Dançar é sentir que a vida me possui, e não que possuo a vida. Eu não posso dançar apenas no momento que subo no palco, eu danço sempre. Dançar é ter um corpo; eu sou meu corpo.”&lt;br /&gt;Karol torce os cabelos deixando que pingos caiam nos pés de Beatriz. Continua.&lt;br /&gt;“Ver você me fez perceber que meu coração conhece movimentos maravilhosos.”&lt;br /&gt;Beatriz abaixa os olhos, emocionada. &lt;br /&gt;“Você quer me beijar?”&lt;br /&gt;“Estou molhado, vou estragar sua roupa cara.”&lt;br /&gt;“Não importa. Me ensina a dançar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tatsumi vê Karol tocando seus lábios nos lábios de uma menina desconhecida. Com atenção, sem esquecer a dor que sente, vê como Karol ajuda-a a se levantar e, juntos, movem-se ao sabor do vento. Ela, feito uma boneca encantada, acompanha repetindo sem repetir. Qualquer outra pareceria tola, pretensiosa, mas ela não.&lt;br /&gt;“Kazuo, veja!”&lt;br /&gt;“Não posso, minhas lágrimas me impedem.”&lt;br /&gt;“O amor jovem é belíssimo!”&lt;br /&gt;“Meu filho...”&lt;br /&gt;“Eu tive meu amor e o deixei morrer.”&lt;br /&gt;“Vamos levantar, Tatsumi, acho que nós, os mortos, devemos nos preparar para conhecer a amiga de Karol.”&lt;br /&gt;Tatsumi põe-se de pé e ajuda Kazuo a ficar sobre as pernas. Com um beijo no rosto, agradece a presença do amigo. &lt;br /&gt;“Qualquer dia preciso contar como descobri o amor.”&lt;br /&gt;“Será uma bela coreografia, tenho certeza.”&lt;br /&gt;Tatsumi diz em seu ouvido.&lt;br /&gt;“Kazuo, você é um velho muito maldoso!”&lt;br /&gt;Kazuo gargalha balançando o vento ainda mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beatriz pára com a chegada de Kazuo e Tatsumi, mas logo ela se recompõe. Os dois homens, um de cada lado, seguram suas mãos e as de Karol. Sem palavras, movimentam-se como uma poderosa onda permitindo que a carne, os ossos, o ar, a terra, tudo se decomponha com o entardecer do dia. Todos jovens, todos velhos, todos presentes em um tempo que se esqueceu de mentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mikio fuma um cigarro. Seus músculos relaxam e a dor e o incômodo são lembranças. Dentro da banheira está feliz. Em anos, é a primeira vez que escreve trinta páginas de bom material. Inspiração não é algo corriqueiro em sua vida. Ainda era adolescente quando concebeu uma novela de cincoenta páginas que lançou-o para o mundo literário. Foi quase um milagre a febre criativa que sentiu. E se levar em conta sua fama de produzir textos poéticos pela lógica da construção, fica ainda mais surpreendente escrever trinta páginas sem pensar.&lt;br /&gt;Miguel entra. Traz uma bandeja com petiscos e um balde de gelo com a champanhe que sobrou da tarde. Deixa tudo ao lado da banheira. Mikio pede que fique.&lt;br /&gt;“Senta na banqueta, Miguel, vamos conversar um pouco.”&lt;br /&gt;“Tenho muito o que fazer, senhor.”&lt;br /&gt;“Não importa. Sente-se. Vamos aproveitar que meu corpo reencontrado me deixou leve.”&lt;br /&gt;Miguel puxa uma banqueta de dentro do box e, antes de acomodar-se, serve duas taças.&lt;br /&gt;“Miguel, você já teve namoradas?”&lt;br /&gt;“Não sei se é um bom assunto, senhor.”&lt;br /&gt;“Esqueça os bons assuntos.”&lt;br /&gt;Miguel bebe um gole moderado e pega um petisco de camarão. Mastiga algumas vezes.&lt;br /&gt;“Fui casado por dezesseis anos.”&lt;br /&gt;Mikio fica verdadeiramente surpreso.&lt;br /&gt;“Você? Casado?”&lt;br /&gt;“Com dezesseis anos tinha um filho recém-nascido.”&lt;br /&gt;“Onde ele está?”&lt;br /&gt;“Morreu com dois anos, de meningite.”&lt;br /&gt;“Sinto muito.”&lt;br /&gt;“Minha esposa, logo após enterrarmos nosso menino, entrou em depressão profunda. Não tinha mais ânimo para nada. Pela manhã, antes de eu sair para o trabalho, eu a alimentava como um bebê e só a noite, comigo de novo em casa, ela comia a segunda refeição.”&lt;br /&gt;“Quanto tempo isso durou?”&lt;br /&gt;“Catorze anos. Até ela conseguir finalmente se matar.”&lt;br /&gt;“Como você sobreviveu a isso tudo? Como você ficou tantos anos com uma mulher enlouquecida?”&lt;br /&gt;“Ela não estava louca, simplesmente estava triste – apesar que a tristeza, em muitos momentos, é a pior das loucuras, ou, pelo menos, a que mais judia.”&lt;br /&gt;“E nunca mais você teve outra mulher?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;Mikio aceita mais uma dose e se ajeita na banheira.&lt;br /&gt;“Vocês fizeram sexo após a morte de seu menino?”&lt;br /&gt;Miguel continua a comer os pequenos camarões.&lt;br /&gt;“Todos os dias. Mas não era bom. Era desespero dela tentando conseguir outro filho. Infelizmente, ou felizmente, ela nunca mais engravidou.” Terminando sua dose Miguel anuncia. “Preciso voltar a meus afazeres.”&lt;br /&gt;Miguel levanta e sai. Mikio não tem coragem de bloqueá-lo sem um bom motivo.&lt;br /&gt;“Miguel, antes de sair, me diz uma coisa.”&lt;br /&gt;“Sim, senhor.”&lt;br /&gt;“O que te dá prazer nesta vida?”&lt;br /&gt;“Correr.”&lt;br /&gt;“Você corre?”&lt;br /&gt;“Todos os dias, antes do sol nascer.”&lt;br /&gt;“Nunca vi.”&lt;br /&gt;“Sempre antes do senhor acordar.”&lt;br /&gt;“E qual o prazer que você sente?”&lt;br /&gt;“Não sou religiosos mas, quando o cansaço é tanto que minhas pernas se recusam a continuar, e mesmo assim continuam, sinto que Deus toma meu corpo.”&lt;br /&gt;“Deus?”&lt;br /&gt;“Deus.”&lt;br /&gt;“Obrigado, Miguel, pode ir.” Miguel sai. “Um brinde ao perverso Deus.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conquista é a fase mais árdua de todas; e por isso a mais prazeirosa. O não saber, os movimentos indecisos, as paradas bruscas, os mal-entendidos, é o destino mostrando que ninguém domina o viver. &lt;br /&gt;A primeira vez que ficaram juntos, ingenuamente conversando, Jaime se mostrou retraído. Ele não entendia porque seu professor o convidara para sua sala para falar sobre romances naturalistas franceses; e porque aquele homem magro e malpostado fumava tanto e tão nervosamente. &lt;br /&gt;Quando finalmente o assunto pareceu esgotado, Jaime quis levantar e partir, mas o professor não permitiu. Colocando a mão em seu ombro, bloqueou sua saída.&lt;br /&gt;“Fique mais um pouco.” A voz saiu rouca.&lt;br /&gt;“Para quê?”&lt;br /&gt;“Do que você gosta?”&lt;br /&gt;Jaime finalmente entendeu o que se passava; mas ao invés de se revoltar, abriu um riso compreensivo e acomodou-se melhor à cadeira. Abandonando qualquer apatia, começou a discorrer sobre “Madame Bovary”, de Balzac. Libertando sua mente de amarras, foi brilhante ao defender a idéia de que o autor francês foi um dos grandes reformadores da moral burguesa. No final, concluiu:&lt;br /&gt;“Mas Goethe é superior. Nenhum livro teve tanto impacto na juventude européia quanto “Werther”.”&lt;br /&gt;Levantando para ir embora, diante de seu professor ainda mais apaixonado, Jaime se despediu; mas antes de sair avisou que ficaria na biblioteca até mais tarde; quem sabe não poderiam ir juntos embora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol já se pôs, mesmo assim sua luminosidade preenche o céu com tons que vão do amarelo ao sangue. Diante do espetáculo celeste, após deixar Beatriz em sua casa, Tatsumi fala jocoso. &lt;br /&gt;“Minha dança é a luz do sol posto, não mostra a origem, apenas os efeitos.”&lt;br /&gt;Karol aceita e diz.&lt;br /&gt;“Minha dança é o sol escondido no horizonte, tão poderosa que não precisa ser vista para alcançar os sentidos.”&lt;br /&gt;Os dois ficam esperando Kazuo, mas ele muda de assunto. &lt;br /&gt;“Tatsumi, se não for pedir muito, gostaria que parasse em um mercado para que eu compre alguns rabanetes para o jantar.”&lt;br /&gt;“Se você fizer a sua parte, sem problemas.”&lt;br /&gt;Kazuo balança a cabeça e diz:&lt;br /&gt;“A escuridão que dança eu.”&lt;br /&gt;Tatsumi exclama: “Miserável!”&lt;br /&gt;Karol rola banco banco traseiro de tanto rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saindo do mercado, Kazuo convida Tatsumi para a refeição. Karol treme pois sabe que a comida em sua casa mal dá para três, quem diria quatro. Buscando contornar a situação, ele pergunta.&lt;br /&gt;“Sua esposa não te espera para o jantar, Tatsumi?”&lt;br /&gt;“Sim, é uma grande idéia,” diz Kazuo frustrando seu filho, “por que não passamos em sua casa e convidamos Malena para participar conosco?”&lt;br /&gt;“Seria ótimo!” Tatsumi concorda.&lt;br /&gt;Karol, chegando ao desespero, dá uma indireta.&lt;br /&gt;“É melhor avisar mamãe antes, para que ela prepare mais comida.” &lt;br /&gt;Tatsumi se anima.&lt;br /&gt;“Não é preciso, podemos ajudar sua mãe a cozinhar. Lembrar os velhos tempos.” &lt;br /&gt;“Pai, Tatsumi gosta de carne e acho que não temos carne em casa.”&lt;br /&gt;Kazuo olha para o banco de trás e explica compreensivo.&lt;br /&gt;“Filho, não se preocupe com Tatsumi. Ele conhece nossa pobreza pois foi tão pobre como nós. Hoje vamos nos reunir não pela comida, mas pelo encontro. Se não temos carne, temos nossos sangue e nosso calor; se não temos frutas, temos fartura de ar perfumado.”&lt;br /&gt;Karol abaixa a cabeça.&lt;br /&gt;“Desculpe.”&lt;br /&gt;Tatsumi, com os olhos úmidos, olha para Kazuo como quem observa Deus. Em seu íntimo, pede aos céus que permitam que seja tão bom pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mikio pede que Miguel ligue o computador e faça café. Se por várias semanas sua mente estacionou no limbo, agora a imaginação funciona como um trem desgovernado. É preciso calma para que as idéias não se justaponham confusas. Começa massageando as mãos. Usando o dedão, aperta a carne como se amassasse pão. Indo do punho em direção aos dedos, não esquece nenhuma área. Dá especial atenção às articulações das falanges que tendem a se curvar involuntárias e à região entre o dedo indicador e o dedão. Um prazer relaxante se espalha pelo seu corpo e espírito. Quando Miguel chega com o café, está pronto para começar a digitar.&lt;br /&gt;“O senhor vai querer mais alguma coisa?” Miguel pergunta antes de sair.&lt;br /&gt;“Você já leu algum livro meu, Miguel?”&lt;br /&gt;“Não sou de leituras, senhor. Minha vida sempre se fez na prática.”&lt;br /&gt;“Você despreza o que eu faço, não é verdade?”&lt;br /&gt;“Admiro seu trabalho, senhor. Mas não vejo nada de especial.”&lt;br /&gt;“Miguel, às vezes você me assusta com sua sabedoria. Pegue um exemplar de cada livro meu e dê uma lida. Preciso de sua opinião.”&lt;br /&gt;“É uma ordem, senhor.”&lt;br /&gt;“É.”&lt;br /&gt;Miguel vai até a estante e pega três exemplares, com capa dura, feitas para o lançamento de uma nova coleção. &lt;br /&gt;“Boa noite, senhor. Caso precise, é só chamar.”&lt;br /&gt;“Acho que hoje eu não durmo. Quando você sair para correr, antes venha me ver.”&lt;br /&gt;“Boa noite.”&lt;br /&gt;Mikio olha no relógio. Oito horas. Uma imagem brota em sua mente. “Os olhos cansados de ver o que os olhos devem ver, desistiram de sua função e se fecharam para nunca mais.” Pensa no corpo de Jaime exposto nu em diversos jornais. Começa a digitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro toque íntimo foi sob a toalha do restaurante italiano. Enquanto o garçom servia talharim a mão de Jaime foi da coxa ao pênis de seu professor. Mastigando a massa verde, o jovem contou seu plano.&lt;br /&gt;“Eu não tenho talento. Sou inteligente mas não sou um artista; e isso me  atormenta. Esmo que eu finja ser alguém interessante, seja homossexual como Oscar Wilde, arrogante como Byron, belo como Georges Sand, me falta lume.”&lt;br /&gt;“Você é mais talentoso que eu.”&lt;br /&gt;“Não precisa mentir para mim. Se eu pudesse escrever como você, mesmo que fosse Quasímodo, seria feliz. A arte dá vida à carcaças decadentes, e até salva muitas almas; infelizmente eu nasci com um sonho e nenhum prazer me alivia.”&lt;br /&gt;“Eu te amo...”&lt;br /&gt;“Todos amam o que vêm em mim. Mas ninguém ama o que eu sou. Como eu queria ser um artista!”&lt;br /&gt;Após o jantar, no apartamento de Jaime, bêbados, fizeram sexo pela primeira e única vez. Sem romantismo, sem brilhos, quase como a morte de um padre casado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tatsumi sabe que se esqueceu do encontro que tinha com Malena no consultório médico; esperando encontrar sua esposa chateada, entra no apartamento já avisando.&lt;br /&gt;“Malena, temos visitas.” E voltando-se para Kazuo e Karol. “Esperem um pouco que vou ver se ela está no quarto.”&lt;br /&gt;Tatsumi puxa uma cadeira para Kazuo e vai pelo corredor. O gato vira-latas, deitado sobre uma bancada cheia de livros, olha desconfiado para as visitas. Karol, atentando para as belas gravuras espalhadas pelas paredes, os móveis de fino acabamento, o tapete persa preto e amarelo, as pequenas estatuetas representado divindades hindus, comenta:&lt;br /&gt;“Que apartamento bonito. Não sabia que Tatsumi era tão rico.”&lt;br /&gt;Kazuo dá um breve risada.&lt;br /&gt;“Tatsumi sempre foi rico. Seu espírito é coberto de jóias.”&lt;br /&gt;“E eu, pai, sou rico ou pobre.”&lt;br /&gt;“Você não precisa de nada disso. Você está além.”&lt;br /&gt;“O senhor não respondeu.”&lt;br /&gt;“A decisão é sua.”&lt;br /&gt;Com cuidado, Tatsumi abre a porta do quarto. A escuridão é aliviada apenas pelo vídeo ligado. Um abafado choro se faz ouvir.&lt;br /&gt;“Malena, você está aí?”&lt;br /&gt;Ela não responde. Em respeito à escolha da esposa, imaginando que ela esteja magoado pela sua falta, Tatsumi fecha a porta e volta para a sala.&lt;br /&gt;“Malena não está em casa. Vamos antes que fique muito tarde.”&lt;br /&gt;Kazuo e Karol saem seguidos por Tatsumi. No quarto, Malena descobre o rosto e se fixa na escuridão do inferno. &lt;br /&gt;“Deus, o que tem contra mim? Me acha tão miserável que não devo deixar restos de mim após minha morte? Por que tanta desgraça? Não seria mais simples me fulminar com um raio, ser engolida por um terremoto? Deus, o maior miserável é Você. Se imagina que eu vou facilitar sua vida morrendo, está enganado. Antes de me entregar a sua maldita bondade, beijo o demônio como amante eterno!”&lt;br /&gt;Nada acontece além do silêncio. Nenhuma resposta, nenhuma reação. Nada. Malena sente seu peito vazio. Com as duas mãos sobre a barriga, dá play na fita que mostra a criança em seu interior e fala com seu filho.&lt;br /&gt;“Meu bem, eu sou amiga da morte desde que nasci, não tenho medo dela. Você, você que vive dentro de mim, respira o meu ar, come minha comida, defeca em meu útero e vem para me matar, vai me fazer o maior de todos os favores. Não se preocupe. Logo logo você vai poder sair deste mundo triste que é meu corpo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel abre o livro: “A Casa da Sombra Enlutada”. É o primeiro romance de Mikio. Como é uma reedição, na introdução vem explicada a cronologia das obras do autor e uma breve análise crítica.&lt;br /&gt;“Como nos romances seguintes: “O sorriso Desfeito” e “Cabos de Guarda-chuva”, o autor, mais que um contador de histórias, mostra-se um filósofo lógico ao abordar a complexidade dos sentimentos humanos. Sua poesia advém de sua forma ordenada de apresentar os conflitos interiores de cada personagem e seus relacionamentos. Neste livro ainda não aparece com clareza a temática homossexual mas já se pressente o tema na maneira como o autor descreve os tipos. Sempre senhores de físicos apolíneos, repletos de fúria homérica, inimigos da miséria humana – principalmente a covardia e a desonra. Ao contrário, as mulheres aparecem como submissas e devotas, jamais donas de ações, apesar de muitas vezes serem as responsáveis pelo desenrolar das situações. Vide Mírian, esposa de Cadeu, protagonista deste romance que, ao abandonar-se a um amor de fim de tarde, desfaz a ordem com que vive seu marido e alimenta de conflitos toda a história.”&lt;br /&gt;Miguel termina de ler este último parágrafo e inicia a história propriamente dita. O ventilador está ligado e a única luz vem do abajur. O relógio está colocado para despertar às quatro da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro estaciona. Karol desce e avisa que vai avisar sua mãe. Tatsumi pede que espere. Abrindo o porta-malas, tira a sacola cheia de comida. &lt;br /&gt;“Leva para sua mãe e diz que é um presente meu. Avisa que gosto de rabanete com pouca carne. Estou mudando meus hábitos alimentares.”&lt;br /&gt;Karol vê a grade quantidade de comida e se alegra. Com passos largos corre para dentro de casa. Kazuo agradece.&lt;br /&gt;“Não era preciso. Não basta os constantes empréstimos que me faz?”&lt;br /&gt;“Kazuo, lembra quando nos conhecemos? Eu estava na porta da escola de dança observando sua aula. Como não tinha dinheiro para pagar, era meu modo de aprender.”&lt;br /&gt;“Eu lembro que, vendo seus olhos acesos, pensei que você devia ser algum grande conhecedor a analisar minha pobre técnica. Fiquei surpreso quando criei coragem e fui conversar com você e você tentou fugir.”&lt;br /&gt;“Sim, eu estava indo embora, querendo evitar um encontro com o dono da escola. Ele não gostava de me ver ali, sempre presente mas sem nunca fazer a inscrição.”&lt;br /&gt;“Eu, pretensioso, perguntei se você apreciava Laban, Eutonia, Neuer Danz. Quando você me olhou com seus grandes olhos, me senti pequeno e me desculpei. Sem saber que atitude tomar diante de teu silêncio, contei que o dono estava viajando e convidei-o a entrar na sala de aulas.” &lt;br /&gt;“E eu, constrangido, aceitei. Os alunos já haviam ido embora e você me mostrou uma dança cheia de movimentos abertos, felizes, quase acrobáticos. Terminada, me pediu que dançasse.”&lt;br /&gt;“Mesmo temendo ofende-lo, eu queria aprender.”&lt;br /&gt;“E eu estava nervoso pois conhecia mais os termos e os teóricos do que a prática; jamais conseguiria imitar aqueles passos graciosos que você realizou. Então, eu me contentei com o contrário. Gestos fechados, curtos, apertados, tristes, corriqueiros. Ao terminar fiquei surpreso com suas lágrimas.”&lt;br /&gt;“Foi a dança mais bela que jamais havia visto.”&lt;br /&gt;“Você caiu de joelhos aos meus pés e me pediu que te ensinasse.”&lt;br /&gt;“E você me deu a mão dizendo que não sabia ensinar, que queria aprender.”&lt;br /&gt;“E é isso que faço. Esse pouco que lhe dou em presentes jamais irá pagar a oportunidade que você me dá de dançar com seu corpo.” &lt;br /&gt;Se abraçam e, desse modo, entram pelo portão carcomido e barulhento da pequena casa, quase sem quintal, presa entre outras pequenas casas sem quintal e sem lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe está cortando o rabanete enquanto Karol arruma a mesa. O ar está perfumado com o cheiro de macarrão sendo cozido e da carne desfiada. Quando a porta se abre e Kazuo e Tatsumi entram, o vento apaga uma das chamas do fogão; rapidamente, ela acende novamente e diz.&lt;br /&gt;“Seja bem vindo, Tatsumi. Nunca mais veio nos visitar.”&lt;br /&gt;Tatsumi, envergonhado, abaixa a cabeça. &lt;br /&gt;“Minha vida é um constante decepcionar de amigos e amores. Mas vou mudar.”&lt;br /&gt;Karol serve a seu pai e a Tatsumi doses de uma garrafa de licor reservada a visitas. &lt;br /&gt;“Para distrair a língua enquanto a comida não fica pronta.”&lt;br /&gt;Tatsumi ergue um brinde.&lt;br /&gt;“Hoje e sempre!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telefone toca diversas vezes e pára. Um instante depois começa a tocar novamente. Malena atende. Sua voz sai fraca.&lt;br /&gt;“Alô?”&lt;br /&gt;“Malena? É Helena. Tatsumi está?”&lt;br /&gt;“Ele saiu com Kazuo faz algum tempo. Acho que foram ensaiar.”&lt;br /&gt;“Você sabe onde estão?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“Preciso urgente falar com ele. Aconteceu uma coisa que eu não esperava. Os críticos que eu levei para assistirem a apresentação na Boate Azul escreveram coisas péssimas sobre o trabalho. Hipócritas, na hora sorriram e aplaudiram mas, para os jornais, puseram que tudo não passou de escatologia sem sentido; que não houve dança, apenas uma cerimônia ridícula de louvação do anti-estético, do grotesco. Não adianta, o novo sempre causa horror, eles ainda não entenderam isso.” Malena permanece em silêncio. “Eu e Mikio entendemos o trabalho e achamos que indica novos caminhos. Tatsumi é um artista criador na verdadeira acepção da palavra. Ele não pode ler aquilo e desistir de sua pesquisa... Malena?”&lt;br /&gt;“Acho que você deve dizer tudo isso a Tatsumi.”&lt;br /&gt;“Você está estranha. O que aconteceu?”&lt;br /&gt;“Estou bem.”&lt;br /&gt;“Quer que eu vá te ver?”&lt;br /&gt;“Não, não é preciso. Eu vou dormir um pouco. Falamos outra hora.”&lt;br /&gt;“Tem certeza que não quer que eu vá até aí? Não me custa nada.”&lt;br /&gt;“Tenho. Boa noite.”&lt;br /&gt;Malena desliga o telefone e vira o corpo de lado. Apoiando a cabeça no travesseiro, aperta com uma das mãos a outra orelha. Tenta não ouvir as vozes dentro de si mesma. &lt;br /&gt;O gato arranha a porta para entrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminado o jantar, Tatsumi levanta já se despedindo.&lt;br /&gt;“Ainda é cedo, fique mais um pouco.” A mãe pede.&lt;br /&gt;“Não posso. Malena está esperando um filho meu e preciso ver se ela está bem antes de seguir para a boate.”&lt;br /&gt;A mãe abre um sorriso enorme.&lt;br /&gt;“Eu não sabia que ela estava grávida.”&lt;br /&gt;“Dois meses e meio. Mas como é uma gestação de risco preferimos manter em segredo até que a situação se estabilize. Seria terrível se algo de ruim acontecesse.”&lt;br /&gt;“Entendo seus motivos. Boa sorte e parabéns.” Kazuo estende a mão.&lt;br /&gt;Tatsumi aceita o cumprimento e se despede uma vez mais. Seu carro acelera calmamente.&lt;br /&gt;“Você sabia?” A esposa pergunta a Kazuo.&lt;br /&gt;“Não, eu não sabia.” &lt;br /&gt;A lâmpada do poste frente à casa apaga três vezes antes de voltar a funcionar normalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tatsumi usa as escadas para subir ao apartamento. Seus passos são feitos lentos, forçados. De algum modo ele sabe, por isso protela sua chegada. Massacrando seus músculos, entortando seus ossos, sofre para não sofrer. Mas a porta de seu apartamento continua lá.&lt;br /&gt;O gato o espera deitado próximo à porta. Como um mensageiro dos espíritos, ele o guia até o quarto. Tatsumi entra. Malena está quieta. Tatsumi tira sua roupa e deita ao lado de sua esposa. Ela se recolhe toda. O gato pula sobre a cama e fica aos pés do casal. &lt;br /&gt;Malena, com a voz apertada, pergunta:&lt;br /&gt;“Você sonha com nosso filho?”&lt;br /&gt;“Eu sonho com você brincando com nosso filho, mas jamais o vejo.”&lt;br /&gt;Malena respira ofegante.&lt;br /&gt;“Eu sonho com nosso filho; e ele é perfeito. Tem os seus olhos e as tuas pernas, mas tem meus cabelos e minhas mãos. Nos dias de sol ele vai pescar com o avô; nos dias de chuva lê histórias para outras crianças.”&lt;br /&gt;“Por enquanto só você ouve suas histórias.”&lt;br /&gt;“Não tenha inveja. Logo, só você vai ouvi-las.”&lt;br /&gt;Tatsumi a abraça com mais carinho. Pensa em Jun e sofre por saber que mais uma vez ficará só. &lt;br /&gt;“Falarei de você todos os dias.”&lt;br /&gt;“Não faça isso senão ele vai me odiar. Dê a ele apenas um retrato, quando ele tiver curiosidade, diga que o amei mais que tudo. Se algum dia ele reclamar que eu não estou presente, diga que meu presente foi minha morte.”&lt;br /&gt;“Que menino feliz!”&lt;br /&gt;O gato, cansado de ouvir tanta bobagem humana, deixa o calor do colchão para dormir na lavanderia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel não houve o despertador. Quando acorda, o dia raiou faz uma hora. Atrasado, ele marca a página em que estava quando dormiu e corre avisar o patrão que é hora de ir para a academia. Mas não encontra ninguém. Contrariado com sua desatenção, volta para o quarto, pega o livro e entra no banheiro para fazer suas necessidades. Meia-hora depois sai para atender a campainha. É o mesmo taxista bigodudo do dia anterior.&lt;br /&gt;“Seu patrão está pedindo ajuda.”&lt;br /&gt;Miguel vai até o automóvel e chega pedindo desculpas.&lt;br /&gt;“Seu livro me distraiu até altas horas da madrugada. Nem sair para minha corrida matinal eu sai.”&lt;br /&gt;Mikio sorri.&lt;br /&gt;“Nunca mais faça isso, digo, deixar de correr. Quanto a me acordar, fique calmo, nem fui dormir. Vou descansar agora se essa dor em todos os músculos de meu corpo permitir. Vamos, me dê a mão para que eu caminhe.”&lt;br /&gt;“Não quer que eu o carregue?”&lt;br /&gt;“Hoje não.”&lt;br /&gt;Vagarosamente, forçando e sofrendo cada passo, Mikio vai até o interior de sua casa. Antes de entrar, agradece ao taxista.&lt;br /&gt;“Espero não precisar mais, mesmo assim obrigado.” &lt;br /&gt;“Sempre as ordens!”&lt;br /&gt;Mikio vai direto tomar banho enquanto Miguel prepara o café da manhã. A voz de Billy Holliday enche o ambiente com um ar de decadência elegante contrastando com o cheiro de suor e café fresco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Karol e sua mãe saem para fazer compras pouco depois que Kazuo foi dar aulas. O objetivo são roupas novas para Karol e, se o dinheiro do vestido der, um par de sapatos novos.&lt;br /&gt;Antes de tomarem o ônibus rumo ao centro, Karol pede trocados para comprar o jornal e ler as críticas. &lt;br /&gt;“Toma, mas volta logo que eu também quero saber o que disseram.”&lt;br /&gt;Karol corre até a banca do outro lado da rua e traz o jornal sob o braço. Entrega o troco e abre na parte de cultura. Para sua surpresa, uma foto sua agarrado à galinha estampa a primeira página do caderno. A chamada é: “O Pior de Tudo”. &lt;br /&gt;O ônibus chega e, sem descolar os olhos das palavras, Karol fica em pé enquanto sua mãe se senta. Ao terminar, ela pergunta.&lt;br /&gt;“E então? Estamos ricos?”&lt;br /&gt;Karol abaixa os olhos.&lt;br /&gt;“Eles não entenderam nada. Acham que somos monstros imorais querendo anarquizar a sociedade. Dizem que o que fazemos não é dança, mas uma cerimônia satânica.”&lt;br /&gt;Ela segura a mão de seu filho e o consola.&lt;br /&gt;“Se seu pai estivesse aqui ele diria que cada um vê o que se passa em seu espírito. Se esses críticos disseram tudo isso, é o que eles têm a dizer de si mesmos.”&lt;br /&gt;“E agora, mãe, o que eu vou fazer da minha vida?”&lt;br /&gt;“Viver, como sempre. E pare de amassar o jornal que ele custou dinheiro; e acho que, mesmo que seu pai diga que não se interessa, é bom levarmos para ele ler.”&lt;br /&gt;Ela não diz, mas o desapontamento de seu filho é tanto ou maior que o seu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tatsumi arruma café com leite, bolachas, mel e queijo em uma bandeja e leva para o quarto. Abre a porta com cuidado mas, para sua surpresa, encontra Malena acordada. Sentada na cama, ela tem os olhos vidrados no nada. &lt;br /&gt;“Trouxe seu café.” Tatsumi anuncia com o mais alegre sorriso. “e não venha dizer que está sem fome que eu sei que você gosta de se alimentar bem pela manhã.”&lt;br /&gt;Malena não responde. &lt;br /&gt;Sem desanimar, Tatsumi ajeita a bandeja com apoios sobre a cama e diz:&lt;br /&gt;“Pode ir comendo que eu tenho mais uma surpresa para você.”&lt;br /&gt;Tatsumi sai correndo e vai até o banheiro. Rapidamente tira a roupa e veste um macacão largo; passa pancaike no rosto; traça duas linhas difusas representando sombrancelhas; prende o cabelo. Com um salto que assusta o gato aos pés da cama, faz uma entrada espetacular.&lt;br /&gt;“Muito bem, senhoras e senhores, eu sou o arlequim! Nasci na costa do touro, brotei da flor do jardim. Vim, vim, vim! Eu sou o arlequim!”&lt;br /&gt;Malena não tocou na comida. Ela olha para seu marido e não sente vontade de rir. Tatsumi, continua torcendo-se e cheios de trejeitos fazendo caras e bocas.&lt;br /&gt;“Eu sou o arlequim! O palhaço da boa sorte, o rei dos botequins! Eu sou o arlequim! Ladrão de mulheres sonsas, voador de trampolim!”&lt;br /&gt;Para não constranger seu marido que tanto se esforça, Malena tenta um sorriso; mas ele sai frouxo e triste. Tatsumi se aproxima e abraça a barriga de sua esposa. Sussurrando ele diz:&lt;br /&gt;“Eu sou o arlequim. De Tatsumi sou a alma, sou seu peito, baço e rim. Eu sou o arlequim. Desesperado, inútil e frouxo, como toda história sem fim.” Olhando para Malena, chora. “O que será de minha vida sem você?”&lt;br /&gt;Malena abraça Tatsumi e suspira em seu ouvido.&lt;br /&gt;“Eu agradeço seu esforço em me amar, mas jamais fomos prisioneiros um do outro. Só peço que cuide de nosso filho com tanto empenho quanto cuidou de mim.”&lt;br /&gt;“Fui um péssimo marido. Passava as madrugadas na boate - mesmo sem precisar -, e assim evitava me encontrar com você. Nos amanheceres, mesmo estando desperto, fingia dormir.”&lt;br /&gt;“Fui eu que pedi a meu pai que assim fosse, meu querido marido.”&lt;br /&gt;“Não limite a minha culpa, por favor. Isso só me faz sofrer ainda mais.”&lt;br /&gt;“E assim deve ser.”&lt;br /&gt;Aos pés da cama, intoxicado pelo melodrama, o gato jaz inconsciente, babando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gato lembra exatamente como foi o primeiro dia, quando Tatsumi entrou no apartamento seguido por Malena. Fazendo-se de esposo, aquele homem magro, alto e cabeludo, pisou no assoalho como se conquistasse um continente. Sem olhar para trás, verificou cômodo por cômodo antes de falar em tom solene.&lt;br /&gt;“Para que serve este gato?”&lt;br /&gt;Malena, tirando do colo o vaso de cristal que trouxe da casa de seu pai, respondeu calmamente, mostrando quem realmente mandava:&lt;br /&gt;“Para que serve este homem?”&lt;br /&gt;Tatsumi arregalou os olhos e nunca mais deu atenção ao gato. E isso foi bom pois, como todos os felinos, ele nunca gostou de atenção excessiva, principalmente de madrugada. E nessa confortável condição de hóspede, observou o primeiro sexo do casal humano. Assim como todas as outras vezes que se uniram, foi mecânico e asqueroso.&lt;br /&gt;O gato também esteve presente naquela madrugada fria quando, triste além da conta, o homem não deitou em seu quarto e foi dormir com Malena. Ela não o rejeitou mas não fez mostra alguma de que se sentia bem; demorou meses para que isso acontecesse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malena pede a Tatsumi que dance.&lt;br /&gt;“Faz tempo que não vejo nada sincero.”&lt;br /&gt;“Menti demais, não foi?”&lt;br /&gt;Malena tira a coberta de suas pernas e mostra as pernas mirradas. &lt;br /&gt;“Se o seu filho for assim fraco, louco por saber que matou sua mãe, você ainda vai amá-lo?”&lt;br /&gt;“Mais que o ar que respiro.”&lt;br /&gt;Passando a mão sobre a pele machucada pelas peças de metal que sustentam duas articulações, Malena pergunta:&lt;br /&gt;“Se ele não suportar a vida, pedir mil vezes para morrer, mesmo assim você vai aquecê-lo e alimentar sua tristeza até que ela se torne força?”&lt;br /&gt;“Eternamente.”&lt;br /&gt;“Olha a televisão, veja o seu filho.&lt;br /&gt;Tatsumi assiste as imagens escuras que mostram um coração que pulsa cercado por gelatina em forma de feto.&lt;br /&gt;“Eu já o conhecia...”&lt;br /&gt;Malena morde os lábios para não chorar. Busca na memória outro assunto.&lt;br /&gt;“Ontem, bem antes de você chegar, Helena ligou dizendo que os críticos não havia gostado de sua apresentação.”&lt;br /&gt;Tatsumi não parece surpreso.&lt;br /&gt;“E ela, o que achou?”&lt;br /&gt;“Disse que você era um revolucionário. Disse que ela e um senhor chamado Mikio tinham a mesma opinião.”&lt;br /&gt;Por pudor, Tatsumi se alegra sem demonstrar.&lt;br /&gt;“O senhor Mikio foi apenas gentil.”&lt;br /&gt;“Esse Mikio é o escritor?”&lt;br /&gt;“Ele mesmo.”&lt;br /&gt;“Você leu todos os seus livros.”&lt;br /&gt;“Ele é dos poucos que conseguem expressar idéias próximas às minhas. Foi com a leitura de seus romances que entendi que é possível transpor para as palavras sentimentos complexos através da construção de cenas e diálogos. A dinâmica do texto pode levar ao entendimento da carne, não apenas ao conceito abstrato.”&lt;br /&gt;“O que isso tem a ver com seu trabalho?”&lt;br /&gt;“Ainda é cedo mas eu acredito que um dia serei capaz de dar à minha dança a mesma consistência de um romance do senhor Mikio. Algo profundo, intenso, lógico, e ao mesmo tempo permeado por uma poética fulgurante. O senhor Mikio é o teórico da decadência como forma de gozo.”&lt;br /&gt;Malena não ouve. Ela mastiga com cuidado uma bolacha.&lt;br /&gt;“Você se importa de fazermos amor? Depois que engravidei nunca mais senti você dentro de mim. Acho que este sentimento de morte me fez sentir saudades da vida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beatriz colhe flores silvestres nascidas junto ao muro do cemitério. Ansiosa, chegou meia-hora antes do relógio anunciar duas da tarde. Sua mãe ainda não sabe de sua primeira paixão, e talvez nunca venha a saber. Presa em seu mundo dourado, sua mãe não se importa que a filha saia com pessoas pobres desde que não os leve para dentro de casa.&lt;br /&gt;Calçando sapatos novos, Karol cruza o gramado e senta ao lado de Beatriz. &lt;br /&gt;“Minha mãe comprou estes sapatos com o dinheiro que recebeu de sua mãe.”&lt;br /&gt;“São bonitos.”&lt;br /&gt;“Ainda estão desconfortáveis mas, daqui a alguns dias, amaciados, serão como os outros.”&lt;br /&gt;“Aquele homem que nos deus carona ontem é o mesmo Tatsumi que fala o jornal?”&lt;br /&gt;“Tinha esperanças que você não tivesse lido.”&lt;br /&gt;“Porquê? Um texto no meio do caderno falou muito bem de tudo que vocês fizeram. Lá está que o caráter de sua peça é avançado demais para o grande público. Que a função da vanguarda é indicar caminhos aos outros artistas, para que estes possam então, com o passar do tempo, mostrar em conta-gotas tudo o que aprenderam.”&lt;br /&gt;“Eu não li esse texto. Fiquei tão desanimado com a matéria da capa que fechei o jornal.”&lt;br /&gt;Beatriz levanta e repete a pose de Karol, mas sem a galinha.&lt;br /&gt;“O que você acha?”&lt;br /&gt;“Está bom, mas é preciso que você realize toda a coreografia; só então a imagem terá sentido.”&lt;br /&gt;“Faça que eu vou atrás.”&lt;br /&gt;Karol levanta e dança a partir do início. Beatriz o segue por um minuto, até que se cansa e passa a fazer os movimentos estilizados que a divertem mais. Apesar das provocações, Karol continua por mais quatro minutos até que toda a cena termine. Então, com um longo suspiro, volta a sentar.&lt;br /&gt;“É isso.”&lt;br /&gt;Batendo efusivas palmas, Beatriz exclama.&lt;br /&gt;“Impressionante! Parecia que você não estava aqui.”&lt;br /&gt;“Ao contrário, eu estava mais presente que você. Enquanto você tentava ser eu, depois agir a partir de mim, eu não era eu e não era ninguém, tinha apenas a natureza e o tempo me corroendo.”&lt;br /&gt;“Não entendo.”&lt;br /&gt;“As palavras não são minhas, são de Tatsumi.” &lt;br /&gt;Beatriz arranca um buquê de grama e atira para o alto. O vento carrega as folhas para longe.&lt;br /&gt;“Você sentiu saudades de mim?”&lt;br /&gt;Karol deita no chão e olha o azul do céu.&lt;br /&gt;“Sonhei que você era uma garça e eu o caçador. Pousada sobre um grande pântano eu te encontrei e disparei minha arma. O tiro atravessou seu coração e o sangue pintou toda a paisagem de vermelho. Eu fiquei vermelho.”&lt;br /&gt;Beatriz enfeita o corpo de Karol com as flores do campo. Sobre seu peito, seu rosto, monta arranjos delicados. &lt;br /&gt;“Beijar é tão bom...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grande acidente de automóveis bloqueia a via principal. O congestionamento toma dezenas de quadras. Os motoristas mais experientes pegam vias vicinais e escapam, outros deixam-se levar pelo fluxo. Pelo rádio foi informado que seis pessoas morreram no choque de um ônibus de linha com um caminhão de lixo descontrolado. Tatsumi segue lentamente esperando o momento de ver os corpos acidentados. Está atrasado mas o motivo compensa.&lt;br /&gt;Miguel, usando uma venda translúcida, atende a porta sem grande deferência. Mikio espera lendo uma revista ArtForum. O ambiente está pobremente iluminado. Incensos indianos queimam nos quatro cantos enquanto um belo arranjo floral enfeita o chão. Fazendo fundo, ruídos, gritos, harmoniosamente arranjados. &lt;br /&gt;Mikio abaixa a revista e mostra o rosto coberto com uma bela máscara antiga de guerreiro furioso.&lt;br /&gt;“Dizem que a morte não espera, e eu achei que isso queria dizer que ela não se atrasava.”&lt;br /&gt;“Nem todos os ditados falam a verdade. Desculpe meu atraso, fiquei detido em um imenso congestionamento.”&lt;br /&gt;Mikio levanta com certa dificuldade e beija o rosto de Tatsumi.&lt;br /&gt;“Miguel ouviu a notícia no rádio. Vamos sentar e conversar a respeito.”&lt;br /&gt;Miguel entrega à Tatsumi uma belíssima máscara representando o demônio de chifre único, sorriso de escárnio e olhos tristes. Enquanto ele a veste, serve duas taças de vinho e se retira. Mikio bebe um gole e comenta:&lt;br /&gt;“Espero que não me ache afetado demais. Foi uma idéia que tive no final da tarde e achei que apenas poetas teriam a capacidade de apreciar.”&lt;br /&gt;Tatsumi ajeita os olhos nas cavidades definidas antes de erguer um brinde:&lt;br /&gt;“Eu, a mão esquerda de Deus na terra, brindo quem faz valer a existência do céu e da terra.” Bebe. &lt;br /&gt;A sensação do álcool descendo pela garganta provoca em Tatsumi estranhos pensamentos. Nada relativo ao comportamento de Mikio, mas assuntos pendentes com o futuro. O que será de sua vida quando nascer seu filho e Malena falecer? Para que lado irá girar a roda do destino? Perguntas desconexas com a realidade de um homem que pensa sua dança como uma afirmação da motilidade da vida, da inconcretude do momento.&lt;br /&gt;Mikio deixa os minutos passarem em silêncio. Fala quando tem a desculpa de mais uma taça de vinho. &lt;br /&gt;“Suponho que teve uma idéia para uma coreografia.” Sorri intrigado com os olhos fundos de Tatsumi.&lt;br /&gt;“Sobre o asfalto, feito tapetes de alto relevo, seis corpos foram dispostos. Dois homens, três mulheres e uma criança. Todos eles cobertos de sangue e óleo. Uma estranha mistura com tons altamente energéticos. Eu quis parar o carro para ver melhor, mas os guardas não deixaram; e isso foi bom pois a realidade próxima demais mataria minha imaginação.”&lt;br /&gt;Mikio levanta e, coxeando, serve mais vinho a seu convidado. Tatsumi continua a falar.&lt;br /&gt;“Tive um sonho em que dez milhões de corpos despedaçavam-se para formar um único. Mas quando um único corpo componente se revoltou, a ordem tornou-se caos e convulsões desesperadas destruíram a inocência.”&lt;br /&gt;Mikio se deixa cair no assento da cadeira.&lt;br /&gt;“Eu entende bem tal condição. Como já observou estou me movimentando com dificuldades. Cada passo, cada gesto, por mais que eu deseje fazê-lo com suave naturalidade, aparece desconexo, perdido, sofrido. Tenho nítida a separação entre vontade da mente e a vontade do corpo.”&lt;br /&gt;“Achei que fosse parte da ambientação.”&lt;br /&gt;Mikio dá uma forte risada que fica bem sob a máscara.&lt;br /&gt;Tatsumi coloca sobre a mesa um maço de cigarros e um isqueiro.&lt;br /&gt;“Importa-se?”&lt;br /&gt;“Não, mas espere. Miguel, traga os habanas!”&lt;br /&gt;Sobre uma bandeja de prata vem uma caixa de charutos Romeu y Julieta acompanhados por dois cinzeiros feitos de aço e cobre além de guilhotinas e isqueiros também em aço. Miguel deixa sobre a mesa e volta para a cozinha levando um prato negro que enfeitava sozinho o centro da mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kazuo acende um cigarro enquanto descansa. O suor escorre de seu rosto para o seu troco nu até pingar sobre a terra revolvida. O ar está quente, sem vento, não deixando a fumaça se dissipar. Não há luz exceto aquela vinda de um poste próximo. O terreno baldio parece enorme, mesmo não sendo.&lt;br /&gt;Durante mais de duas horas Kazuo trabalhou com a enxada carpindo, preparando alguns canteiros e aguando outros já prontos; agora, enquanto descansa, observa as verduras e legumes que em breve irá colher. Foi uma boa idéia aproveitar essa área abandonada. É comida barata e força espiritual. Ele, homem da cidade, não sabia que dentro de si existia um trabalhador rural; alguém que, ao cuidar das bolhas nas mãos, sentisse um profundo orgulho da capacidade de fazer germinar. Movimentos com um fim, exatamente como Tatsumi dizia que eram os gestos dos agricultores de sua terra.&lt;br /&gt;“Kazuo!” É Karol chamando para o jantar. &lt;br /&gt;Ele se aproxima do pai e acocora-se ao lado. Respira a fumaça e comenta a beleza das folhas de cenouras e a estranha semelhança dos repolhos com flores desabrochando ao contrário. Pergunta uma vez mais se o pai não precisa de ajuda.&lt;br /&gt;“Posso, pelo menos, vir aguar as plantas?”&lt;br /&gt;Kazuo responde que não; que ele mesmo quer cuidar de todos os detalhes; que existe algo em seu coração pedindo a chance de conduzir a criação até seu término e recomeço.&lt;br /&gt;“Daqui a dois meses você pode ajudar, não agora. Por enquanto gostaria de saber, se não fosse intromissão demais, como está sua simpática namorada?”&lt;br /&gt;“Ela me perguntou se eu gostaria de viajar com ela para a praia.”&lt;br /&gt;“E o que você respondeu?”&lt;br /&gt;“Disse que não tinha dinheiro para isso mas, se ela tivesse vontade, poderíamos caminhar pelos parques da cidade à procura de uma bela imagem da natureza. Ela gostou da idéia. Amanhã vamos cruzar a cidade a pé.”&lt;br /&gt;Kazuo joga a ponta de cigarro fora e se levanta.&lt;br /&gt;“Vem, sua mãe deve estar esperando.”&lt;br /&gt;“Pai, você ainda ama minha mãe?”&lt;br /&gt;“Que parte de sua mãe você me pergunta? Se você diz a esposa que prepara com carinho todo alimento e cuida para que, mesmo pouca, a comida seja saborosa, amo incondicionalmente; mas se você diz a esposa que me excita quando deito pedindo uma chance a mais de sermos um, amo quando posso; ou se é a mulher que me deu um filho e cuidou de minhas feridas, devo responder que a respeito e agradeço.”&lt;br /&gt;Karol fecha o portão e o amarra com um arame. &lt;br /&gt;“Leu as críticas?”&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;“Leia, por favor. Preciso decidir se continuo a dançar.”&lt;br /&gt;“E é possível parar, meu filho? Ou será que se é possível cogitar parar não será porque jamais estivemos dançando?”&lt;br /&gt;“Quero comprar um presente para Beatriz.”&lt;br /&gt;Kazuo veste a camisa e muda sua postura. Súbito, surge uma jovem não mais velha que Karol, extremamente apaixonada. Ela desenha com a ponta dos dedos um grande arco e indica uma ponta de calçada. Karol senta para assistir.&lt;br /&gt;Sem palavras, apenas com gestos suaves, ela prepara-se para um encontro. Frente a um imenso espelho de cristal, cobre-se de flores e jóias, sedas e modas. A maquiagem, cuidadosamente aplicada, revela que anseia por um beijo. Ela quer estar bela para merecer todo e qualquer carinho. É quando o espelho se parte e dele salta uma imagem que a afronta. É ela velha, decrépita, sozinha pois seu amor a abandonou por outro amor jovem. Seus pés retraem e ela dá voltas e mais voltas sobre si mesma até encontrar o amado, e quando o faz, cai de joelhos e rola desesperada. Quando está coberta de poeira, descabelada, com a roupa rasgada e a maquiagem borrada, oferece sua boca a um beijo; e ele aceita. O tempo pára e ela volta a ser um linda jovem carregada sobre rosas.&lt;br /&gt;“Pai, mamãe está esperando.”&lt;br /&gt;Kazuo se limpa e sorri. &lt;br /&gt;“O que teremos para o jantar?”&lt;br /&gt;“Pão e molho.”&lt;br /&gt;“Ah, um banquete. Fazia tempos que eu sonhava com esses pratos!”&lt;br /&gt;Antes de abrir a porta, Karol segura a mão de seu pai.&lt;br /&gt;“E se a arte não me der sustento para viver?”&lt;br /&gt;“E vale viver se a vida não for arte?” &lt;br /&gt;Karol abre a porta e entram. Sua mãe ralha com Kazuo.&lt;br /&gt;“Olhe o estado de sua roupa, Kazuo! Vá se lavar antes de comer!”&lt;br /&gt;Kazuo sorri e corre para o banheiro feito uma pequena criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malena penteia cuidadosamente fio por fio de sua longa cabeleira negra. Usando uma escova de casco de tartaruga cuida para que não sobre nenhum nó ou embaraço. O espelho da penteadeira olha para seu rosto imóvel. O gato deitado na cama ronrona. Pela janela o sol se põe.&lt;br /&gt;A cadeira de rodas caída no chão parece desmaiada. Largada sem função não atenta à nudez de Malena. Feito um padre confessor, escuta as palavras sem reagir.&lt;br /&gt;“Como será seu rosto? Como será seu corpo? Será que sua vida será longa? Será que você será alegre? Será que você será magro? Será que você será gordo? Será você terá beleza para se orgulhar? Como serão suas pernas?”&lt;br /&gt;O gato esfrega as costas no acolchoado. Uma coceira o incomoda. Talvez não tanto quando a canção que Malena começa a cantar.&lt;br /&gt;“Boi, boi, boi... boi da cara preta/ pega essa criança/ que tem medo de careta.”&lt;br /&gt;Lágrimas rolam do rosto de Malena. A maquiagem cuidadosa se desmancha. Alguém bate na porta gritando:&lt;br /&gt;“Malena! Abre a porta que é seu pai. Abre que precisamos discutir o que vamos fazer. O médico me ligou e contou tudo.”&lt;br /&gt;Foi para fugir da tutela paterna que Malena aceitou casar; não agüentava mais ser tratada como uma pobre aleijada. Apesar de Tatsumi ter sido escolha de seu pai, apesar de saber que fazia parte do acordo que Tatsumi devia ser completamente subserviente a seu pai; apesar de inicialmente ter desprezado seu marido, com o tempo descobriu qualidade naquele estranho. Percebeu que além de seus olhos agressivos e de suas maneiras delicadas que, muito mais que um homossexual contratado para se fazer de marido, havia uma pessoa interessante, suave, terna. Não sente amor, mas um tipo estranho de paixão. Afinal, mesmo com todo o dinheiro do mundo, Tatsumi não tinha obrigação de tratá-la melhor do que a educação admitia.&lt;br /&gt;O síndico abre a porta do apartamento. O pai de Malena invade a sala e corre para o quarto. Seu terno perfeitamente cortado adiciona respeitabilidade ao homem magro e velho. Seus passos são curtos e rápidos. O síndico, sem ser convidado, vem logo atrás; mas é bloqueado pela parada brusca do velho. O pai, vendo a filha nua, recua e manda o síndico embora; ouvindo a porta da entrada se fechar, pede à Malena.&lt;br /&gt;“Veste alguma coisa. Eu preciso saber o que vai acontecer com meu neto.”&lt;br /&gt;Malena, momentaneamente fortalecida, responde seca.&lt;br /&gt;“Seu neto vai viver; e vai ser criado pelo pai.”&lt;br /&gt;“Não! Eu vou criar meu neto. Vou dar a ele tudo o que possuo. Tenho o direito de criá-lo. Tatsumi é um imprestável que, sem minha ajuda, ainda estaria tirando a roupa em pública e passando fome pelas ruas.”&lt;br /&gt;“Se meu marido não for cuidar de meu filho; se for para seu avô tornar-se seu pai; melhor que ele morra  comigo.”&lt;br /&gt;Passando por cima de seus pudores, o pai de Malena entra no quarto. Com um puxão, tira o acolchoado da cama, joga o gato no chão e cobre a nudez de sua filha.&lt;br /&gt;“Você teria coragem de me fazer uma coisa dessas? Só para me castigar você teria coragem?”&lt;br /&gt;Com a maquiagem borrada e olhos vermelhos, vendo seu pai no espelho, Malena grita cortante  e cai desfalecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mikio, com o braço esquerdo enlaçado na cintura de Tatsumi, se deixa levar pela música de salão. Fred Astaire canta “Cheek to Cheek”. &lt;br /&gt;Em uma ordem repetitiva, giram ao redor da mesa. Os olhos fixos um no outro e a sincera intenção faz prescindir do ritmo. Cada um tem seus pensamentos. Quando a música termina, ocupam seu lugar e Miguel serve os pratos. &lt;br /&gt;Tatsumi diz enquanto corta uma fatia de carne de búfalo. &lt;br /&gt;“A Ressurreição do Feto foi baseado em seu livro “Sorriso Desfeito”. As imagens que construí vieram diretamente da cena em que o personagem homossexual é atacado pelo batalhão de soldados; do momento que o estupram até desfalecer para depois cobrirem-no com uma montanha de fezes recém defecada.”&lt;br /&gt;“É uma honra. Mas acredito eu isso não me garanta o “status”de bailarino.”&lt;br /&gt;“A dança não é uma forma, um local, um momento. A dança prescinde de rótulos e de corpos. A dança simplesmente existe. Não com uma função – sem objetivos -, mas pela necessidade que o universo tem de existir no tempo e no espaço.”&lt;br /&gt;Miguel, continuando a servir o vinho, escapando de sua normalidade, faz um comentário.&lt;br /&gt;“A maneira como o senhor Tatsumi fala parece dizer que não há valor em sua dança.”&lt;br /&gt;Mikio se desculpa.&lt;br /&gt;“Miguel, onde está seu respeito com nosso convidado?” &lt;br /&gt;Tatsumi não esconde o sorriso ao impedir que Miguel fique constrangido.&lt;br /&gt;“Eu tenho tantos méritos quanto a criança que chora chamando seus pais. Nem todas agiriam desse modo, mas a que assim procede, se o faz, faz pois sua vida disso depende.” &lt;br /&gt;Mikio pensa um pouco e sugere. “Eu não estou com muita fome. Se você não se incomodar poderíamos passear pela cidade.”&lt;br /&gt;Tatsumi levanta e dá o braço para ajudar Mikio.&lt;br /&gt;“Não é preciso. Gosto da sensação do desequilíbrio e do descontrole.”&lt;br /&gt;Logo que saem, Miguel tira a mesa e desliga a música. Após apagar as luzes, vai até seu quarto continuar a leitura. Está curioso para saber o desfecho da história do velho que, após fracassar em todos os aspectos de sua vida, senta à beira do penhasco para decidir se salta sobre as rochas surradas pelo mar em dúvida se seu vôo também dará em nada como tudo o mais que viveu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminado o jantar, Karol pede desculpas por não lavar a louça. “Beatriz está me esperando para observarmos a lua.” E sai apressado.&lt;br /&gt;Kazuo, conformado, tira a mesa e começa a lavar a louça.&lt;br /&gt;“Duas noites seguidas. Estou quase me acostumando.”&lt;br /&gt;Rindo, sua esposa acrescenta.&lt;br /&gt;“Pior para você. Eu estou me acostumando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tatsumi dirige rumo ao centro da cidade. Mikio massageia suas coxas aliviando pequenos focos de câimbras. As janelas estão abertas para aliviar o calor. A conversa se dá entrecortada pelo barulho de motores, freadas, vozes repicadas e muita música de Júlio Iglesias tocada no aparelho de som.&lt;br /&gt;“Posso abaixar o volume?” Mikio pergunta. Diante do sim, diminui o sim e comenta. “É sempre estranho descobrir que artistas apreciam músicas populares.”&lt;br /&gt;Tatsumi, atento ao trânsito, não olha de lado.&lt;br /&gt;“Minha arte é popular; apenas o povo não sabe disso.”&lt;br /&gt;Mikio dá uma breve risada; e acrescenta.&lt;br /&gt;“Certamente... Quanto tempo leva para se formar um bailarino?”&lt;br /&gt;“O tempo de uma dança.”&lt;br /&gt;“Poderia ser mais concreto? Lembre-se que sou um romancista, não um poeta.”&lt;br /&gt;Tatsumi troca Júlio Iglesias por Vivaldi.&lt;br /&gt;“Estar vivo é dançar; pena que alguns tenham a presunção de dizer que existe quem não dance. Para minhas obras é necessário apenas sinceridade.”&lt;br /&gt;“Então é a dança mais difícil de todas.”&lt;br /&gt;“Podemos estacionar naquela lanchonete? É um lugar que não visito a tempos.”&lt;br /&gt;Mikio concorda.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Malena acorda em sua cama, vestindo roupas masculinas. Sua cabeça dói. Ela olha para todos os lados procurando sua cadeira de rodas. Não a encontra. O relógio na cabeceira mostra 9 horas.&lt;br /&gt;Com leves apalpadelas confere o estado de sua barriga.&lt;br /&gt;“Vocês estão bem.” Seu pai diz surgindo na porta e carregando uma bandeja com um copo de água. “O médico acaba de sair.”&lt;br /&gt;“Eu fiquei muito nervosa.”&lt;br /&gt;“E eu, preocupado. Fazia muito tempo que eu não precisava cuidar de minha filha. Ainda bem que você está bem. Mas vai precisar cuidar da pressão.”&lt;br /&gt;“Eu não vou entregar meu bebê a você.”&lt;br /&gt;“Está bem; contanto que eu possa visitá-lo.”&lt;br /&gt;Malena bebe a água junto com um comprimido dado por seu pai. &lt;br /&gt;“Eu assisti o vídeo.” Ele aponta a fita sobre a TV. “É homem, não é?”&lt;br /&gt;“Ainda não dá para saber, mas eu espero que sim. DE qualquer modo não vai fazer diferença.”&lt;br /&gt;Ele abaixa os olhos ao sentar-se na cama.&lt;br /&gt;“Não, claro que não... Tatsumi tem sido um bom marido?”&lt;br /&gt;Era a primeira vez que ele fazia essa pergunta desde que Malena saíra de casa. Não por falta de preocupação, mas por pudor. Havia ficado claro entre eles que, a partir do momento que ela se casasse, o pai se eximiria de cuidados – exceto certa ajuda financeira nos primeiros tempos. Era esse o compromisso desde que ela o atacara verbalmente acusando-o de sua invalidez e da morte de sua mãe.&lt;br /&gt;Malena joga as pernas frágeis pela lateral da cama e pede.&lt;br /&gt;“Onde está minha cadeira?”&lt;br /&gt;“Para que você quer ela?”&lt;br /&gt;“Preciso ir ao banheiro.”&lt;br /&gt;“Eu pego ela na cozinha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mikio apenas observa enquanto Tatsumi mastiga com avidez um sanduíche de picanha. Carregando na pimenta e na mostarda, os dentes muito brancos e  tortos arrancam grandes pedaços a cada mordida.&lt;br /&gt;A lanchonete é muito pequena e está lotada; tanto que a fila dupla de automóveis junto à porta toma quase a extensão do quarteirão. Eles tiveram sorte de conseguir uma mesa para dois com tantos adolescentes.&lt;br /&gt; O garçom aproxima-se e pergunta.&lt;br /&gt;“Mais uma água, Tatsumi?” &lt;br /&gt;“Não, obrigado, Válter.”&lt;br /&gt;“Tudo bem.” E antes de se afastar, Válter adverte. “Vê-se não some tanto tempo.”&lt;br /&gt;“Pode deixar.” O garçom visita outras mesas. Tatsumi explica para Mikio. “Houve tempo que eu tinha que escolher fazer aulas ou comer. Nesses dias eu minimizava minha fome aqui. Válter, um conterrâneo meu, sempre dava um jeito de conseguir um sanduíche fiado.”&lt;br /&gt;Sentindo-se desconfortável no ambiente barulhento, mas aproveitando o assunto, Mikio emenda uma pergunta que desde que se conheceram tinha curiosidade de fazer.&lt;br /&gt;“Como foi sua pesquisa para conseguir coreografar?”&lt;br /&gt;Tatsumi engasga. &lt;br /&gt;“Desculpe. Não é a pergunta que é constrangedora mas minha resposta. Eu, desde que me lembre, tenho esta concepção de dança. Mesmo no período que tentei tomar aulas - seguir uma linguagem padronizada - meu corpo se recusava. De certo modo, minha coreografia é resultado de minha incapacidade de dançar o que foi pré-estabelecido.” &lt;br /&gt;“Eu poderia dançar?”&lt;br /&gt;“Acho que já respondi sua pergunta.”&lt;br /&gt;“Sim, claro.”&lt;br /&gt;Mikio pergunta ao  garçom se a lanchonete oferece vinho em seu cardápio. Válter responde que não, apenas cerveja e chopp.&lt;br /&gt;“Um copo de chopp, por favor.”&lt;br /&gt;Com um único gole Mikio toma dois comprimidos mais a bebida; e explica a Tatsumi que o faz para prevenir as dores na lombar que andara sentindo nos últimos tempos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ruído vindo da cozinha acorda Kazuo e sua esposa. Sem abajures, conversam na escuridão.&lt;br /&gt;“Quem será?” Ela pergunta.&lt;br /&gt;“Nossa pobreza garante que não é ladrão. Deixa que eu vou ver.”&lt;br /&gt;Kazuo levanta, abre momentaneamente a cortina para que as lâmpadas do poste de um vislumbre de seu caminho e cobre novamente sua esposa. Ela não vai dormir, mesmo assim ele a beija e se despede até o amanhecer.&lt;br /&gt;A luz da cozinha está apagada. O ruído continua – um som metálico intercalado por rápidos suspiros. Educadamente, Kazuo bate na porta antes de entrar. Vê o vulto que reconhece como seu filho. Acende a luz. A cena causa espanto mas não há reação exagerada; apenas um quieto lamento. &lt;br /&gt;Kazuo vai até a mesa e puxa uma cadeira para si. Frente a Karol, pega um pano de pratos e limpa o sangue espalhado sobre a toalha plástica. As lágrimas de Karol permanecem longe de seu alcance pelos movimentos que a faca realiza no ar até alcançar a carne do braço. Os cortes somam-se dezenas, um alinhado em paralelo ao outro, perpendiculares ao sentido das veias.&lt;br /&gt;“Eu sonhei com um grande vento. Ele carregou meu corpo para longe mas meu espírito permaneceu. Eu levantei para não me perder.” &lt;br /&gt;Com uma movimento lento mas vigoroso, Kazuo segura a mão com a faca.&lt;br /&gt;“Pai, nunca estive tão eufórico e, mesmo assim, sofro demais.”&lt;br /&gt;“Você e você, juntos, sentirão saudades da riqueza da juventude.”&lt;br /&gt;Tomando a faca, Kazuo leva seu filho até o banheiro. Com gentileza, despe a ele a e si mesmo. Em água fria, banha Karol cuidadosamente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;http://analisepublica.blogspot.com/atom.xml &lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/27223219-115135363509419680?l=analisepublica.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://analisepublica.blogspot.com/feeds/115135363509419680/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=27223219&amp;postID=115135363509419680' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115135363509419680'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/27223219/posts/default/115135363509419680'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://analisepublica.blogspot.com/2006/06/quase.html' title='quase'/><author><name>Wilson Hideki Sagae</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-27223219.post-115135358072867034</id><published>2006-06-26T17:25:00.000-03:00</published><updated>2006-06-26T17:26:21.000-03:00</updated><title type='text'>algo que talvez fosse</title><content type='html'>Três da manhã, abro a janela e sinto meu corpo nu ser tocado pelo vento. Treze andares abaixo as ruas estão vazias e os sons me alcançam fraquejantes. Respiro fundo enquanto abro meus braços. O que seria da noite não houvessem estrelas e lua tão cheias de luz. Provavelmente seria a verdadeira noite. Se tudo fosse eterno negror, talvez eu não estivesse aqui. Talvez eu não tivesse estes pensamentos. &lt;br /&gt;Coloco o pé direito no beiral sentindo os restos do sereno. Quase escorrego. Apóio melhor as mãos antes de juntar o esquerdo a seu irmão solitário. Inspiro novamente antes de fechar os olhos. &lt;br /&gt;Através das pálpebras enxergo milhares de luzes piscantes. Como uma floresta em chamas, a cidade se consome em artifícios clareadores. Cada linha um destino adiante. Cada instante algo mais...&lt;br /&gt;Não adianta, continuo o mesmo tolo progressista. Largo a janela e me deixo cair decidido a não gritar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabe quem morreu?” Perguntou Dora enquanto tentava abrir a porta do escritório.&lt;br /&gt;“Sei lá?” Rosa respondeu tomando a chave da amiga.&lt;br /&gt;“O Júnior se matou de madrugada. Pulou da janela do apartamento da namorada. E a coitada só ficou sabendo de manhã. O porteiro foi juntar o lixo e encontrou o corpo encaixado dentro de um latão tombado.”&lt;br /&gt;Rosa ficou imóvel, segurando a chave na fechadura, enquanto ouvia a história. Seu coração disparou ao som do nome de Júnior. Não podia ser realmente verdade. Com um movimento decidido forçou a chave até quebrá-la.&lt;br /&gt;“Ai, meu Deus, fiz caca. Espera aí que eu vou no chaveiro ali na esquina e ele já vem abrir.”&lt;br /&gt;Segurando a bolsa à tiracolo, equilibrando o penteado, Rosa saiu correndo rua abaixo, na direção contrária ao chaveiro. Dora, que notou o engano, largou uma gargalhada pensando como sua amiga era destrambelhada. Dali a pouco, quando notasse o engano, iria aparecer com cara de tacho dizendo que lembrara de algum compromisso urgente. Quarentona faltando sexo dá nisso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz do estacionamento ainda estava sonolento. Quem devia substituí-lo no turno da manhã ainda não havia chegado. A madrugada  passou depressa devido aos tiros  que espocaram sazonais. Não deu para fechar os olhos uma vez sequer temendo que tentassem invadir o estacionamento. &lt;br /&gt;Quando Rosa passou correndo pela portaria quase derrubou o vigia da cadeira.&lt;br /&gt;“Meu carro, por favor!” Falou Rosa agitadíssima.&lt;br /&gt;“Claro, dona Rosa. A senhora acabou de chegar e já vai sair?”&lt;br /&gt;“Tive um probleminha!”&lt;br /&gt;As mãos transpiravam e precisavam ser secas a todo momento na barra da saia. E o menino não achava o carro. Como é que podia ser? Ela mal havia deixado seu carrinho ali. Júnior não podia ter realmente se matado. Ontem conversaram tão animados! Da casa da namorada? Ele falou que haviam brigado! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando parou para tomar um cafezinho e fumar um cigarro, não pensando em nada especial que não fossem as celulites aumentando em sua bunda, Júnior apareceu a seu lado para encher sua xícara. Com um belo sorriso o menino puxou conversa.&lt;br /&gt;“Hoje parece que não chove.” &lt;br /&gt;“O quê?” Acordou, Rosa.&lt;br /&gt;“Estava pensando no namorado?” Ele falou mostrando ainda mais os dentes brancos.&lt;br /&gt;“Namorado? Não, eu.... eu nem tenho namorado.”&lt;br /&gt;“Não?” Conseguiu aumentar ainda mais o sorriso!!! &lt;br /&gt;O fim da tarde chegou depressa entre os muitos olhares trocados furtivos. Vários telefonemas ficaram interrompidos por engasgos, rubores, silêncios constrangidos.&lt;br /&gt;Quando o relógio soou seis horas, sem mesmo abotoar o tailheur, Rosa saiu evitando se encontrar com Júnior. Em seu íntimo existia a vontade gritada de  saber quais seriam as palavras do rapaz. Será que ele tinha real interesse ou estava apenas brincando com a balzaca dona da agência? Aquele último olhar dado por ele quando ela tomou o elevador pareceu muito sincero quanto à sua ansiedade.&lt;br /&gt;Rapidamente, após desligar o último computador, Júnior trancou as portas e saiu correndo para alcançar Rosa que já estava meia quadra abaixo. &lt;br /&gt;“Que tomar um sorvete no Bariguí?” Ele perguntou esbaforido.&lt;br /&gt;“Eu e você?” &lt;br /&gt;“Vamos, você me dá uma carona.”&lt;br /&gt;Sem dar-se conta do que fazia, quando percebeu, Rosa estava caminhando no parque chupando um sorvete de morango. As gotas derretidas escorriam entre seus dedos causando sensação melecada em toda a mão. Júnior, ao perceber, segurou-a pelo pulso e lambeu cuidadosamente a pele morena. Rosa não conseguiu se conter, riu entre lisonjeada e constrangida com a breguice do ato.&lt;br /&gt;Interessante como nunca havia dado a devida atenção ao menino. Bom, Dora o havia contratado e  era ela quem cuidava de dar ordens aos office-boys. Já havia percebido que era um meninão mas, dali até passear no parque.... Todas as pessoas ficavam olhando para o casal. Provavelmente achavam que se tratava de mãe e filho. Ela, quarentona.... Por outro lado, que mal havia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento estava silencioso. Quando a porta se abriu nada parecia estar fora do lugar. Sílvia entrou, deixou a bolsa cair no sofá da sala e foi ligar a TV. Nem se preocupou em saber o que acontecia na telinha, foi direto até a cozinha beber alguma coisa. Na delegacia, a água que lhe serviram tinha um gosto horrível. Disseram que era por causa da água sanitária usada para matar o vibrião da cólera. Não bebeu mais que o primeiro gole.&lt;br /&gt;É gozado como certos acontecimento, mesmo sacramentados em papéis assinados, ainda parecem irreais. Por quê Júnior pulou de sua janela? O que aconteceu? Primeiro ele aparece meia-noite pedindo desculpas pela briga acontecida dias atrás. &lt;br /&gt;Depois de alguns minutos de conversa tiram a roupa e trepam gostoso. Dormem. De repente, de manhã, ouve a campainha e verifica que está só na cama. Imagina o que pode ter acontecido com o namorado. Sente-se frustrada por ter caído mais uma vez na mesma conversa. Vestindo um calção velho vai atender a porta e dá de cara com um policial dizendo que encontraram Júnior morto no latão de lixo e precisam que vá reconhecer. Desmaia.&lt;br /&gt;O que foi isso tudo? &lt;br /&gt;A água da geladeira é mineral mas mesmo assim foi fervida. Usando um copo de cristal, herança de sua avó, antiga dona do apartamento, bebe dois copos e ainda enche mais um para levar até o quarto. Deita-se na cama olhando a janela fechada. Apesar do calor, está com receio de tocar na tranca. Não vai conseguir dormir de jeito nenhum. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sílvia, desculpa, peloamordeDeus!” Júnior falava antes mesmo da porta estar completamente aberta.&lt;br /&gt;“Júnior! Eu já estava dormindo! Não dava para esperar até amanhã?” Entre bocejos, Sílvia falou com a porta entreaberta. &lt;br /&gt;“Eu te amo, tá entendendo? Desculpa minhas cagadas, por favor!” E caiu de joelhos mostrando o que tinha entre as mãos: um buquê de flores do campo, daqueles bem baratinhos.&lt;br /&gt;“Pára com isso! Vem, entra antes que os vizinhos acordem.”&lt;br /&gt;Apenas de camiseta, sem nada por baixo, Sílvia puxou Júnior para dentro de seu apartamento. Estava tudo na penumbra e os dois abajures acesos mal permitiam distinguir o novos quadros colocados nas paredes. Depois de dois anos como proprietária, ela decidiu tirar as velharias que sua avó gostava e substituir por reproduções mais modernosas. Tipo Van Gogh, desenhos de Braque, etc.&lt;br /&gt;Sentaram-se no sofá.&lt;br /&gt;“Agora fala, o que você quer.” Sílvia, apertando as coxas, perguntou à Júnior que ainda segurava o buquê.&lt;br /&gt;“Vim pedir desculpas. Vim dizer que nunca mais vou galinhar ninguém. Vim pra pedir perdão e jurar que daqui para frente só vai existir você na minha vida. Até eu morrer.”&lt;br /&gt;Ele falou tão sério, olhando tão profundamente nos olhos que ela mal pode conter o suspiro. Naturalmente os músculos de suas pernas relaxaram, o os braços descruzaram. Por sob a camisa dava para perceber o coração batendo intenso. Os bicos dos seios enrijeceram.&lt;br /&gt;Não sei dizer se foi exatamente neste momento que se beijaram mas, com certeza, foi ali que aconteceu o perdão. As flores caíram, as roupas ficaram no chão e o antigo sofá de mola mostrou que realmente era resistente.&lt;br /&gt;Durante o sexo, Júnior não tirava os olhos de um quadro pequeno pendurado ao lado da televisão. Uma figura arredondada segurando a cabeça e parecendo gritar... mas sem som algum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do carro, Rosa acendeu um cigarro antes mesmo de abrir a janela. Haviam flores amarelas no pára-brisa, caídas da grande árvore Ipê plantada no quintal vizinho ao estacionamento. Com a acelerada e a curva para entrar no asfalto, elas caíram. &lt;br /&gt;Na cabeça de Rosa haviam milhares de idéias. Dá até para dizer que várias Rosas brigavam pelo pequeno espaço. Havia a Rosa do dia anterior, a que não conseguia esquecer como foi bom transar com um rapaz cheio de energia. Havia a Rosa das primeira horas da manhã, cheia de dúvidas sobre a maneira como iria se portar ao encontrar Júnior. Havia a Rosa alguns momentos à frente, que são muitas, todas possibilidades de comportamentos ao encontrar a namorada de Júnior. E, finalmente, a Rosa do presente, engolida nesse turbilhão de egos.&lt;br /&gt;Fazia tanto tempo que não se apaixonava, não era tratada como mulher que, quando aconteceu, seu coração derreteu fazendo escorrer por terra a máscara cuidadosamente criada desde o dia que se separou do primeiro marido. E foi tão fácil. Simplesmente entregou a chave ao rapaz para que ele tomasse a direção.&lt;br /&gt;“Onde você quer me levar?” Perguntou Rosa enquanto Júnior tomava a rua esquerda.&lt;br /&gt;Ele sorriu uma vez mais passando a mão no joelho de Rosa. O sol, quebrando no pára-brisa, fez com que ela abaixa-se o quebra-sol. A rádio, ligada aleatória, zunia uma canção regravada: “Oh, meu amor, não fique triste, saudade existe para quem sabe ter. Minha vida cigana me afastou de você, por algum tempo vou ter que viver, por aqui, longe de você...”&lt;br /&gt;Para um dia da semana, seguindo rumo ao bairro Santa Felicidade, estava movimentado. Devia ser por causa do calor. As árvores que cercavam a estrada balançavam suaves. Parecia um dia de verão de filme americano.&lt;br /&gt;“Quando eu me sinto só preciso andar. Depois de passar algumas horas indo para lá e para cá, sem destino, minha cabeça clareia e tudo melhora.”&lt;br /&gt;Rosa achou graça do jeito meigo do rapaz. Sentia vontade de pegá-lo no colo e carinhá-lo como se fosse uma criança. E será que não era? Ele ainda não havia completado vinte anos! Uma ponta de arrependimento percorreu sua barriga. O que ela estava fazendo ali? Não nasceria nenhum relacionamento duradouro. Uma quarentona namorando um adolescente? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quinze anos atrás, quando ainda vivia os vinte e cinco anos, conheceu quem supôs ser o homem de sua vida. Alto, moreno, cabelos levemente grisalhos, pouco mais de quarenta anos. Profissionalmente resolvido e descasado. Convidou-a para sair logo no primeiro dia de trabalho. &lt;br /&gt;Rosa, recém-formada em comunicação, deveria trabalhar como relações públicas da Aurora, Travel and  Guides. Apesar do curso de fama liberal, passou incólume os sete anos que levou para sua formação. Não teve namorado, não teve sexo, mal conheceu pessoas. Ia para a faculdade cansada pelo trabalho noturno na compensação de um banco e resolvia sua notas sempre de última hora. De todo jeito, formou-se e arranjou o emprego.&lt;br /&gt;No primeiro encontro ele quis arrastá-la para um motel. Ela não aceitou mas, no dia seguinte, sorriu quando Rogério entrou na agência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O último cigarro.&lt;br /&gt;Sílvia acendeu na boca do fogão.&lt;br /&gt;Às vezes inspirar fundo é nossa única opção. Dá uma sensação de preenchimento que, de algum modo inexplicável, alivia a tensão. Mas logo tudo volta.&lt;br /&gt;A fumaça foi enchendo devagarinho a cozinha. &lt;br /&gt;Sentada no ladrilho, ao lado do bujão de gás, Sílvia procurava em suas lembranças algo que a animasse. Qualquer coisa servia. Tentou buscar qual era a sensação do nhoque preparado por sua mãe. Passou a mão nos próprios cabelos rememorando como seu pai fazia quando ela se sentia triste. Engoliu em seco a vontade de chorar e a frustração por não brotar lágrima alguma.&lt;br /&gt;Filha-da-puta do Júnior!!!! Por quê ele inventou de se matar? Será que sentia tanta raiva dela? Como ele pode tomar uma atitude tão irresponsável? Eles transaram, depois ele ainda se ofereceu para pegar uma coca na geladeira. Foi até engraçado ver ele pelado, com o pinto balançando, indo e voltando.&lt;br /&gt;“Eu te amo!” Júnior falou em seu ouvido.&lt;br /&gt;“Eu sei....” Silvia respondeu sem virar o rosto em sua direção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com a demora de Rosa, Dora foi ela mesma no chaveiro e tratou de conseguir entrar. Tirou da própria carteira o dinheiro para pagar o homem.&lt;br /&gt;Todos os quatro funcionários sobreviventes estavam ali esperando quando a porta se abriu.&lt;br /&gt;Na secretária eletrônica, um recado:&lt;br /&gt;“A senhora Rosa Fernandes deve comparecer com urgência ao hospital de clínicas e entrar em contato com o dr. Augusto Schnitzer.”&lt;br /&gt;Dora pensou se não seria isso que teria acontecido com Rosa. Será que ela estava doente e não falou nada?&lt;br /&gt;“Chico, liga o ar que não quero morrer de calor aqui dentro!” Dora gritou para o menino do câmbio.&lt;br /&gt;Com quinze minutos de atraso, tudo começou a funcionar. Após atender o primeiro cliente as preocupações de Dora com a saúde de Rosa desapareceram completamente. Mas continuou puta com o desaparecimento da sócia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há varias maneiras de se viabilizar uma empresa. De todas elas, a mais simples é se associar a amigos. O problema são as complicações emocionais. No caso de Dora e Rosa, duas descasadas que se conheceram por acaso por terem o mesmo advogado, tudo foi tranquilo. Usaram o dinheiro conseguido na separação para viabilizar a empresa e, fazendo o marketing de viagens para descasadas e viúvas, fizeram a agência funcionar.&lt;br /&gt;Em dez anos de funcionamento nunca tiveram briga. A não ser aquela vez que Rosa descobriu que Dora usava a agência para conseguir amantes. &lt;br /&gt;“E o que você tem com  minha vida pessoal?” Gritou Dora.&lt;br /&gt;“Eu, eu sou sua amiga. Conheço todos os seus filhos. O que eles vão pensar?”&lt;br /&gt;“Rosa, se você é mesma minha amiga vai parar por aqui a conversa.” E virou-se para sair mas, antes, enquanto caminha rumo à porta, sem se virar, completou. “E nunca mais meta meus filhos no meio de nossas conversa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da bolsa, Rosa tirou uma escova e se penteou usando o espelho do elevador. Sua camisa de seda branca estava marcada de suor. Culpa sua por não ter lembrado de encomendar um refil do desodorante roll on da Natura. &lt;br /&gt;Quando as portas se abriram o corredor se apresentou. Um forte cheiro de bolor incomodava suas narinas. Era a renite se fazendo perceber. &lt;br /&gt;O prédio na rua Presidente Faria causou problemas na hora de estacionar. Precisou deixar o carro quase três quadras de distância, quase na reitoria da universidade federal.&lt;br /&gt;Enquanto percorreu o caminho até o prédio foi pensando no que iria dizer à namorada de Júnior. Várias vezes parou no meio da calçada em dúvidas se deveria realmente continuar com aquilo. Continuou apesar da dúvida.&lt;br /&gt;Como ninguém respondia o interfone, o porteiro deixou que Rosa subisse para verificar. Todos já sabiam o que havia acontecido com Sílvia e, ao verem a senhora pomposa, pensaram que devia ser sua mãe ou tia.&lt;br /&gt;“Quem é você?” Perguntou Sílvia ao abrir a porta.&lt;br /&gt;“Meu nome é Rosa, você não me conhece mas... “ Havia um cheiro estranho no ar.&lt;br /&gt;Com um forte empurrão, apesar dos protestos de Sílvia, Rosa invadiu o apartamento e foi direto até a cozinha. Sem pensar direito pois se tivesse parado teria saído correndo, desligou o registro do gás. Só então se voltou para a jovenzinha.&lt;br /&gt;“Você queria se matar?” Perguntou Rosa segurando Sílvia pelos ombros. &lt;br /&gt;“Eu....” Súbito as lágrimas brotaram e Sílvia se abraçou à Rosa, completamente abestalhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas parecem possuir sua própria lógica. Quando os sentimentos estão confusos, os segundos demoram a eternidade como se percorressem todos os quilômetros de veias e artérias de nosso corpo. Cada instante explode dentro do ser julgando a existência sem piedade alguma. O que alivia são as flores...&lt;br /&gt;Rosa, com Sílvia entre seus braços, não cessava de acariciar aqueles longos cabelos e consolar, maternalmente, a bela menina.&lt;br /&gt;“Desculpa, eu não sei o que aconteceu. Eu estava aqui, sem saber o que fazer e, sei lá, liguei o gás. Eu não quero morrer...” Seus olhos vermelhos procuraram o rosto de Rosa clamando solidariedade. “Eu queria só descansar, não pensar no que aconteceu.”&lt;br /&gt;“Às vezes é difícil.”&lt;br /&gt;Pelas janelas recém-abertas, o vento aquecido pelo sol trouxe a poeira e a fuligem da rua. Imperceptível aos olhos, todos os móveis, chão e objetos foram sendo cobertos. Na pele de ambas, marcando invisível, lágrimas buscavam limpar as dores de um dia estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na entrada do Motel, Rosa pediu que Júnior parasse. Um momento de hesitação teria tornado todo o passeio improdutível. Mas ele não piscou, simplesmente pediu a suíte e foi adiante.&lt;br /&gt;Até entrarem no quarto não houve troca de olhares ou palavras. Rosa, sentindo-se estranhamente livre depois que a porta da garagem baixou, foi a primeira a entrar. Curiosa, apesar de não ser a primeira vez que ia a um motel, foi verificar todos os detalhes. &lt;br /&gt;As cortinas vermelhas, a cama redonda, a sauna seca e úmida, o filme pornô no circuito interno.&lt;br /&gt;“Gostou?” Perguntou Júnior.&lt;br /&gt;“É igual aos outros.” Respondeu Rosa, sem dar muita atenção, fingindo naturalidade. &lt;br /&gt;“Se eu pudesse, te pagava a presidencial.”&lt;br /&gt;Rosa sorriu mas sua vontade era pular no pescoço do garoto e cobrí-lo de beijos. Contendo-se, deixou a bolsa sobre a mesinha, junto ao frigobar, e abraçou Júnior suvaemente. Trocaram o primeiro beijo. E ele foi longo.&lt;br /&gt;Esquecendo celulites, culotes, estrias, deixou que o rapaz tirasse todas as suas peças de roupa uma a uma. Gostou de ouvir a música romântica, sertaneja, tocada alta pelos alto-falantes. Sentindo-se a mulher mais sensual do mundo, abriu as pernas adorando o que Júnior sabia fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O amor não precisa das pessoas, as pessoas precisam do amor. Quando se encontra alguém que faz nosso corpo vibrar, é naquele momento que se deve investir. Se você deixa para depois, tchau!”&lt;br /&gt;“Tudo bem, Júnior, pra você é fácil falar por causa da sua cara-de-pau. Mas, pra mim – putz! - é difícil demais!”&lt;br /&gt;Reinaldo encolheu os ombros e apressou a passada para poder entrar na frente. O banco estava lotado e precisariam esperar. Se não tivessem perdido tanto tempo no fliperama talvez pegassem menos fila.&lt;br /&gt;“Eu tô te falando, Rei, não adianta ficar esperando cair do céu, precisa investir. Nenhuma mulher vai chegar: ‘Ai, meu bem, me come!’”&lt;br /&gt;Reinaldo solta uma risada com o falsete e a mímica de Júnior. Outras pessoas ao redor passam a prestar atenção à conversa.&lt;br /&gt;“Rei, sai dessa! A gente precisa aproveitar a vida, só isso! Não tem essa de ficar sonhando com filminho romântico, desses em que tudo acontece sem que se faça força. Deixa fluir, mas, de vez em quando, precisa remar!”&lt;br /&gt;“Você comeu mesmo a Dora?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silvia foi até a cozinha fazer um café. Rosa ficou na sala olhando as fotografias, os desenhos e reproduções. Apenas uma lhe chamou a atenção. Uma em que aparecia um grande grupo de jovens e Júnior se destacava. Com três meninas enlaçadas em seu abraço, sorria feliz.&lt;br /&gt;“Ele transou com as três.” Falou Sílvia, chegando sem que Rosa houvesse percebido.&lt;br /&gt;“As três?” Rosa respondeu surpresa.&lt;br /&gt;“Não juntas, mas uma de cada vez. Talvez você não saiba mas o Júnior era o cara que tinha o melhor papo da cidade. Era impressionante, quando você via, ele já estava em cima de você e você adorando.” Sílvia abaixou os olhos e suspirou. “Filha-da-mãe!” &lt;br /&gt;O coração de Rosa palpitou mais forte quando percebeu nos olhos de Sílvia aquela ponta de desgosto que caracteriza os amores mal acabados. E ela que nem ao menos pode usufluir longamente do rapaz. Claro, na noite em que passou em claro relembrando os toques, beijos, os cheiros, sentiu-se feliz como uma adolescente, nem ao menos escovou os dentes antes de ir para a cama para que o gosto da saliva de Júnior, meio acre, não desaparecesse deixando-a abandonada à lembranças puramente imagéticas.&lt;br /&gt;“Vou aceitar um cafezinho.” Rosa falou querendo ganhar tempo.&lt;br /&gt;“Ah, claro. Quer tomar na sala ou pode ser na cozinha mesmo?”&lt;br /&gt;“Na cozinha está ótimo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o que você fala pra elas?” Perguntou Reinaldo, cada vez atraindo mais a atenção das pessoas na fila.&lt;br /&gt;Sem disfarçar o orgulho, Júnior enfiou as mãos no bolso e, devagarinho, a retirou, vazia.&lt;br /&gt;“Não falo nada.”&lt;br /&gt;“Ah, qual é? Você mesmo disse que precisa remar.”&lt;br /&gt;“Bom, primeiro eu escuto bastante e descubro o que elas acham importante. O que elas gostam, o que odeiam, o que sonham; depois eu trato de falar só sobre o que interessa a elas.”&lt;br /&gt;A fila andou um pouco. Reinaldo balançou a cabeça negativamente.&lt;br /&gt;“Isso eu também faço, mas eu não como todas!”&lt;br /&gt;“Aí é preciso ‘timing’. Precisa perceber o momento em que elas estão mais abertas. E, claro, precisa gostar muito, mas muito mesmo, de toda e qualquer mulher. Não só as bonitas, precisa saber ver o que cada uma tem de legal para oferecer. Claro, se você se interessa pelo universo delas é mais fácil mostrar que você às entende.”&lt;br /&gt;“Tipo, ler revistas femininas?”&lt;br /&gt;“Não, isso é superficial. Precisa saber que através dos olhos delas o mundo tem outras cores. Ao mesmo tempo que elas são mais práticas, elas precisam acreditar no que fazem. Essa história de que são mais sensíveis é verdade, mas também são mais cruéis porque têm esse lado prático muito aguçado. Senão, imagina como era no tempo das cavernas. Sobreviver e criar os filhos não era fácil não.”&lt;br /&gt;“Não entendi.”  &lt;br /&gt;“Hoje em dia já é difícil ser mãe, imagina antes da roda, no tempo das cavernas. Pra conseguir criar uma criança precisa ter uma laço muito forte: um puta amor; mas também precisa ser muito prática.” Parou um instante para respirar.  “Pra mim, hoje em dia as mulheres confundem o amor pelos filhos, aquele usado para sobrevivência da espécie, com o amor sexo. Bom, no fundo, elas querem um homem que as proteja do mundo e ao mesmo tempo dê espaço para o que amor materno apareça. Acho que é por isso que muito casamento acaba quando nasce o primeiro filho. Acaba a confusão.”&lt;br /&gt;“Não entendi.” &lt;br /&gt;A fila andou mais um pouco. Uma mulher próxima coçou a cabeça. Um grupo de rapazes sorriu divertido. Um careca mais à frente olhou para os dois rapazes e fez uma careta como se estivesse concordando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso acender um cigarro?” Perguntou Rosa.&lt;br /&gt;“Na varanda.” Sílvia, enquanto tirava a mesa, apontou a sacadinha na outra ponta da sala.&lt;br /&gt;Para Rosa, a confusão em que estava se metendo era uma necessidade. Ela não percebia que se ficasse quieta tudo transcorreria sem confusão. Demoraria algum tempo para superar o trauma de ter trepado com um rapaz suicidada, justamente na noite de sua morte mas, de qualquer maneira, tudo acabaria passando pois ninguém sabia da história. Ela não percebia que o trauma maior não era o ocaso público mas, os olhares curiosos. Se sua dor ficasse restrita ao coração, no pior dos casos, consultaria um analista ou um padre que pudesse ouví-la e sublimar a culpa. &lt;br /&gt;“Eu fiz amor com Júnior na noite em que ele se matou...” &lt;br /&gt;Em um tom mais baixo que seu normal, falou Rosa entre uma baforada e outra. Da cozinha, com a torneira elétrica ligada, Sílvia mal ouviu mas entendeu o nome de seu namorado.&lt;br /&gt;“Não entendi, repete!” Sílvia gritou enquanto secava as xícaras. &lt;br /&gt;Jogando meio cigarro, ainda aceso, pela borda da mureta, Rosa entrou novamente na sala, apanhou a bolsa em uma vã esperança de poder escapar logo após a confissão. Aproximou-se de Sílvia que saia da cozinha.&lt;br /&gt;“Já vai embora?” Sílvia sorriu um riso frouxo.&lt;br /&gt;“Preciso te confessar uma coisa.” Balbuciou Rosa, cabisbaixa.&lt;br /&gt;“Você transou com o Júnior. Se for isso, eu já suspeitava.” Pela primeira vez, Sílvia realmente sorriu. Em parte pelo constrangimento daquela mulher à pouco tempo amiga. “Não precisa ficar espantada. Como eu já disse, ele era o melhor papo da cidade.”&lt;br /&gt;“Você não está brava?”&lt;br /&gt;“Imagina!”&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo que apanhando o controle remoto da TV, Sílvia puxou Rosa para sentar-se novamente no sofá. Ligou a televisão mas deixou mudo o som.&lt;br /&gt;“Você devia parar de fumar. Fica um cheiro horrível a mistura de perfume com nicotina.” Sílvia segurou a mão de Rosa que, naquele momento, piscava os olhos vermelhos. “Eu não me importo de você ter transado com Júnior, eu sabia que ele cantava todas as mulheres mas, sabe como é, ele sempre voltava pra mim.”&lt;br /&gt;Gotas grossas escorreram dos olhos de Rosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino parecia confiante demais, e Dora gostou disso. Sempre achou que homens que não conseguiam dominar as situações, aqueles tímidos, na hora do vamos ver, acabavam ficando apressados demais e não alcançavam os resultados desejados. E Júnior, definitivamente, não tinha timidez alguma naqueles olhos castanhos.&lt;br /&gt;“Tudo bem, você tem alguma experiência?” Perguntou Dora, aceitando o jogo para ver quem desviava o olhar primeiro.&lt;br /&gt;“Bom, eu já trabalhei antes, mas nunca em escritório.” Júnior respondeu, sorrindo malicioso.&lt;br /&gt;“E o que você fez?”&lt;br /&gt;Primeiro ele se ajeitou na cadeira, depois passou a mão nos cabelos ajeitando o que não tinha que ser ajeitado. Sua camisa preta, mal passada, lhe dava aquele ar de desleixo que os meninos acham que as meninas  gostam. Aproximou-se inclinando o tronco para a frente.&lt;br /&gt;“Fui striper.” Nem tentou disfarçar o orgulho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você conheceu o Júnior em uma boate?” Rosa não acreditou.&lt;br /&gt;“Despedida de solteira de uma amiga. O Júnior tava lá, tirando a roupa e eu, animadinha, fui pro palco. O desgraçado ficou de pau duro e, na hora, tirou da sunga um bilhetinho e me entregou.”&lt;br /&gt;Rosa sorriu achando graça da ousadia da nova amiga e ao mesmo tempo sentiu-se embevecida pois Júnior a havia escolhido tendo Sílvia, tão linda, a seu lado. Em tempo algum ela fora tão bela. Seus cabelos, a vida inteira, nunca obedeceram penteados ou qualquer produto fixador. Culpa dos inúmeros redemoinhos em seu couro cabeludo. Sua pele, áspera demais, herança do pai siciliano, melhorou um pouco com o passar da idade, menos pelo tempo, mais pelo uso de cremes importados. Mas, o que sempre a incomodou sempre foram os quilinhos a mais.&lt;br /&gt;“Você me acha gorda?” Interrompendo o assunto, Rosa perguntou.&lt;br /&gt;“Gorda? Não, pelo amor de Deus, você está ótima. Quando eu estiver com sua idade espero estar em forma como você!”&lt;br /&gt;Sílvia não percebeu a indiscrição. Rosa sorriu constrangida, perdoando o arroubo da juventude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Certo, então você é o tal do peladão que aparece no comercial de ferragens?” Dora, cada vez mais animada, continuava a esticar o assunto.&lt;br /&gt;Júnior ergueu o braço direito e mostrou o muque. Desculpou-se por ser apenas a sombra do que aparecia na televisão mas justificou-se dizendo estar a vários meses sem frequentar as aulas de musculação. Mais uma das razões porque precisava de dinheiro. Não comentou os anabolizantes que sempre ajudaram seus músculos a serem protuberantes, não era da conta da mulher.&lt;br /&gt;Ao final da conversa, seduzida pelas maneiras alegres do garoto, Dora o contratou. Imediatamente saíram da sala de reuniões e foram de mesa em mesa. A única que não mostrou entusiasmo pelo novo funcionário foi Rosa, entretida no meio de papéis contábeis.&lt;br /&gt;“Não se preocupa, logo ela se desliga daquilo e vai conversar com você.” Confidenciou Dora, ao pé do ouvido de Júnior.&lt;br /&gt;“Por mim, tudo bem!”&lt;br /&gt;“Mais tarde, se você quiser, eu te dou uma carona.” Cochichou Dora antes de voltar à própria mesa.&lt;br /&gt;“Claro que eu quero!” Junior quase pulou de entusiasmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Separando a correspondência, já adivinhando o teor da conversa entre a patroa e o novo boy, Reinaldo abaixou a cabeça concentrando-se novamente em sua tarefa. Não podia dizer que sentia inveja, achava dona Dora muito feia, mas, por outro lado, ela cantou todos os meninos - menos ele - e isso devia significar alguma coisa.&lt;br /&gt;A única pessoa que o tratava como gente dentro da agência era dona Rosa. Nunca esquecia seu aniversário e, sempre que precisava de um vale, ela dava um jeito. Nem sempre do valor pedido, mas sempre arranjava algum. &lt;br /&gt;Reinaldo sabia que as meninas riam dele. Achavam seu jeito muito esquisito, besta mesmo. Mas, ele não tinha culpa. Bem que gostaria de se vestir melhor mas, todo seu dinheiro era para ajudar a mãe com as contas e, quando sobrava algum, acabava comprando os panos mais baratos. Falando nisso, o tênis já estava precisando de um conserto.&lt;br /&gt;“E aí, Rei, o que eu posso fazer?” Júnior se aproximou batendo a mão nas costas de Reinaldo. “A patroa mandou você me explicar o serviço.”&lt;br /&gt;“Primeiro a gente precisa separar as cartas. As contas de um lado, os folhetos de outro, e as cartas pessoais naqueles escaninhos.”&lt;br /&gt;Pegando um maço, Júnior se pôs a trabalhar. Poderia render mais se a todo momento não parasse para ler os remetentes das cartas pessoais. Achava graça e tirava sarro quando o nome era cacofônico. &lt;br /&gt;“Olha só esta aqui: Armando Pinda. Se fosse pinto, comprometia.” &lt;br /&gt;Júnior riu e Reinaldo o acompanhou. “E aí, Rei, já comeu alguém aqui dentro?”&lt;br /&gt; “Bem que eu queria.” Reinaldo respondeu com pouco entusiasmo. “Me chama de Reinaldo, por favor.”&lt;br /&gt; “Reinaldo? Tudo bem. Olha, acho que hoje ainda eu como a patroa.”&lt;br /&gt; “Dona Dora? Bom, isso não é vantagem. Ela dá pra todo mundo.”&lt;br /&gt; “Ela dá pra todo mundo? Isso não é jeito de falar, Rei-nal-do. Quando a mulher se dispõe a transar com você ela não está te dando nada, o que acontece é um compartilhamento! Você não gosta de mulher?”&lt;br /&gt; “Elas não gostam de mim.”&lt;br /&gt; Para conversar, Júnior parou completamente o serviço, não fosse Reinaldo ser muito ágil, nada seguiria adiante. Terminando de separar a correspondência, Reinaldo apanhou o bolo das contas e deixou na mesa de Rosa, os encartes foram todos para o lixo e as cartas pessoais deixadas de mesa em mesa. Quando voltou ao canto dos boys, Júnior o esperava com dois cafezinhos. &lt;br /&gt; “O que você quis dizer com elas não gostam de você?” Perguntou Júnior.&lt;br /&gt; “Cara, você  é cego? Olha pra mim.” Ergueu a voz, indignado com a falta de senso do companheiro de trabalho.&lt;br /&gt; “Tá, e aí?”&lt;br /&gt; “Eu sou feio.” Baixou a voz pois estava chamando a atenção. “Eu sou pobre e feio, só isso. As mulheres querem os caras com grana ou, pelo menos, bonitões.”&lt;br /&gt; “Você tem pinto?”&lt;br /&gt; “O quê?”&lt;br /&gt; “Pinto, caralho, cacete! Você tem um, não tem?”&lt;br /&gt; “Claro que tenho.”&lt;br /&gt; “Então, você tem tudo o que precisa. Você precisa parar de pensar com a cabeça das mulheres e pensar como homem. Esse negócio de ficar se julgando, supondo o que os outros acham de você vai acabar deixando você complexado.”&lt;br /&gt; Encostados na mesinha do telefone, falando em tom baixo, pareciam fuxicar algo importante. Rosa, de sua mesa, observava e não gostava. Ainda havia muito serviço a ser feito, principalmente arquivar as contas do mês passado que já deveriam estar em seus lugares. Sem que isso fosse feito não dava para digitar na memória do computador e pôr as contas em dia.&lt;br /&gt; “Olha aqui, Júnior, acho que você deve mais é se meter com sua vida.”&lt;br /&gt; “Eu só quero ajudar.”&lt;br /&gt; “Então, cara, ajuda ficando.... oi, dona Rosa, a gente já tá indo arquivar os relatórios.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Sílvia tomou seu banho rapidamente. Antes do meio-dia e meio já estava no carro de Rosa se encaminhando ao shopping Cristal. Foi interessante como tão rapidamente se tornaram amigas. Provavelmente se Júnior ainda estivesse vivo estaria se tratando às unhadas mas, como o dito morreu, trocavam confidencias  tentando descobrir porque ele se matou e qual o motivo da infelicidade de cada uma.&lt;br /&gt; “Posso acender um cigarro?” Perguntou Rosa.&lt;br /&gt; “Claro, o carro é seu.” Mas, por via das dúvidas, Silvia abriu a janela para garantir um ar respirável. &lt;br /&gt; “Não dá mesmo pra entender, não é? Ele tinha, aparentemente, todas as mulheres que queria e, mesmo assim, se matou. Olha eu, completamente frustrada em todos os ramos amorosos possíveis e imagináveis e nem cogito furar o braço para um exame de sangue.”&lt;br /&gt; “Tem coisas na vida das pessoas que a gente nem imagina.” Virou-se para encarar a nova amiga. “Eu, por exemplo, moro sozinha desde os quinze anos e, desde o dia que tive minha primeira transa, nunca fiquei mais de seis meses com o mesmo cara. Não é que eu não tenha tentado mas, sei lá, nunca deu certo. O Júnior foi o primeiro que, do certo modo, permitiu existir uma relação.”&lt;br /&gt; “Mas, do jeito que você falou parece que ele vivia te traindo.”&lt;br /&gt; “Eu nunca fui santa, também. Mas, não é esse o caso. Ele me traia, mas sempre contava o que estava acontecendo. De certo modo, eu não podia cobrar dele outra atitude. Desde o começo a gente se deu traindo outros. Eu tinha um namorado e ele tinha a dele.”&lt;br /&gt; “Eu nunca vou entender direito como vocês se comportam. No meu tempo não tinha essa história de ficar, tansa com um, transa com outro. Era diferente.”&lt;br /&gt; O carro fez o contorno pela Rua Comendador Araújo até entrar no estacionamento do shopping Cristal. Rosa, meio nervosa por precisar estacionar em uma vaga relativamente apertada, demorou dois minutos a mais do que o normal. Sílvia tentou mas não conseguiu esconder a risada pela dificuldade da amiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Foi estranho dar adeus ao pai pela sacada. Não teve coragem de segui-lo até o carro pois sabia que ia desabar no choro. Mas não adiantou muito. Vendo o apartamento vazio, cheio de móveis novos – os sofás ainda cobertos pelo plástico – mal deixou a sacada seu riso desapareceu. Deitou no carpet mastigando os sentimentos que se misturavam. Estava satisfeita consigo mesma por estar independente em Curitiba mas, por outro lado, tremia imaginando o que poderia lhe acontecer dali para diante. E tinha a questão do pai, também. Ele jamais teria aceitado que ela morasse sozinha não fosse a nova namorada - aquela perua entupida!&lt;br /&gt; Existem momentos na vida que parece que as coisas disparam. De repente, como se fosse a coisa mais simples do mundo, seu pai chamou-a até o escritório comunicando que avia comprado um apartamento em Curitiba para que ela pudesse preparar-se melhor para o vestibular. Na hora Sílvia não percebeu a jogada, foi preciso um tempinho. &lt;br /&gt; Mas, agora, isso não interessava, o caso é que tinha o mundo inteiro pela frente e ele estava aberto a todas os seus desejos de conquista. Não seria esse o sonho de todo adolescente? Morar sozinho, com dinheiro para gastar e ninguém para tomar conta? &lt;br /&gt; Na primeira noite não saiu. Preferiu ficar em casa sofrendo as dúvidas da solidão. Lá fora, através da vidraça, dava para ver a chuva caindo e isso intensificava o sentimento de abandono. Será que todo adolescente é maníaco-depressivo? De um momento para outro o ânimo dá saltos e desaparecem frustrações transformando dúvidas em certezas, ou o contrário. &lt;br /&gt; 9 da noite, toca a campainha. Através do olho mágico uma pessoa que não devia estar ali.&lt;br /&gt; “Jaime, o que você tá fazendo aqui?”&lt;br /&gt; “Tomei um ônibus. Não podia deixar você sumir assim, sem mais nem menos.”&lt;br /&gt; “E aquela pose de durão?”&lt;br /&gt; “Eu fui besta. Fiquei frustrado porque você tinha que mudar de cidade e fiquei agressivo. Você me desculpa?”&lt;br /&gt; “Bom, primeiro entra e se enxuga.”&lt;br /&gt; Jaime era o namorado que ficou para trás. Não eu houvesse alguma força naquele relacionamento de quatro meses, primeiro namorado atravido, mas foi legal que ele chegasse daquela maneira, repentino. Foi como uma cena de filme, só que Sílvia não pulou de alegria, nem o agarrou para fazerem amor no tapete. Simplesmente deixou que entrasse e, enquanto ele  se enxugava em uma toalha de rosto, esquentou chocolate no microondas. &lt;br /&gt; “Achei que você não queria mais me ver.” Sílvia falou enquanto entregava a caneca à Jaime. Aquele jeito de menino abandonado a fazia sentir pena.&lt;br /&gt; Deu um gole, mais outro e colocou a caneca sobre a mesa de centro. Tirou a toalha da cabeça, tirou a camiseta e puxou Sílvia para um abraço. Chorou.&lt;br /&gt; “Eu não quero ficar sem você. De repente, sabendo que você estava longe de mim, vendo nosso futuro acabar, senti vontade de morrer...”&lt;br /&gt; Não foram as palavras, nem as lágrimas, foi algo mais, alguma coisa que precisava ser resolvida. Uma última cerimônia para definitivamente abandonar o passado. &lt;br /&gt; Respirando fundo, Sílvia puxou Jaime para o quarto e deu adeus ao que, em seu coração, parecia ser o laço final que a prendia à infância.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt; Na praça de alimentação do shopping Cristal, olhando aquela quantidade infindável de adolescentes com suas pastinhas de colégios particulares, Rosa e Sílvia escolheram uma mesa próximo ao café. Sentaram-se esperando que a fila do restaurante chinês diminuísse.&lt;br /&gt; “Como foi que você conheceu o Júnior?” Perguntou Rosa enquanto abria mais uma carteira de cigarros.&lt;br /&gt; “Eu já te falei, foi em uma boate, na despedida de solteira de uma amiga.”&lt;br /&gt; “Ah, é mesmo. Eu me esqueci. Sabe, tem horas que as palavras entram no ouvido e não ficam. Acho que, quando você me falou, eu estava em um desses momentos. Agora, olhando todos esses meninos e meninas, ico imaginando que eles bem podiam ser meus filhos. Eu tenho idade para ser sua mãe.”&lt;br /&gt; Sílvia ouviu e ficou quieta. Ela podia ser mãe de Júnior e não foi isso que a impediu de transar com ele. Não adianta, mulher é tudo concorrente de mulher. Não tem animal mais venenoso. Apesar que, naquela hora, isso não importava. Entre os sons confusos de conversas sem destino, a delas era apenas mais uma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Dora apareceu na mais pura coincidência. Estava passeando, à procura de um local para almoçar quando lembrou que precisava pagar a mensalidade da TV à cabo. Entrou no shopping para isso e aproveitou para comer. Foi com surpresa que viu Dora com aquela mocinha.&lt;br /&gt; “Oi, estou interrompendo algo?” Dora perguntou vestindo seu sorriso mais amarelo.&lt;br /&gt; “Dora, meu Deus, eu esqueci do chaveiro!” Foi uma bela atuação de Rosa, mas não serviu para convencer a platéia.&lt;br /&gt; “Tudo bem. Quem é a mocinha?” Dora já foi se ajeitando e afastando o cinzeiro de sua frente.&lt;br /&gt; “Meu nome é Sílvia!” E aproveitou para colocar no chão, junto ao pé da mesa o cinzeiro com a bituca apagada.&lt;br /&gt; “Vamos comer?” Rosa foi se levantando para aliviar o clima.&lt;br /&gt; Na fila do restaurante não trocaram palavras, ficaram concentradas nos pratos opcionais. Sílvia encheu o seu, Dora foi comedida e Rosa quase não pegou nada, a não ser um pouco de salada.&lt;br /&gt; “Deixa que eu pago.” Rosa tomou a frente.&lt;br /&gt; “Não, não precisa.” Sílvia tentou ser educada.&lt;br /&gt; Dora simplesmente pesou seu prato e foi direto até a mesa. Nem ao menos esperou para começar a comer.&lt;br /&gt; No julgamento de Dora existem vários tipos de pessoas:  as que valem a pena, as que não valem a pena, as belas e as espertas. Naquele momento, Rosa não se encaixava em nenhuma de suas classificações, menos, estava no âmbito da tolerância. Fazer o que fez, largar a amiga com um bando de empregados esperando? Como é possível confiar em alguém assim? Tudo bem que no começo foi engraçado mas, depois, pensando direito, percebeu que havia sido desconsiderada. E isso é uma coisa que não se perdoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; “Vamos embora?” Ainda se enxugando e exalando vapor da sauna, Júnior se aproximou de Rosa que permanecia refestelada sobre a cama redonda.&lt;br /&gt; “Já?” Rosa respondeu meio murmurando. Por ela, ficariam ali para sempre.&lt;br /&gt; “Minha mãe tá me esperando.”&lt;br /&gt; A frase foi engraçada, lembrou um samba antigo dos Demônios da Garoa. Rosa riu abafando o som entre os lençóis. Nauqele momento estava sentindo-se completamente aberta, pronta a receber todo o amor do mundo. Sua bunda, levemente aberta, estava arrepiada não apenas por causa do ar-condicionado mas também pela sensação esperançosa de que a qualquer momento Júnior abandonasse a idéia de partir e a cavalgasse uma vez mais.&lt;br /&gt; “Por quê você quer ir tão cedo? Amanhã você não precisa amanhecer na agência. Eu não sou a dona?” Rosa riu mas, dessa vez, sem esconder a graça pela piada involuntária.&lt;br /&gt; Ainda enxugando os cabelos, pelado, Júnior sentou-se no chão, ao lado da cama. &lt;br /&gt; “Você já comeu fruta-pão?” Júnior perguntou.&lt;br /&gt; “Fruta-pão? Não, já ouvi falar mas eu nunca vi.” Rosa estranhou a pergunta.&lt;br /&gt; “Nem eu. Sabe, tem um milhão de coisa que eu ouvi falar e nunca vou experimentar. É engraçado. É como aquele mundaréu de gente que anda do seu lado na rua e você nunca vai se relacionar realmente. É como se só ouvisse falar.”&lt;br /&gt; O que o menino estava querendo dizer com aquilo? Rosa se ajeitou na cama e, repentinamente atacada por um pudor não cabível à situação, cobriu-se com o lençol. Júnior continuou.&lt;br /&gt; “Na verdade não dá pra saber realmente se tudo o que a gente ouve falar existe. Dragões não existem, mas eu já ouvi falar; cangurus existem, mas eu já ouvi falar. Não é engraçado? A gente acredita no que dizem que é verdade, só isso.”&lt;br /&gt; Usando o lençol como cobertor, Rosa levantou-se para, a seguir, sentar-se novamente e envolver Júnior em seu abraço. É difícil medir mas, naquele momento, sentiu-se tão bem quanto se estivesse tendo o gozo mais intenso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; De manhã, antes que o sol nascesse, Jaime já havia ido embora. Sílvia ainda permanecia na cama imaginando as barbaridades que o babaca iria espalhar para a cidade inteira contando como tinha tirado sua virgindade. Mas, que importava? Dali para diante não precisava mais se preocupar com aquele monte de cabecinhas curiosas preocupadas com a vida alheia. Essa é a grande vantagem de viver em uma cidade grande: as pessoas estão pouco se lixando com quem é você!&lt;br /&gt; Com um salto, levantou, vestiu a mesma calcinha do dia anterior e foi até a cozinha comer alguma coisa. Primeiro abriu a janela, depois ligou o fogão para aquecer água para o chá. Aproveitando os raios de sol que entravam pela janela recém-aberta, ficou de costas aquecendo o corpo. Mastigando pequenas bolachas de água e sal supunha quantas coisas boas adviriam de sua nova situação.&lt;br /&gt; Mais tarde, após tomar um bom banho, precisava sair e comprar algumas roupas novas. Não dava para circular por aí com os mesmos panos brejeiros que usava no interior. O que estava necessitando era um banho de shopping. Iria caminhando através da rua XV até achar um local legal para se produzir. Talvez a loja C/A. Melhor preparada, com o corpo coberto com trajes decentes, iria circular o dia inteiro. Primeiro tomar aquele ônibus que passa por todos os parques para conhecer onde iria passear nas tardes de Sábado e Domingo, depois, mais à tardinha, podia assistir um filme em algum cinema do centro.&lt;br /&gt; Um vento frio a fez tremer ao mesmo tempo que soou o apito da chaleirinha. Quando se virou para colocar o chá preto, viu, do outro lado da rua, um garoto olhando para ela. Rapidamente, usando as mãos, cobriu os seios e fechou a janela. Ficou vermelha mas, um segundinho mais, desandou a rir:&lt;br /&gt; “Até que ele era bonitinho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Quinta-feira é tranquilo. Meio do mês, mais tranquilo ainda. Aproveitando a o horário folgado, Júnior e Reinaldo foram até o brexó da Cruz Vermelha dar uma conferida nas roupas. Apesar do carregamento ter chegado na Segunda-feira, ainda havia uma quantidade razoável na sala do primeiro andar do hospital.&lt;br /&gt; Puxando um paletó amarelo, feito com algo parecido com tafetá, Júnior tratou de combinar com uma calça larga, preta esverdeada e passou para que Reinaldo experimentasse. &lt;br /&gt; “Acho que não vai ficar legal.” Reinaldo resmungou enquanto era empurrado por Júnior até o provador.&lt;br /&gt; Ficaram ali, entre experimenta e troca, mais de duas horas. Ao final, tendo sido escolhidas três camisas, uma de seda e duas de tecido sintético, duas calças de brim color, mais uma jaqueta amarelo ouro que devia ser de pessoa que trabalhava na pesca, pagando ao todo vinte reais, foram embora.&lt;br /&gt; “Pô, Júnior, eu não sei se vou ter coragem de usar esses panos. Eu até agradeço você me emprestar a grana mas, sei lá, acho que não faz muito meu estilo.” Reinaldo carregava as duas sacolas e falava preocupado.&lt;br /&gt; “Fica frio, amigão, daqui pra diante vai chover mulher na sua horta.”&lt;br /&gt; No ponto de ônibus pegaram o buzunga que descia a rua Cruz Machado e foram sentados em um banco duplo.&lt;br /&gt; “E você, porque não usa essas roupas coloridas?”&lt;br /&gt; “Eu chamo a atenção sem precisar disso.” Júnior sorriu abraçando o amigo. “A primeira regra do jogo da sedução é se fazer perceber. Você não precisa ter um carro zero, nem precisa vestir roupas de grife, mas precisa ser visto. Sabe, ser visto para poder ser amado. Neste final de semana a gente vai sair juntos. Pede pra sua mãe deixar tudo limpinho que sexta-feira eu passo na sua casa e te ensino como se produzir. Meu, não vai sobrar mulher solteira!”&lt;br /&gt; “Sei lá.... Como a gente vai fazer pra guardar as roupas. A gente ainda precisa voltar pra agência.”&lt;br /&gt; “A gente deixa com as meninas na casa de suco, no térreo. E você aproveita e bate um papinho com a morena.”&lt;br /&gt; Reinaldo perdeu o ar, não sabia que Júnior havia percebido que estava paquerando, faz tempo, aquela gracinha que preparava os sucos do escritório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Dora ficou quieta o almoço inteiro. Mesmo quando perguntada fazia questão de não responder. Sílvia que nada tinha a ver com a história é quem pagou o pato. Ficou extremamente constrangida na situação. Principalmente por não saber o que realmente se passava. Quando Dora se despediu foi um alívio. Sem esperar muito, morrendo de curiosidade, Sílvia perguntou à Rosa.&lt;br /&gt; “O que aconteceu entre vocês?”&lt;br /&gt; “Hoje de manhã, quando eu fiquei sabendo do Júnior, saí correndo da agência e larguei ela sem a chave.”&lt;br /&gt; “Bom, não era motivo de tanto emburramento.”&lt;br /&gt; “Você ainda não conhece a Dora. Ela não é má pessoa. Criou os três filhos sozinha, depois que o marido se mandou com outra. Eu acho que não teria forças pra isso.”&lt;br /&gt; “Nem eu, mas ainda não é desculpa. Já terminou? Vem, vamos passear.”&lt;br /&gt; Largando os pratos na mesa para que a menina do restaurante os apanhasse, as duas se levantaram, rosa acendeu um cigarro e Sílvia apanhou as bolsas, e foram pelo saguão olhando as muitas vitrines. Muita coisa estava em oferta devido à troca da estação. Sílvia, em uma loja de calçados, parou para observar um scarpin preto.&lt;br /&gt; “O que você acha?” Perguntou à Rosa.&lt;br /&gt; “Acho que não combina com seu jeito. Você ainda é mocinha demais para ficar usando esse tipo de calçado e as roupas que acompanham.”&lt;br /&gt; “É, eu sei.” Silvia afastou-se da vitrine e continuou a caminhada segurando Rosa pelo braço. “Sabe, quando eu passar dos trinta, vou cortar os cabelos bem curtinhos e só usar blazer, mini-saia, meia-calça escura e scarpin. Vou ser uma típica curitibana chic.” Largou uma risada alta.&lt;br /&gt; “Você não é daqui?”&lt;br /&gt; “Não, sou de Astorga. Nossa, até o nome é caipira, não é?”&lt;br /&gt; Nem parecia que Júnior estava morto e ambas, cada uma à sua maneira, eram viúvas. Mas, afinal de contas, porque a tristeza com a morte de qualquer pessoa? Foi? Foi! Deixa a vida continuar. Se as viúvas alegres preferem aproveitar a vida rindo, é melhor do que chorar. Nenhuma estava de preto, nenhuma tinha véu no rosto, nenhuma queria morrer fulminada de melancolia profunda; pelo teto envidraçado do shopping a luz entrava anunciando que o sol continuava à perseguir a lua na eterna  corrida celeste.&lt;br /&gt; “Já que sua sócia está brava, vamos passar o dia juntas.” Propôs Sílvia.&lt;br /&gt; “Não sei...”&lt;br /&gt; “Vem, está decidido, vamos às compras!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe de Reinaldo não gostou das roupas que seu filho comprou, pareciam chiques demais e deviam ter custado muito caro. Não adiantou as explicações do menino, a mulher lavou, passou tudo mas ficou cabreira. Foi preciso Júnior chegar, encher a senhora de elogios para que ela amaciasse e soltasse um belo sorriso ao ver seu menino todo bem vestido.&lt;br /&gt;“Nossa, até parece aqueles galãs de filme!” Ela exclamou ao ver Reinaldo saindo do quarto.&lt;br /&gt;Júnior ficou satisfeitíssimo pois era obra sua.&lt;br /&gt;“Vem, vamos logo que as meninas estão esperando.”&lt;br /&gt;“Que meninas?” A mãe de Reinaldo perguntou deixando o filho rubro.&lt;br /&gt;“Todas, dona Maria, todas! A senhora não sabia, seu filho é maior Don Juan de Curitiba.” Júnior falou batendo nas costas  de Reinaldo.&lt;br /&gt;“É mentira dele, mãe.”&lt;br /&gt;Reinaldo tentou consertar mas era tarde demais. Sua mãe já estava enfeitiçada pelo sonho de ter um filho de sucesso. Ela, de verdade, nunca havia percebido como ele era bonito. Olhando de lado, bem vestido, realmente parecia um ator de novelas. &lt;br /&gt;Da porta de casa, exultante, dona Maria deu tchau aos dois garotos que, com certeza, iriam destruir muitos corações naquela noite estrelada. &lt;br /&gt;Vendo o carro se afastando, quase não quis entrar só imaginando a felicidade das meninas ao verem dois rapazes tão bonitos chegando para namorá-las.&lt;br /&gt;“De quem é o carro?” Perguntou Reinaldo.&lt;br /&gt;“Não reconheceu?”&lt;br /&gt;Claro que ele havia percebido que era de dona Dora, mas não quis acreditar. Júnior, definitivamente, estava alguns passos à sua frente; na verdade, à frente de todo mundo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que Dora não estava naquele estado apenas por causa de Rosa. Havia outros assuntos que a preocupavam. Desde que Reinaldo sumiu do emprego e nunca mais ligou, seus sentimentos têm andado confusos. Não devia, nunca, ter dado tanto espaço a ele; agora fica nesse estado. Até parece uma adolescente apaixonada. Bem que gostaria de ir até a casa da mãe dele para descobrir o que realmente se passou. Mas, não, o orgulho não deixa. Se ao menos eles tivessem telefone. Ele não precisava Ter devolvido o celular só porque queria acabar a relação. Foi triste...&lt;br /&gt;Depois que chegou da agência, mais tarde que o normal pois precisou atender aquele pessoal do Rio de Janeiro, encontrou no chão da sala aquelas duas caixas cheias. Não precisou revirar muito para descobrir que eram os presentes que havia dado a Rei. Babaca! Então era essa a maneira de dizer que não queria mais nada com a velhota? Bem que estranhou ele não ido trabalhar aquele dia e, pensando bem, ele já estava estranho fazia uma semana. Para fazerem sexo precisava quase obrigá-lo. Provavelmente encontrou alguma outra idiota dsposta a sustentá-lo. Só que duvido que encontre alguém que realmente o ame.&lt;br /&gt;O primeiro impulso de Dora foi pegar o telefone. Discou os números do celular mas, para sua surpresa, dentro da caixa soou a campainha. Ficou parada, com o fone na mãe, imóvel e sem pensamentos. Entrou em uma espécie de estado de choque pós abandono.&lt;br /&gt;Ele podia ao menos ter explicados, ou, no mínimo, ter deixado uma carta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não se preocupa com o porquê de fumar tanto, Rosa?”&lt;br /&gt;Sílvia, escolhendo os mais diversos doces nas prateleiras das lojas Americanas, não parava obrigando Rosa a ir apressada para manter-se próxima e poder responder sem gritar.&lt;br /&gt;“Eu fumo porque eu gosto.” &lt;br /&gt;“Você deve queimar umas três carteiras por dia, não é?”&lt;br /&gt;“Duas e meia... às vezes três.”&lt;br /&gt;“Não falei!” Sílvia parou como se a resposta fosse a comprovação de que seus argumentos estavam corretos. “Isso é frustração amorosa. Uma maneira inconsciente de dizer ao mundo que não importa com nada. Pode muito bem morrer sozinha. A fumaça vai servir para encobrir seus passos.”&lt;br /&gt;As palavras tiveram um único efeito sobre Rosa: risadas.&lt;br /&gt;“Sílvia, essa é a desculpa mais esfarrapada que eu já ouvi. Eu já disse, fumo porque gosto. Tem alguma coisa no cigarro que me faz sentir inteira.”&lt;br /&gt;“Depois que você trepa você fuma?” Sílvia perguntou de supetão.&lt;br /&gt;Foi preciso parar alguns instante no meio do corredor e rememorar a noite anterior. Realmente, depois que transou com Júnior passou a madrugada inteira sem acender um único cigarro sequer. Mas, deve Ter sido apenas coincidência. Fazia tanto tempo que não fazia amor que, quando fez, acabou ficando maravilhada demais e meio boba. Tão boba que esqueceu os cigarros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rodovia dos minérios, ou rodovia dos motéis, estava clara tantos eram os carros de casais procurando abrigo. Rosa e Júnior eram quase o único veículo fazendo o caminho contrário. Afora o rádio tocando músicas românticas da década de sessenta, imperava o  silêncio. Um caminhão, ultrapassando perigosamente, serviu de pretexto para recomeçarem a se falar.&lt;br /&gt;“Tem gente que não tem medo de morrer...” Júnior comentou baixinho.&lt;br /&gt;“É, e o pior não é morrer sozinho, é saber que ser culpado da morte de inocentes.”&lt;br /&gt;Júnior olhou para Rosa com certo espanto. Diminuiu a velocidade de oitenta para quarenta, quase como se fosse parar, mas desistiu da idéia, acelerou novamente.&lt;br /&gt;“Você tem medo de morrer, Rosa?”&lt;br /&gt;“Não sei, nunca pensei no assunto.” Parou um instante coçando uma mão à outra. “Nào, quando eu me separei pensei seriamente em me matar.”&lt;br /&gt;“Por quê?”&lt;br /&gt;“É difícil precisar terminar um relacionamento. Eu sabia que não dava mais, meu ex-marido não parava de me trair e, além disso, começou a me bater por qualquer motivo.”&lt;br /&gt;“...”&lt;br /&gt;“Mas não me matei.”&lt;br /&gt;Já na garagem, Júnior estacionou o carro e deu um beijo de boa noite no rosto de Rosa. Despediram-se como se fossem apenas amigos.&lt;br /&gt;“Você não quer entrar?” Rosa perguntou, não apenas por educação.&lt;br /&gt;“Não, preciso mesmo ir pra casa.” Foi caminhando de costas. “Eu gostei muito de ficar com você hoje, a gente precisa fazer isso mais vezes. É difícil encontrar alguém com quem conversar.  Tchau!”&lt;br /&gt;Deixando Rosa fechar a porta devagarinho, Júnior perdeu-se na noite. Alguns minutos depois ela correu até a rua lembrando-se que deveria Ter dado uma carona a ele, mas já era tarde, ele não estava mais por ali. Já estava indo longe, longe demais para seu olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reinaldo soube da morte de Júnior antes que qualquer outra pessoa. Foi através de uma carta, do punho do suicida, que a informação veio.&lt;br /&gt;“Morrer deve ser como dormir, mas sem a expectativa de acordar. Só espero sonhar e não ter pesadelos. Sinto muito por tudo que eu fiz pra você, mas, te juro, não foi por querer. De certo modo agi como mãe, dei a vida sem lembrar que a morte vem cobrar na saída. Até rimou.... Mas, tchau, eu vou na frente pra ver se tem luz no caminho.”&lt;br /&gt;Em alguns trechos deu até para rir, mas a cama do hospital continuou do mesmo tamanho e os remédios difíceis de engolir. A enfermeira que entregou a carta, sem perceber e besteria que fazia, perguntou para saber qual era o nome de Júnior.&lt;br /&gt;“Muito legal, o seu amigo.”&lt;br /&gt;“É, eu sei.”&lt;br /&gt;“Ele vai vir te visitar de novo?”&lt;br /&gt;“Não, nunca mais.”&lt;br /&gt;“Vocês brigaram?”&lt;br /&gt;“Não, ele precisou viajar.”&lt;br /&gt;“Que pena. Vocês eram muito amigos?”&lt;br /&gt;“Ele me ensinou como ser feliz nesta vida.”&lt;br /&gt;Ela terminou de arrumar a cama antes de sair sorrindo. Reinaldo pensou em pedir mais uma dose para dormir melhor, mas não o fez. Há momentos em que mesmo a dor serve de companhia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentadas em um banco, igual aos que são colocados nas praças, Sílvia e Rosa descansavam. Uma fumando sem parar, a outra comendo chocolate sem parar. De vez em quando paravam para poderem rir uma da outra.&lt;br /&gt;As pessoas que circulavam pelo saguão iluminado pareciam felizes, despreocupadas com os danos que a vida causa às pessoas. Não era duas da tarde ainda e já havia em todas aquela sensação de anoitecer. Devia ser pela falta de ocupação. Quando não se tem o que fazer qualquer mudança é ótima, o sol se pôr é uma festa e fazer comprar o principal programa.&lt;br /&gt;“Sílvinha!”&lt;br /&gt;O grito cortou o espaço fazendo eco nos ouvidos de quase todas as pessoas que estava no shopping. Com o rosto parecido ao de uma famosa modelo de revista femina, aquela mulher enorme correu até agarrar Sílvia que olhava assustada e surpresa. Fazia quanto tempo que não via Regina?&lt;br /&gt;“Silvinha, você deu uma boa engordada, hein, menina?Já, eu!!!!” Deu duas voltas fazendo girar a saia rodada. “Eu continuo maravilhosa!”&lt;br /&gt;Rosa deu dois passos para trás meio desconfiada. Ela via e ouvia as maneiras daquela mulher percebendo algo de estranho mas sem conseguir identificar exatamente o quê? &lt;br /&gt;“Vem, Silvinha, vamos naquela lojinha ali, e pode trazer sua amiga.”&lt;br /&gt;Sílvia demonstrava claro o seu constrangimento pela maneira como Regina tratava Rosa mas, segura pelo braço, seguiu aos trancos e barrancos a grandona até ser solta entre as roupas caras importadas de grandes estilistas estrangeiros; pelo menos era o que diziam as etiquetas.&lt;br /&gt;“Silvinha, amor, você nem sabe o que me aconteceu. Lembra que já deve fazer bem alguns anos que a gente não se vê, tá certo?” Sem cuidado algum, foi tirando as roupas dos armários e cabides e descartando-as sobre um sofá lateral. “Menina, eu casei!!!” &lt;br /&gt;Foi um choque direto e fulminante mas que resultou positivo. Trocaram um forte abraço que quase acabou com o fôlego de Sílvia. Rosa, ainda de lado, olhando alguns pares de sapatos franceses feitos de couro de coelho, meio cansada de sentir-se excluída, deu início à uma saída sorrateira. Quando já estava quase no corredor foi segura pela mão forte de Regina.&lt;br /&gt;“Espera, garota, onde é que você pensa que vai? Não precisa ficar assim porque eu roubei a Silvinha por alguns instantes. Vem, vamos todas comemorar meu casamento.”  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi em um sonho que ocorreu à Reinaldo que todas as escolhas são falsas. Ninguém, na verdade pode escolher coisa alguma, obrigar acontecimento algum, simplesmente tudo escorre no ralo do tempo. Como ele poderia dizer que o fato de estar largado sobre a cama, quase morto, representa o resultado de seus atos? Poderia Ter acontecido com qualquer um, assim como anda ocorrendo a muitos. Morrer faz parte da ordem dos fatos. Basta nascer para estar condenado... e, de certo modo, ele ainda teve sorte de viver uma vida interessante antes de bater as botas. Pelo menos matou muitas curiosidades!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Regina, mas eu quase não te reconheci! Você tá muito peituda!” &lt;br /&gt;E Sílvia riu do próprio comentário. Rosa, ainda  achando que estava segurando vela não conseguia encontrar uma maneira confortável de permanecer sentada. De algum modo, enquanto estavam ali, pensava que deveria estar velando por Júnior. Afinal, ela havia sido a última... ou pelo menos quase a última. Por que, afinal de contas, ele foi atrás de Sílvia?&lt;br /&gt;“Silvinha, querida, depois que eu coloquei estas silicones novos você não sabe como minha vida mudou! Meu maridinho querido financiou e lá fui eu. Olha, parece mentira, no terceiro mês eu já tinha arrumado dois amantes!”&lt;br /&gt;Sílvia pegou no braço de Rosa, ainda sem olhá-la nos olhos e soltou uma larga risada. &lt;br /&gt;“Rosa, olha só, a gente que é mulher não arranja homem e Regina, que nasceu com pinto e saco vive cercado de marmanjo!”&lt;br /&gt;Rosa ouviu e não acreditou. Tudo bem que arranjou aquela mulher estranha mas, homem? &lt;br /&gt;“Você é homem mesmo?” Perguntou Rosa, repentinamente interessada no assunto.&lt;br /&gt;“Não! Pelo não sou mais! Deus, de vez em quando gosta de fazer piada, e fez uma comigo. Só isso!”&lt;br /&gt;E Regina frisou bem  a duas últimas palavras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio do sonho Júnior sentou na beira da cama de Reinaldo e começaram a conversar. É engraçado sonhar durante o dia pois a realidade parece menos real ainda. Fica até difícil saber a diferença entre sonho e o sonho.&lt;br /&gt;“Rei, Você não está bravo, está?”&lt;br /&gt;“Eu? Não, imagina. NO começo eu fiquei puto mas, depois de um tempo, aqui, cheguei à conclusão que ninguém tem culpa. As coisas aconteceram e pronto. Não dá pra ficar com raiva. Eu tô frustrado mas, com raiva? Não...”&lt;br /&gt;“A maioria das pessoas tem medo de morrer porque não sabem o que vão encontrar...”&lt;br /&gt;“Não. Eu acho que não é medo, é só a dor de encarar que não fizeram nada durante a vida. Sabe, de repente voc6e encara a morte e percebe que passou o tempo inteiro em um jogo de conveniências. Trabalhou, tentou fazer sucesso, teve família, comprou um carro, andou de barco, fez um monte de coisas que nào queria realmente. É difícil perceber a hora em que não tem mais volta. Não vai mais dar tempo de refazer a vida.”&lt;br /&gt;“Você está assim, Rei?”&lt;br /&gt;“Você me ajudou muito. Se eu não estivesse aqui, agora, provavelmente seria porque ainda estivesse me sentindo um bosta impotente.”&lt;br /&gt;“Legal!”&lt;br /&gt;Júnior desapareceu e Reinaldo acordou. A primeira coisa que fez foi tocar a campainha. Quando a enfermeira entrou pediu um telefone. Precisava ligar urgente para Dora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Regina achou muito chata a história toda da morte de Júnior. Como toda transformista que se preza apresentou milhares de suposições mas, depois de alguns minutos, ficou quieta. A mesa inteira ficou quieta. &lt;br /&gt;“As senhoras desejam mais alguma coisa?” Perguntou o garçom.&lt;br /&gt;“Um cafezinho, por favor.” Falou Rosa no que foi acompanhada pelas companheiras. &lt;br /&gt;O garçom se afastou e Regina falou.&lt;br /&gt;“Sabe, quando eu mudei de sexo foi um novo nascimento, não teve sensação de morte. Eu não estava abandonando um corpo, só estava retomando o que era meu de direito.”&lt;br /&gt;“Doeu?” Perguntou Sílvia.&lt;br /&gt;“A recuperação foi meio complicada. Sabe como é, quando tiram um pedaço tão grande da gente dá problema de equilíbrio.”&lt;br /&gt;Sílvia riu imediatamente, Rosa atrasou um segundo, levando à sério a conversa. &lt;br /&gt;Há momentos em que não é possível estabelecer a verdade. Regina era homem, mas não era mais. Sílvia era mulher, mas ainda era uma menina. Olhando para elas, observando como conversavam animadas, dava para duvidar que houvesse alguma dificuldade de comunicação entre homens e mulheres. Suas maneiras, seus agrados, risadas e palavras afetuosas refletiam sentimentos os mais diversos que, somados, resultavam amizade. Não havia um assunto específico, da conversa não surgiam conclusões, apenas o prazer de estarem juntas. &lt;br /&gt;Terminado o cafezinho, Regina levantou-se para ir embora. Deu três beijinhos em cada uma e saiu cheia de sacolas. Ao cruzar com um grupo de adolescentes, soltou mais ainda os quadris e rebolou como nunca. Os assobios encheram-na de moral.&lt;br /&gt;“Ela não é incrív
