Sexta-feira, Abril 02, 2010

Os dias têm passado lentos pela falta de expectativas. Não aquelas que dizem respeito a acertos financeiros e desculpas por falta de carro e casa e comida. Os dias têm passado lentos por meu abandono a um futuro meu, privado. Passou o tempo de me sentir compelido a realizar grandes coisas, ou mesmo as pequenas; deixei para trás aquilo que me dizia respeito para seguir adiante estabelecendo a possibilidade de futuro de meus filhos. Olho para as coisas que ficaram e realmente me sinto estúpido. Tivesse eu fé talvez pudesse me sustentar nas asas de anjos e assim ser levado em momentos de descanso a um paraíso de afagos e amor e irmandade. Nem isso está me mim - se esteve um dia. Amor e ódio, excludentes. A existência de um impossibilita o outro. Nada de complementares. Nada. E nem mesmo isso.

Muita raiva existia em mim. Frustrações várias e o desejo de encontrar um modo de alcançar a resposta: o que me levaria à felicidade? Um modo de não sofrer. Um sentimnto de insatisfação e a necessidade de ser alguém bom apesar de toda a raiva. Uma fúria sem tamanho em contradição com os valores que achei ter assumido. Tudo poeira em meus olhos. Tudo impedimento à visão do que realmente estava óbvio na minha frente todo o tempo.

Talvez eu pudesse ter utilizado melhor aquilo que em mim tenho para conseguir construir algo melhor. Talvez... mas não fiz nada. O que me incomodou sempre foi a incapacidade de ser realmente alguém bom. Algo que nunca consegui de verdade. Na contraposição de uma educação voltada para o abandono e a apatia, tentei viver uma vda adulta de realizações. Sem sucesso.

E nesse rumo passei tempo demais mascarando minhas insatisfações com o silêncio. Achando-me incapaz de enfrentar palavras e ações de abandono fiquei quieto tempo demais. Deixei que sentimentos a principio fáceis de lidar tornassem quimeras. Na máscara do compreensível - daquele que entende e aceita - fui me afundando mais e mais até me ver isolado de todos e mesmo de mim. Logo a única coisa concreta que eu tinha era uma imensa raiva, que eu lidava com a fantasia do entendimento e do aceitar e do falso perdão.

Raiva e insatisfação, uma mistura com fermento próprio. Uma receita que engoli tempo demais.

Hora de mudar de dieta.

Sexta-feira, Outubro 09, 2009

Hoje, convenhamos, estou afeito ao lugar comum e ao cansaço que tanto vejo ao meu redor e ouço falar. Não me sinto realmente tomado pela falta de energia, mas é ânimo. Os acontecimentos se sucedem e me levam ao ponto de desobedecer aquilo que acredito. E com isso sensações desagradáveis tomam conta de mim.

Penso se seria umdesconforto passageiro (certamente é) e busco me convecer que basta "dar tempo ao tempo". Neste momento penso que seria boa idéia usar o nome do blog para inspirar este texto. Ou seja, expor o caso. O que se passa em mim que torna a vida tão compreensível e mesmo assim tão estafante de lidar? Ontem imaginei, ao ler um livro do Dalai Lama, que eu deveria melhor analisar meu espírito e suas questões. Com um corte seco viajo para a Autobiografia de um iogue e me quero convencido de que a vida de homens santos - famosos ou não - serve de modelo para a minha. E então me lembro que não sou santo, e nem nunca me imaginei assim, e que apenas gostaria de escapar do sofrimento. E então me dou conta que eu sei das ferramentas e do número de vezes que as usei - infinitas - e de como esmoreço ao ser tomado por objetivos outros, menores na escala de minha existência.

Lá fora, além da janela carros passam esporádicos. Um homem abre o portão da garagem. Minha mão dói na altura do "pai de todos". Um flash da proibição de cigaros em lugares fechados e uma indagação que se torna a certeza de que divago por modelos. Parar a mente - mushin.

Afinal, por que me dei ao trabalho debuscar tanto pela vida toda e quando sei como encaminhar os processos me dou ao luxo de me entregar ao modelos - passado, futuro, fantasia. Será preciso uma melhor análise das questões do espírito? Nâo me refiro a buscar as causas de meus traumas e somatizações (existe uma diferença entre tensão postural e psicoemocional), não me quero retraumatizar. O que busco entender é onde está a certeza inexorável capaz de no momento presente me mostrar que a única escolha possível é a definida por meus valores e objetivos? Sim, uma vez mais, aí está o processo. Eu preciso saber melhor quais são meus valores e objetivos.

Por enquanto... enquanto busco aquilo que já sei, mushin. A luz em mim ilumine meu caminho.

Terça-feira, Julho 14, 2009

Detro em breve estarei postando material novo. Provavelmente um romance, ou algo assim.

Quinta-feira, Julho 17, 2008

Meu corpo são dois corpos sensíveis ao variar do amarelo do ipê ao vermelho nacarado do ácer outonal e linfa com o odor das patas do jaguar enquanto os bastonetes de meus olhos me dizem que desfaleço sempre ao confessar ser incapaz de ver o negror do coração de meu mais profundo amor e paixão pois flutua montados sobre artérias salgadas e veias doces e articulações escavadas no granito e ossos compostos de mil milhões de granículos vulcânicos e carne rescendendo ao sabor de carvalhos e perobas e células divididas em mil folhas sendo as folhas dos galhos de meus pulmões as mais delicadas e feito nuvens oscilantes de tranqüilidade sobre o oceano de meus desatinos ou talvez minhas unhas sejam apenas a fúria descontrolada e cinza a pairar solene sobre os Himalaias de um sonho de angústia e melancolia por meus dois corpos estarem se decompondo ao ritmo de meu espírito que não mais se reconhece como sendo um apesar do pulsar febril de meu coração escamoso abissal a continuar a piscar na distância infinita da estrela azul de teu olhar que nunca verdadeiramente será meu apesar d’eu sonhar um dia com o casamento da eterna natureza de deus com a finita veleidade de meu existir.

Terça-feira, Julho 15, 2008

E lá vamos nós. A vida continua e hoje eu tive uma visão. Sentado, olhando através de uma janela descoberta pelo vento, veio a epifania. Eu não me sinto eu. De repente, como um átimo antes da grande explosão de Hiroshima, tive meus olhos abertos pelo azul do céu. Minha vida está errada. Algo está fora de sincronia e preciso ajeitar isso. Você sabe o que é perceber de súbito que seu metrônomo deu pau? Pois foi isso. O músico me síncope.

Caminhando pela calçada, atento às lojas de veículos (estou procurando uma moto pra comprar) foi como se meus pés fossem de outrem. Mal toca pelo solo, é assim que me senti. Mal tocado pela vida que vivo e assim usufruindo de uma existência fake. Se tivesse um Marlboro teria acendido para ser levado para as nuvens como é levado para o céu a nicotina que tanto mata.

Sábado, Maio 10, 2008

um amigo olhou para o ladoe procurou ao redor algo que lhe desse conforto. Sem encontrar, abaixou os olhos e foi para o chão, onde uma fila de formigas carregava um gafanhoto morto - talvez caçado, talvez penas morto como tantos mortos. Com a ponta dos dedos, mexeu no cadáver e pensou

talvez a vida seja isso

e levantou-se e desistiu de procurar. Acendeu um cigarro e tossiu espasmódico. Estava gripado e com dor de garganta

- por que eu?

jogou o tubete albino para longe e esfregou a palma da mão no reboco úmido e viu que o muro podia ser melhor, assim como podia ser melhor tanto de sua vida e quem sabe sua morte. Abaixou-se, pegou o cigarro e voltou a fumar. Cada trago um peneumotórax, cada suspiro uma avalanche de pigarro e de desgosto por ser quem era e quem podia ser não se manifestava. Desceu a rua até a esquina e esperou que o sinal abrisse. Dois carros observavam-se. Um deles loira, o outro moreno. Cada qual perdido em pensamentos mundanos. Um vislumbrava a família aguardando o almoço recé-comprado, outro repensava as horas que havia pasdsado deitado em uma cama desconhecida e agora se arrependia pois havia esquecido a chave do apartamento em algum lugar entre a recepção e o quarto.

- Onde estou?

O céu o acusava de estar longe demais de si mesmo e ainda mais da vida que objetivou desde que era uma criança. Um dia acordou e viu que o berço não mais existia e que uma forte chuva que durava uma semana havia desistido de ser céu e tornara-se enxurrada no meio fio. Com os olhos mansos apoiou as mãos no beiral da janela e viu que a rua estava brilhando diamante e as pedras de paralelepípedo nunca estiveram tão belas. Correu para o quarto de sua mãe e pediu licença e pediu para dormir um pouco com ela que havia trabalhado a madrugada inteira. Sob as cobertas, com as cortinas fechadas, não mais havia sol ou chuva ou brilho ou dia exuberante, apenas o calor do corpo da mãe e a sensação de que a segurança da vida estava além da belexa ou mesmo de toda a força de uma existência paupatada em desígnios naturais. Sua vida se regia pelo sentimento de amor que naquele momento estava na sua mãe e que com o passar dos anos migrou para outras mulheres até que

- Não deve ser assim.

Atravessou a rua antes que o sinal abrisse e deixou bravo o carro loira e o moreno e correu para o ponto de táxi e pediu que o endereço fosse um nunca antes sido e desceu do automóvel com o peito arfante

- Você ainda me aceita?

Sombras de mim, ocultas em um corpo que amo e nas noites e nos dias e nos brilhos que se ocultam até que uma chuva alumbrada surja.

Amor que não desaparece até que consumido por ele mesmo, coração faminto e desesperado.

Sexta-feira, Abril 18, 2008

Ontem passei pela maior crise de falta de paciência dos últimos anos. Caía um alfinete e eu explodia. Uma coisa que estou desacostumado, ainda mais que cada vez que vinha a sensação ruim, eu sabia que devia fazer desaparecer e, estranho, na maioria das vezes eu não queria que desaparecesse. Sentia necessidade de explodir.

Hoje acordei melhor. Não sei o quanto, mas melhor.

A chuva continua. Caminhei sob ela e isso refrescou minha mente. Imagino o tempo todo que estou carregando uma lata de água sobre a cabeça. Isso me impede de me curvar aos sentimentos ruins. Chamo de sistema lavadeira de rio. Pessoas que estão na pobreza, falta tudo e ainda assim exibem uma postura de força e orgulho pelo que são. Admiro essas pessoas. Gente como essas tribos masai, africanas, que na maior das misérias conseva esse ar de garbo e poder que mesmo toda a riqueza do mundo posta contra eles, querendo humilhá-los, não rouba.

Continuo lendo a autobiografia de timothy leary. Muita coisa que eu não sabia de sua vida e a percepção de como eles eram ingênuos ao mesmo tempo que lutavam para transformar o mundo em um lugar melhor (ou talvez seja apenas hipocrisia e o que eles queria era se alienar). De qualquer modo, prefiro pensar que estavam buscando um mundo diferente do das misérias.

Aldous huxley os aconselhou a ficar na surdina, transformando pessoas influentes e que isso faria o trabalho de, com o tempo, levar a boa nova ao mundo. Não seguiram o mestre e se ferraram.

O legal é perceber que Huxley estava certo. Veja o que acontece hoje. Todos os jovens acorrem às festas à procura de drogas com traços de LSD. A psicodelia está solta e fazendo a cabeça e, espero, abrindo cabeças.

Nesse clima instável vejo a minha vida. Um dia de sol, um dia de chuvas, e sempre a esperança de que tudo se ajeite.

Com esse cansaço eu estou escrevendo pouco. Preciso arrumar isso. Manter minha sanidade.